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08/08/2005 Undime

Professora muito especial

Débora começa sua carreira como primeira professora formada no magistério com Síndrome de Down

São 8h30 da manhã e Débora está sentada no chão de um cercado baixo, sob a sombra de uma árvore generosa. Com ela, dez bebês engatinham e se divertem entre bolas e outros brinquedos. Quando uma garotinha se aproxima, Débora agita um chocalho improvisado, feito de uma garrafa pet e grãos de feijão. Imediatamente a criança agarra o objeto e começa a balançá-lo. "É preciso estimulá-los", diz ela, virando-se na minha direção.

Uma hora depois, Débora está dentro de um salão colorido se desdobrando numa cadeirinha para alimentar uma menina de 6 meses. Entre uma colherada e outra, observa uma das educadoras brincando com os pés de outra criança, que está deitada."Era assim que minha mãe fazia comigo. É um ótimo exercício ", conta. Em meados de fevereiro, Débora Seabra, 23 anos, realizou um estágio na Creche da Área da Saúde, que pertence à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), interior de São Paulo. Foram cinco dias de atividade, dos quais a Revista Saúde! acompanhou um.

Não foi, por certo, o primeiro trabalho da jovem com crianças, mas a temporada em Campinas teve um gosto todo especial. Ora, pela primeira vez ela atuou como profissional formada dentro da área que escolheu. Apenas dois meses antes do estágio, Débora tornara-se a primeira professora brasileira com síndrome de Down erguendo seu diploma de magistério em uma animada cerimônia de formatura da Escola Estadual Luis Antonio, em Natal, Rio Grande do Norte. Agora que a estudante tornou-se mestra, ela quer passar adiante os valores que aprendeu na vida e nas escolas que freqüentou. Segundo a professora, sua conquista não marca pontos apenas para os portadores de síndrome de Down - "é uma vitória principalmente da educação".

Em Campinas, a programação seguida por Débora foi origidamente a mesmíssima enfrentada por qualquer recém-formado que chega à creche da Unicamp solicitando estágio - como, aliás, tem sido durante toda sua vida. Sempre estudou em escolas normais, sem nenhuma adaptação para receber alunos especiais como ela. Qualquer ajuste para facilitar as coisas é logo rejeitado. "Eu me viro assim. E é assim que tem que ser", diz.

Aos 2 anos de idade ingressou na pré-escola e não parou de estudar. Em algumas matérias precisou de maior auxílio das professoras, cujos nomes ela guarda de cor. "Nunca fiquei de recuperação", orgulha-se. Desinibida para falar (as sessões de análise a ajudam nisso), Débora não se esquiva de nenhum assunto.

Quando interrogada sobre como foi sua vida de estudante, ela lista de imediato três coisas que a marcaram."Aprendi muito sobre a exploração, o preconceito e a indiferença." É então que se exalta. Olha para baixo e gesticula sem parar. No colégio em que se formou, ela conta, as colegas pediam para usar seu celular alegando que seus aparelhos estavam sem bateria - balela, claro. Em casa, a mãe, a psiquiatra Margarida Seabra, estranhou a conta acima de 1 mil reais. Revoltada, Débora nunca mais levou o telefone para a escola. Anos antes, no Colégio Imaculada Conceição, também conviveu com "muy amigos". Ela não era a única com a síndrome a freqüentar aquela instituição. Um dia viu duas meninas brincando no pátio. Aproximou-se e pegou a bola. Foi repreendida. "Com Down basta uma", falou uma delas.

Sem se abalar, Débora voltou ao pátio no dia seguinte com o folheto de uma campanha de mídia e o entregou nas mãos da colega. "Preconceito agora é
crime", dizia o slogan. E dizia tudo. A reação da sociedade fez com que Débora brigasse com a própria a doença. Doença? A nova professora me corrige no mesmo instante em que uso a expressão. "Síndrome de Down não é doença. É um problema genético", diz. "Cuidado para não misturar as coisas no seu texto", recomenda.

