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16/12/2002 Undime

Expandindo o Bolsa-Escola

Em abril de 2000, tomei um táxi no centro de Washington, em direção ao aeroporto. Para puxar conversa, perguntei ao taxista de que estado norte-americano vinha. Respondeu que não era de nenhum, era de Uganda, no centro da África. Depois da surpresa, retomei a conversa perguntando sobre a situação das crianças órfãs da Aids, no seu país. Respondeu que tinha perdido uma irmã e o cunhado – sua mãe idosa tinha que cuidar dos netos. Disse que milhares de crianças sem pai ou mãe vagavam perdidos nas ruas de Campala. Completou dizendo que sua mulher mantinha uma organização não-governamental para apoiar essas crianças.

Quando terminou, disse porque estava na cidade. Falei da reunião no Banco Mundial, da Missão Criança, expliquei a Bolsa-Escola e como ela tirava crianças do trabalho e das ruas para a escola. A cada explicação e informação que eu apresentava ele fazia nova pergunta, até que, próximo ao aeroporto, perguntou se podíamos continuar a conversa. Quando terminei de fazer o check-in, vi o motorista caminhando em minha direção. Continuamos a conversa e, após 20 ou 30 minutos, embarquei para Genebra, na Suíça.

Dias depois, de volta ao Brasil, encontrei uma mensagem de Rhoy Kaima. Era a mulher do taxista. Dizia ter lido o material que deixara com o marido e perguntava se seria possível fazer um Bolsa-Escola num dos países que sua entidade, a Ark Foundation, atuava: Uganda, Quênia e Tanzânia. Respondi que sim, mas pedi que fosse na Tanzânia, em homenagem a Julius Nyerere.

Nos meses seguintes, o pessoal da Missão Criança manteve intenso contato com Rhoy e a Ark Foundation, explicando os detalhes do mecanismo de implantação do Bolsa-Escola. Aos poucos o programa foi se formando, enquanto buscávamos recursos externos para financiá-lo. No meio do processo, fui convidado à Genebra, onde estive com Reinaldo Figueredo, ex-ministro do exterior da Venezuela.

Ouvi dele a possibilidade de que o programa poderia ser bem recebido por uma fundação inglesa da qual sua mulher, Michelina Figueredo, era conselheira. De seu escritório entrei em contato com a Missão Criança, em Brasília, e pedi que preparassem um projeto, que, graças à diferença no fuso horário, foi possível receber na manhã seguinte. Poucos meses depois, a Parthenon Foundation, de Londres, aprovou o projeto oferecendo recursos suficientes para atender até 250 famílias, ao longo de dois anos. Em 2002 pudemos começar a pagar as bolsas às crianças em Dar es Salaam. Foi um longo trajeto percorrido em dois anos. Em meados deste ano, o representante no Brasil da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Jorge Wertheim, me convidou para fazer uma palestra durante o VIII Encontro de Ministros de Educação da África, em Dar es Salaam. Além do interesse em levar a idéia da Bolsa-Escola, aceitei o convite, sobretudo, pela oportunidade de visitar os beneficiados pela Missão Criança. Ainda mais quando soube que lá estaria a mulher do taxista, cuidando de seus projetos. Encontrei Rhoy Kaima na casa onde funciona a filial da Ark Foundation. Uma africana ativa, indignada com a corrupção dos políticos, triste, mas sem abatimento com a situação do povo africano. Disse que os adolescentes que atendia eram filhos de pais que morreram naquele dia, na véspera, na semana anterior, ou que morrerão nos próximos dias. Que muitos deles estavam infectados também. Entre eles, ela caminhava dando ordens, sugerindo ações, procurando resolver cada problema de enterro, alojamento, escola, comida, remédios. Muito bem informada sobre tudo que acontece no mundo, especialmente na África, durante o trajeto de táxi até o lugar em que estão nossas crianças, ela nos proporcionou uma avaliação da tragédia social africana provocada pela assombrosa dívida financeira, pela pobreza abrumadora, pela corrupção geral e, sobretudo, pelo terrível fantasma da AIDS.

