
Integrante do Comitê São Paulo
Não é do dia para a noite que se forma uma rede. Antes disso, é preciso juntar os laços e, pouco a pouco, fortalecê-los. A própria palavra rede vem do latim retis, que é o resultado do entrelaçamento de diversos fios que, por meio de aberturas, forma um único tecido.
Os séculos foram passando e o significado da palavra rede também caminhou e ganhou outras dimensões. A lógica continua a mesma, só que, em vez de laços, são ideias, grupos e pessoas que formam o tecido da articulação social.
Exemplo disso é o da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, rede formada por mais de 200 organizações, que, do dia 19/8 a 22/8, reuniu representantes de quase todos os estados do país em seu 9º Encontro Nacional.
Durante quatro dias, mais de 100 pessoas dos vinte e cinco comitês e pró-comitês, distribuídos por todo o país, estiveram reunidas em Brasília para discutir o atual contexto político da educação brasileira e reforçar o papel dos movimentos sociais no processo de incidência na área educacional.
José Alberto da Silva, integrante do FOJUPE (Fórum da Juventude de Pernambuco), conheceu a Campanha quando ainda estava no ensino médio de uma escola pública pernambucana. Desde então, tornou-se ativista da educação em seu estado. Hoje, aos 27, é um dos representantes do Comitê Pernambucano da Campanha.
Para ele, o Encontro Nacional da Campanha é um momento de refletir sobre a prática das diversas organizações da rede e articular novas ações. ?Além de formar uma rede forte com tantas entidades, grupos, movimentos e organizações, estar na Campanha fortalece a nossa luta localmente, integrando-as às pautas nacionais, desde as conferências, seminários, incidência política no Congresso e projetos de leis?, disse o ativista.
Assim como José Alberto, a maioria dos integrantes dos comitês estaduais vêm de movimentos que convivem diretamente com a realidade das escolas no Brasil, como os fóruns de educação infantil ou de EJA (educação de jovens e adultos), sindicatos de professores, grêmios e diretórios acadêmicos, movimentos sociais locais e grupos universitários.
E para quem já reivindica regionalmente por uma educação de qualidade, esse é um momento de reconhecer que os desafios educacionais de um estado no norte do Brasil também estão presentes no sul ou centro-oeste. Além disso, propicia a cada um deles formação em temas como o financiamento da educação pública e o Plano Nacional de Educação (PNE), que, geralmente, não estão presentes nas pautas dos interiores das escolas públicas.
Para a coordenadora executiva da Campanha, Iracema Nascimento, o encontro presencial é um momento fundamental para alimentar o sentimento de pertencimento das pessoas a essa rede. ?A Campanha não faz iniciativas publicitárias nos meios de comunicação, quem leva as nossas mobilizações a todo o Brasil são os atores sociais, que vivem o desafio de fazer a escola no dia a dia?.
Para Margarida Marques, integrante do Comitê Pernambucano e do Comitê Diretivo da Campanha, um dos elementos mais importantes desse encontro presencial é consolidar a diversidade da Campanha enquanto um sujeito coletivo. ?Esse é um deságio muito raro, que reúne diferentes sujeitos e olhares, que se expressam na incidência política como uma única voz?.
Mesmo estando a alguns estados de distância, Vitalina Gonçalves, da coordenação do comitê do Rio Grande do Sul, também dialoga com o pensamento de Margarida, pois acredita que os eventos presenciais são de extrema importância para uma rede tão diversificada. ?Nós sempre temos a prática da troca por meios virtuais, mas poder materializar e fazer essa troca presencialmente é o que reforça essa rede, e por consequência, a convicção das bandeiras que nós defendemos em prol da defesa da educação pública?, afirmou.
O Encontro
Os quatro dias de encontro ofereceram formação aos diversos educadores e ativistas presentes, com mesas que trouxeram ao debate temas que permeiam também a educação, como o direito à cidade e ao transporte, com fala de representantes do MPL (Movimento Passe Livre) e a importância da discussão de gênero, com representação da Marcha das Vadias.
Além da análise de conjuntura sobre os principais temas da agenda da educação, na terça-feira, 20/8, os participantes realizaram um ato público de incidência no Senado Federal, visitando os gabinetes dos senadores de seus estados para apresentar a proposta de investimento dos 10% do PIB em Educação Pública no PNE. Dos 25 estados presentes, todos conseguiram entrar nos gabinetes.
?A Campanha tem como princípio a formação de atores políticos e novas lideranças e a ação de advocacy no encontro nacional sempre tem a capacidade de trazer os membros da rede à ação política direta no Congresso Nacional, fazendo com que eles se deparem com a realidade do parlamento e aprendam com isso?, é o que afirma o coordenador geral, Daniel Cara.
Analise da Silva, além de professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é também coordenadora do Fórum de EJA em Minas Gerais. Além dela, representantes do Fórum de EJA de São Paulo, Ceará, Rio de Janeiro e Alagoas também fazem parte de comitês da Campanha em seus estados. ?Para os fóruns de EJA, integrar a Campanha é extremamente estratégico, pois a educação de jovens e adultos é tratada, pela maioria dos gestores, como um projeto, mas ela é uma modalidade?, explica.
Desde a Constituição de 1988 e da LDB (Lei de Diretrizes e Bases), de 1996, a EJA está prevista como uma modalidade da educação, portanto, deve ser oferecida de forma obrigatória. ?Estar aqui é bem importante, pois nos dá visibilidade, nos coloca a dialogar com outros sujeitos que estão também na construção da educação de qualidade social?, explica a professora.
Assim como Analise, a professora universitária e integrante do Movimento Interfóruns de Educação Infantil no Brasil (MIEIB) do Maranhão, Fabiana Canavieira, também encontrou outros ativistas da educação infantil, permitindo uma troca de experiência entre os estados. Para a professora, o encontro é um momento que permite a atualização das pautas regionais e nacionais, abrindo caminho para articulação entre diversas organizações que reivindicam uma educação de qualidade. ?O encontro auxilia no fortalecimento da Campanha, com discussões regionais e nacionais, com uma formação política formando uma unidade em relação às principais bandeiras de luta do campo educacional?, diz.
?Uma grande virtude do diálogo é que a fala do outro te faz pensar coisas que você anteriormente não tinha pensado. Se me disponho ao diálogo, o outro me estimula não só pela fala dele, mas a incorporação da fala dele me ajuda a fazer interlocuções que sozinho não faria. Essa troca é o motor da presencialidade?, sinaliza o professor da Universidade Federal do Ceará, Idevaldo Bodião, e integrante do Comitê Cearense, para quem o encontro presencial é uma oportunidade de renovar o diálogo entre a rede.
Assim como as redes de tecido, nas quais a rede só se forma a partir de aberturas, uma rede social também segue essa dinâmica. Desde maio, ativistas da educação infantil de Goiás estão organizando um comitê no estado. ?Nós vimos para conhecer mais de perto esse movimento para assim levarmos novas contribuições para as conferências municipais e estaduais?, disse Lucileine Gonçalves, membro do Fórum Goiano de Educação Infantil e integrante do pró-comitê da rede em Goiás.
Para participar dessa roda não há regras. Quem quiser também se tornar ativista da educação em seu estado, basta procurar pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação por meio do site http://www.campanhaeducacao.org.br/ ou mande um e-mail para campanha@campanhaeducacao.org.br.
Autor: Campanha Nacional pelo Direito à Educação


