A Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados foi palco na última quinta-feira (14), de audiência pública para discutir os aspectos culturais dos recentes ataques racistas e homofóbicos de grupos extremistas contra estudantes da Universidade de Brasília (UnB). A audiência foi requerida pela deputada Érika Kokay (PT/DF) e contou com a presença de representantes do movimento estudantil e sindical, autoridades jurídicas, servidores da UnB e dirigentes educacionais. Na ocasião, a Undime foi representada pela presidenta da Undime BA e da Região Nordeste, Gelcivânia Mota, também Dirigente Municipal de Educação de Serrinha (BA).
Os ataques ocorreram no mês passado, na noite do dia 17 de junho, no campus Darcy Ribeiro da UnB. Um grupo de pessoas adentrou o Instituto Central de Ciências (ICC), no horário de aulas, com megafone e bandeiras do Brasil e iniciaram a estratégia de intimidação violenta: gritos com insultos racistas e homofóbicos, ameaças de agressão e homenagens a parlamentares extremistas. Além dos insultos e ameaças, o grupo soltou bombas na entrada do prédio e, segundo relatos, alguns estudantes foram seguidos por uma motocicleta no estacionamento da universidade.
A deputada Érika Kokay coordenou a audiência e justificou o espaço como fundamental não só para dar visibilidade aos processos de violência direcionada a determinados grupos sociais como para propor articulações permanentes de discussão. Em perspectiva ampliada, a parlamentar acredita que o fato ocorrido na UnB tem vínculo direto com os movimentos de cerceamento da atividade docente e do livre pensamento nos espaços educacionais. Por isso, a deputada ressaltou o papel de articulação de organizações educacionais no enfrentamento dessas iniciativas.
Para Joelma Rodrigues, coordenadora das Questões Negras da Diretoria da Diversidade (DAC/UnB), o ataque não causou surpresa. Na visão dela, se trata de uma violência enraizada, motivada por ódios adormecidos que saíram do armário, sendo expressão de hierarquias violentas de classe, raça e gênero que estruturam a sociedade. “A UnB é um microcosmo (…) A gente vê acontecer na universidade o que se vê todo dia, o discurso de ódio”, afirmou. Em consonância com a coordenadora, a procuradora da República no Distrito Federal, Luciana Loureiro, diagnosticou o ataque como expressão de um fenômeno de violência direcionada às minorias políticas. Apresentou, ainda, a necessidade de normatização específica para esses crimes atribuindo papel importante nas leis para modificar condutas ao longo do tempo e estabelecer novo padrão de convivência. Para ela, a resposta penal é importante, mas não suficiente.
O caráter direcionado dos ataques ficou mais aparente durante à exposição do representante da Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra), Rogério Fagundes. Ele leu trechos da conversa de articulação do grupo que promoveu o ataque por meio do aplicativo de mensagens Whatsapp. Dessa forma, sugeriu ser “uma cultura que se estabeleceu na UnB”, em referência a diversos outros casos de violência já ocorridos na Universidade de Brasília e em outras universidades. Em contraponto, afirmou que “a UnB é capaz de fazer frente a esse processo” e defendeu a importância da discussão interna na Universidade de uma política de segurança com perspectiva da diversidade.
A Dirigente Municipal de Educação de Serrinha (BA), presidente da Undime BA e Undime Região Nordeste, Gelcivânia Mota, apontou estratégias que envolvam a comunidade educacional, com destaque para o papel dos educadores na proposição de ferramentas que combatam a violência no ambiente educacional. “Nós, como educadoras e educadores precisamos nos preocupar em fornecer instrumentos teóricos-metodológicos para enfrentar essa situação”. Para ela, em outra frente, caberia aos educadores a tarefa de formação social, a partir desses instrumentos de enfretamento, difundindo a perspectiva “da escola como espaço de convivência entre os diferentes”.
Ainda tratando das estratégias e tarefas que envolvem a gestão educacional, a Dirigente Municipal de Educação destacou o papel formativo das universidades, propondo assim o desenho de diretrizes de formação de professores capazes de lidar com a diversidade no ambiente escolar.
A audiência contou também com a participação ampla e militantes de Centros Acadêmicos e coletivos políticos da UnB. Alunos e militantes exigiram respostas da Reitoria da Universidade e uma mesa permanente de diálogos para construção de estratégias de enfrentamento à violência racista e homofóbica no seio da comunidade acadêmica. Já no fim, a parlamentar Erika Kokay salientou a necessidade de se estabelecer novas estratégicas de visibilidade e enfrentamento. Para tanto, se comprometeu a realizar novos seminários no sentido de aprofundar o debate.
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Fonte/ Fotos: Undime


