Valorização dos saberes presentes na comunidade e intertersetorialidade foram algumas das questões debatidas no Seminário Internacional de Educação Integral

Picture of undime

undime

O debate sobre educação integral vai muito além da discussão sobre a ampliação do tempo de aprendizado. A integração de tempos, espaços e conteúdos; a valorização dos saberes da comunidade e a questão da intersetorialidade foram alguns dos temas abordados pelos especialistas e gestores ao longo do Seminário Internacional de Educação Integral, realizado pela Fundação Itaú Social, Unicef e Cenpec na última terça (29) e quarta (30) em São Paulo (SP).

“Nós queremos que, ao aumentar o tempo, seja possível aumentar as oportunidades de aprendizagem das crianças. É preciso articular conteúdos com a cultura da criança, com o saber que ela traz e que está presente na comunidade”, salientou a coordenadora do Unicef, Maria de Salete Silva.

Essa interlocução do currículo com a realidade da criança exige um olhar atento para o território. “Temos que pensar nos territórios, ver quais são as suas necessidades e estabelecer uma conversa com essa realidade”, explicou a superintendente do Cenpec, Anna Helena Altenfelder. “Isso não quer dizer esquecer um contexto maior. O desafio é fazer constantemente esse diálogo entre o local e o global, tendo todas as ações permeadas pela ética e pelo respeito à diversidade”, ressalvou.

O diálogo com o território também está relacionado à necessidade de se fortalecer os vínculos com a comunidade, de se promover a circulação e apropriação da cidade e de explorar o seu potencial educativo. A articulação de diferentes equipamentos e organizações no processo educativo é, ainda, uma forma de envolver toda a comunidade, fazendo com que ela se sinta responsável pelo aprendizado das crianças e adolescentes.

“A sociedade inteira deve se comprometer com a aprendizagem das crianças. E ela tem uma série de oportunidades de participar desse processo, disponibilizando, por exemplo, espaços que podem ser usados complementarmente aos da escola”, destacou o vice-presidente da Fundação Itaú Social, Antonio Matias.

Mais do que uma possibilidade, a utilização de espaços presentes na comunidade é uma necessidade, já que é comum nas escolas a carência de espaços para o atendimento em tempo integral dos alunos. Essa característica, aliás, é um dos aspectos que distingue a proposta de educação integral defendida pelo MEC das experiências desenvolvidas anteriormente. “É um modelo diferente dos idealizados por Darcy Vargas, Anísio Teixeira, que partiam de um projeto arquitetônico. O Mais Educação parte do que já existe na comunidade”, comparou o coordenador de Educação Integral do MEC, Leandro Fialho.

Intersetorialidade
Formar integralmente os indivíduos, levando em consideração todas as suas dimensões, exige ainda enfrentar outro desafio: o da intersetorialidade – tema de uma das mesas do Seminário.
“Não podemos colocar nos ombros da criança a responsabilidade de integrar as políticas públicas”, salientou a representante do Unicef, Maria de Salete Silva.

“Intersetorialidade se dá entre iguais. Mas ainda hierarquizamos quais os setores que são mais importantes na vida do sujeito”, analisou a presidente do Congemas (Colegiado de Gestores Municipais de Assistência Social), Ieda Nobre de Castro. Ela lembrou ainda que uma gestão intersetorial precisa enfrentar o entrave da burocracia e lidar com a questão do acesso e gerenciamento de informações.

Uma outra dificuldade para que haja diálogo entre as políticas mencionada pela secretária de Educação de São Bernardo do Campo, Cleuza Repulho, é a colaboração de quem está atuando na ponta. “A primeira questão é ter vontade política, não só de quem está no poder, mas de quem está no serviço público também”, frisou.

O Seminário contou em sua programação com a participação de educadores e especialistas de outros países, que puderam a partir de um outro contexto relatar experiências de educação integral e apresentar reflexões.

César Muñoz Jiménez, de Barcelona, Espanha, apresentou alguns dos pressupostos da Pedagogia da Vida Cotidiana, desenvolvida por ele. “O trivial é fundamental, porque por aí passa a vida”, salientou Jiménez. Ele também defende uma maior valorização do sentimento e atitude do que da palavra, porque “a atitude é o mais difícil de mudar em um ser humano”.

Falou também sobre alguns dos projetos coordenados por ele que tinham como enfoque o exercício da participação por crianças e adolescentes, um dos temas centrais do seu trabalho.

Guillermo Alonso Ângulo, que dirige uma ONG de educação popular no México, discorreu sobre educação integral a partir da conjuntura do País. Segundo ele, o México vive um momento de crise aguda. “Optamos pela segurança em detrimento da liberdade”, afirmou. Nesse contexto, a educação integral se apresenta como uma alternativa possível.

Notícias recentes

Assine nossa newsletter