Os dirigentes que participam do 5º Fórum Nacional Extraordonário da Undime esqueceram-se do frio de 14° em São Bernardo do Campo/SP, assim que o rapper MV Bill subiu ao palco do auditório do Centro de Formação dos Profissionais da Educação ? Cenforpe.
Ele contagiou a plateia pela simpatia, descontração, humildade e facilidade de se comunicar. E ao final, foi reconhecido pelos dirigentes não só como artista, mas também como um filósofo.
?Estamos encantados com o que você falou. E percebemos o quanto nossa escola exclui. Admiramos como você se expressa tão bem para uma plateia de educadores e entende o PNE 10%.?, declarou Maria do Carmo Pereira , dirigente de Cajazeiras/PB.
MV Bill defendeu a melhoria da qualidade da educação. A Undime passou a ele todos os detalhes de como anda a tramitação do Projeto do Plano Nacional de Educação na Câmara dos Deputados. O rapper soube também que a instituição defende que 10% do PIB ? Produto Interno Bruto sejam aplicados na educação pública. Em resposta, fez questão de colocar a própria imagem a serviço da causa dos 10% .
O rapper contou sua trajetória escolar. Falou de professoras que guarda no coração. Denise e Marta marcaram pelo carinho, e até hoje ele as chama de tia. E a professora Nair foi a primeira a perceber o talento de Bill para a escrita. ?Ela sempre lia minhas redações na frente da sala, questionava meus argumentos e minimizava meus erros ortográficos. Foi ela quem contou pra minha mãe que eu tinha o dom da escrita?, relembrou.
Mesmo depois que interrompeu os estudos, Bill recorreu à leitura sempre com o dicionário ao lado. ?Eu tinha consciência de que para compor rap eu precisava saber bem o português, porque rap exige rima e muitas palavras por minuto?, declarou.
O rapper carioca contou como levou o Rap para dentro das escolas do Rio de Janeiro e também falou de temas polêmicos. Violência nos colégios, de policiais armados nas escolas… ?Acho uma disputa desleal do professor com o traficante. Não indico a nenhum professor disputar aluno com o traficante?, aconselhou.
MV Bill criou a CUFA, Central Única das Favelas, que proporciona ensino profissionalizante e atividades culturais e esportivas em comunidades carentes por todo Brasil.
Ao final, defendeu mais uma vez o acesso à educação ?A educação hoje é quase um artigo de luxo. A escola precisa ser mais atrativa para os alunos?, afirmou. MV Bill criticou as letras pornográficas do Funk. E ao final recitou um rap de sua autoria em forma de poesia.

Causa e efeito
Pouca coisa mudou
O responsável pela nossa tragédia não assimilou
Que pra mudar é necessário mais que um discurso…
no percurso falei com gente estúpida
Penso no que diz nossa bandeira fica em dúvida
O que será que eles acham de nós
que não sabemos falar?
que não sabemos votar? Há
Nossa voz ta no ar
Por mais que eu tenha espírito de mudança
vejo contradições que me causam desesperança
Cansa ver tanta gente ignorante
Tratando gente humilde de forma arrogante
Deselegante ao lidar com a maioria
Que fala com sotaque de periferia
Na correria, sobrevivendo a covardia
Daqueles que nos retribui com antipatia
A superação me emociona
Mas a apatia dos irmãos me decepciona
Vivemos da democracia que não funciona
Condição social que aprisiona
Vários vão a lona
Sentados na poltrona
Recebendo ordens que serão ditadas na telona
E nos deixam como herança
Uma verdadeira erupção de criança na minha lembrança
Não da pra esquecer o que eu vi (na lembrança)
Não da pra esquecer o que senti
percebi…
Que a policia continua sendo o braço governamental
Na favela discimina o mal
Com suas fardas e caveirões
A serviço daqueles que controlam opniões,que roubam
milhões, donos de mansões
Constrói a riqueza com a fraqueza de multidões
Tubarões…
engolem o peixe pequeno
Não vejo plantação de coca no nosso terreno
Vai além…vejo plantações de vida
de sonhos, de morte, ferida
Que não cicatriza, que não ameniza
Se o clima tiver tenso a paz não se estabiliza
Pra mim é muito fácil de ser entendido
Sem educação vários de nós vai virar bandido
E a nossa pena não é branda
Perdemos a infância, a juventude a fila anda
Menos pra quem tem família com dinheiro
Que paga pelo erro do filho o tempo inteiro
Atitudes que eu não me identifico
Bateram na empregada só porque o pai é rico
Pai que vai a público falar de ética
Sem saber que o filho é envolvido com droga sintética
Vida frenética, fazendo merda pela rua
Com a certeza que a justiça é menos energética
Não é assim com a gente,
Nova operação policial leva a alma de um inocente
Deixa a criança ferida
Com bala perdida
Mais punição como medida
Revelando a incompetência
Tenho complemento no refrão que há na sequencia
Combatente não aceita
Comando de canalha que a nós não respeita
Excluído, iludido
Quem nasce na favela é visto como bandido
Rouba muito, magnata
Não vai para cadeia e usa terno e gravata
Causa e efeito
Só dever sem direito 2x
A corrupção permite
que atrocidade ultrapasse seu limite
Por mais que parte elite evite
Um afrogenocidio existe
onde pessoas morrem por conta da cor
Com sobrenome comum não temos valor
Artista câo, que fala de amor,
Não fecha com nois nem na hora da dor
Por isso eu faço do meu palco um pupito
usando minha voz contra um Brasil que é corrupto
Impunidade fala mais alto
Os homens de preto sobem o morro pra defender o asfalto
que impotente, assistem a tragédia
No desnivel entre a favela e a classe média
Que tratam o guetto como se fosse a África
numa distancia que nem chega a ser geográfica
Distanciamento provocado pelo preconceito
Como se nascer aqui fosse um defeito
Não é!
É parte de um destino que você ajudou a escrever,
quando não quis se envolver
Vem, vem aqui combater a consequencia de politica de ausencia
que resulta em violencia
Se o foco não for mudado, não terão resultado
e o ódio na juventude é uma tendencia
Sem escola, sem escolha
Expectativa de vida até que o crime te recolha
Vários do lado do bem, são empurrados pro mal
vitimas da convulsão social
País tropical, povo sensual
Fábrica de gente em condição marginal
que não conseguem pensar, que não conseguem falar
Parasitas não iram prosperar
Combatente não aceita
Comando de canalha que a nós não respeita
Excluído, iludido
Quem nasce na favela é visto como bandido
Rouba muito, magnata
Não vai para cadeia e usa terno e gravata
Causa e efeito
Só dever sem direito 2x
Matéria editada em 19 de maio de 2012 às 10h20.