Disse que, na África, os professores estão mortos, doentes, contaminados, ou a caminho da contaminação. É nesse mundo que encontramos nossas 160 crianças: quase todas órfãs da AIDS, algumas delas também contaminadas, ainda sem conhecimento do que lhes ocorre, do que as espera. A escola, em um barraco de uma única sala, é pobre, mas limpa. As crianças e suas mães adotivas nos esperavam. Cantavam uma música de boas-vindas. Entramos: os adultos sentados em bancos, as crianças no chão, todas aparentando menos de 10 anos. Começamos a entregar diplomas de assiduidade às aulas. Depois, Rhoy Kaima passou a entregar o dinheiro a cada mãe. Acompanhei o lado bom da globalização. Ainda assim, para um brasileiro que começou a falar da idéia há 15 anos, a implantá-la há oito e há quatro anos corre mundo divulgando a Bolsa-Escola, ver os olhos daquelas crianças e de suas mães adotivas ao receberem os xelins tanzanianos das mãos de uma ugandense que mora nos Estados Unidos, com financiamento em libras esterlinas de uma fundação inglesa, convertidas em reais, depositados no Brasil - lembrando que tudo isso partiu de uma corrida de táxi até o aeroporto de Washington -, foi difícil esconder a emoção.

Nas duas palestras que fiz para os ministros, comecei dizendo estar ali apesar de não ser africano nem ministro. Provavelmente por ser meio-africano, como bom brasileiro que sou; e meio-ministro, porque os jornais diziam que eu o seria a partir de janeiro. Depois, expliquei o que era o Bolsa-Escola, seus resultados em diversos países, e concluí dizendo que havia um programa Bolsa-Escola ali mesmo em Dar es Salaam, e melhor do que ouvir idéias gerais, seria escutar a encarregada do programa.

Nas duas vezes, Rhoy falou com firmeza e emoção, lembrando o que acontece na África, como se aqueles ministros não soubessem. E, de fato, fechados em gabinetes com ar condicionado, deslocando-se em Mercedes blindados, como os ministros em todos os países, talvez não conheçam, ou conheçam, mas não se indignem, com a situação. Concluiu explicando o que a Bolsa-Escola fez para mudar a vida das famílias e das crianças. Contou que, no primeiro mês, teve de cortar bolsas das crianças que faltavam aulas e que, no segundo mês, praticamente nenhuma precisou ser cortada, porque nenhuma criança faltava mais. Explicou que a Bolsa-Escola resolvia os problemas fundamentais das famílias e levava as crianças à escola, todo dia. E concluiu dizendo em inglês: "É disso que a África precisa".

Se, em Washington há dois anos, eu tivesse chegado à porta do hotel segundos antes ou depois, teria tomado outro táxi e seria outra a situação atual daquelas crianças. Foi a coincidência, o interesse de um taxista ugandense, a militância de sua mulher, a boa-vontade de um ex-ministro venezuelano e sua mulher e muito trabalho do pessoal da Missão Criança, que permitiram levar esperança para o pequeno grupo de 160 crianças. Quase nada, no imenso oceano de 90 milhões de outras sem-escola na África, 250 milhões de trabalhadores infantis no mundo, mais de três milhões só no Brasil. Mas quem sabe o exemplo de Rhoy e Dar es Salaam não se espalhe por todo aquele continente, com o interesse dos ministros pelo desafio sugerido por ela e que começou numa corrida de táxi do outro lado do mundo. Foi longo o percurso de Washington a Dar es Salaam, entre 2000 e 2002, passando por Brasília, Genebra e Londres, graças a tanta gente e tantas entidades, por meio de aviões, telefones e e-mails - tudo moderno, tudo global: uma globalização boa, a serviço das crianças excluídas em um mundo globalizado."


Cristovam Buarque é presidente da Missão Criança e senador eleito pelo PT

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