Na adolescência Débora disse diversas vezes a sua mãe que não desejava mais carregar seu problema. Perguntava sem cessar se havia uma cura. Queria ser como as outras garotas da sua idade. A mãe retrucou: "Todos nós temos as nossas diferenças. Alguns não podem jogar futebol, outros não podem comer doce". Débora insistiu: "É, mas a minha diferença é mais chata". Margarida, então, disse: "Você tem razão, mas não dá para tirar o Down de você. Trate então de trabalhar para agir como as pessoas da sua idade". Dois anos depois Débora procurou sua mãe para falar do mesmo assunto. "Mainha, já não me incomodo mais com a síndrome", foi tudo o que disse.

Amor e política

Com esse basta, Débora seguiu uma vida bastante normal. Namorados? "Para falar a verdade, tive dois. Só dois. E alguns "ficantes" ", diz, risonha e vaidosa. Não tem partido político preferido, mas procura analisar tudo antes de dar o seu voto. Em vésperas de eleição, assiste ao horário eleitoral gratuito na televisão para se decidir. Votou em Lula para presidente. "Uma vez ele falou que temos que respeitar as diferenças", justifica. De volta a Natal, Débora retomou o seu cotidiano. No seu quarto, ouve músicas em um aparelho de som. O sertanejo é o estilo mais tocado - Sandy & Júnior, a dupla preferida. Mas entre seus discos há espaço para Elis Regina, Ivete Sangalo ("Poeira!", canta ela erguendo as mãos), Beatles e Djavan. Três vezes por semana Débora se exercita na esteira de casa e faz ginástica com aparelhos de musculação. " É para ficar saradinha ", brinca.

Como as aulas particulares de reforço terminaram, Débora encontrou tempo para um curso de culinária. Ela, que hoje só sabe esquentar pipoca, quer executar receitas do começo ao fim. "Débora é muito boa em procedimentos. Quando assimila uma rotina, faz tudo direitinho", nota Magali Arnais, pedagoga da creche da Unicamp. A mãe também pretende matriculá-la em aulas de teatro, porque seria uma maneira de a moça continuar o trabalho de dicção iniciado em sessões de fonoaudiologia.

A principal meta dos pais, no entanto, é preparar Débora para uma vida independente, o que inclui desde fazer compras em um supermercado até arrumar um marido. "Tem que ser alguém que dê amor, proteção e carinho. Deve ser trabalhador e responsável", elenca a garota, em mais uma de suas listas. Estudar violão e aprender jardinagem também estão nos planos, mas a prioridade zero é seguir sua profissão. Este ano Débora irá brigar pelo primeiro emprego, como milhares de brasileiros recém-formados. "Eu gostaria muito de dar aula a crianças, como auxiliar de professora", revela. Para Maria Teresa Mantoan, pedagoga da Unicamp, o mais importante não é a menina ter um diploma para exibir na parede. "O relevante mesmo é o fato de Débora ter conquistado um lugar no mundo do saber. Ela é hoje plenamente capaz de tomar as próprias decisões", avalia.

Classificação complicada

A síndrome foi catalogada no código internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde, o que faz com que muitos médicos a considerem como tal."Há prejuízos envolvendo vários órgãos de tal sorte que, indiscutivelmente, estamos diante de uma doença", diz José Salomão Schwartzman, neurologista da Universidade Mackenzie, em São Paulo. Mas outros especialistas entendem que o conceito de doença não se aplica nesse caso."A idéia de doença leva a crer que, eventualmente, ela poderia ter uma cura", pensa Antonio Carlos Sestaro, presidente da Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down. "Como se trata de um acidente genético, essa possibilidade não existe."

As perspectivas

Quando são tomados alguns cuidados de saúde, um indivíduo com a síndrome pode ter um desenvolvimento muito satisfatório. Embora esse progresso varie muito de uma pessoa para outra, existe uma regra geral."Aquele portador que foi estimulado e acompanhado desde a infância terá um desenvolvimento muito melhor do que os que não foram bem recebidos pela família, que acabaram segregados ou que ficaram sem oportunidade de conviver com outras crianças, especiais ou não", afirma Sestaro.


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