O penúltimo dia do 5º Fórum Nacional Extraordinário de Dirigentes Municipais de Educação contou com a presença de um músico. MV Bill teve a tarefa de falar sobre inclusão. Ele não levou estatísticas. Não apresentou programas nem metas. A conferência foi a partir do relato da própria vida. Um menino nascido e criado na comunidade carioca Cidade de Deus. Viu de perto a violência. O tráfico. Confrontos entre polícia e bandidos. Homem que foi atrás da música. Do rap. E não cruzou os braços. Fundou a Cufa, Central Única das Favelas./
MV BILL – MÚSICO
“A Cufa começou no Rio de Janeiro. Hoje, a gente tá espalhado nos 26 estados incluindo na Capital Federal e com representação local. Assim, eu sou do Rio de Janeiro, mas a coordenação da Cufa, por exemplo, é do Preto Zezé, que é do Ceará, que é de Fortaleza. A vice-presidência, por exemplo, é de uma menina que é do Mato Grosso, para justamente sair desse eixo Rio – São Paulo e não parecer que somente nesses lugares podem nascer lideranças. E em cada local são as pessoas dos próprios lugares que são os gestores e são as frentes de suas equipes.”
Daiane Garcez
“Por meio do rap, a og desenvolve projetos sociais e culturais nas comunidades carentes. Bill fez questão de ressaltar: sozinho é difícil de alcançar os resultados. é preciso criar redes.”
MV BILL – MÚSICO
“Aí foi onde a gente fez uma coisa muito parecida com que a Undime faz que é tecer redes, que é criar redes. Possibilitar acontecimentos. Tipo assim, a gente criou a Cufa, Central Única das Favelas, eu sei que eu não entendo absolutamente nada de televisão, mas sei da importância das pessoas se veem do auto retrato a partir do momento em que as pessoas se veem na televisão e da possibilidade de contar a sua própria história. Então, como a gente não entende nada de televisão, vamos chamar os nossos parceiros que entendem. Então, a gente criou um curso de audiovisual, pegamos os nossos equipamentos que a gente usou para fazer o áudio clipe, o documentário, doamos para esse curso. Aí, fomos chamar Caetano Veloso para dar aula de trilha sonora, fomos chamar Cacá Diegues para dar aula de direção, Paula Lavínia veio para dar aula de capactiação de recursos. E depois dessas aulas a gente formava alunos dentro da própria instituição que depois passavam a dar aulas também dentro desses cursos. E aí sim, a gente foi criando a nossa própria rede, criando os nossos próprios profissionais.”
Durante o bate papo descontraído, Bill tratou de questões políticas. Criticou a falta de interesse do Governo. E para surpresa da plateia, diss estar ao lado de profissionais da Educação na luta pelo aumento de 7% para 10% do PIB, Produto Interno Bruto, na área.
MV BILL – MÚSICO
” Ah, já tá na mão. Eu aprendi hoje a luta do PNE, Plano Nacional de Educação, que pede 10% para poder melhorar a Educação em toda a sua grandiosidade. E eu como brasileiro me sinto envergonhado de um plano tão importante como esse ainda tá enrolado, tá demorando para ser debatido, para ser aplicado.”
“Pouca coisa mudou
O responsável pela nossa tragédia não assimilou
Que pra mudar é necessário mais que um discurso?
no percurso falei com gente estúpida
Penso no que diz nossa bandeira fica em dúvida
O que será que eles acham de nós
que não sabemos falar?
que não sabemos votar? Há
Nossa voz ta no ar
Por mais que eu tenha espírito de mudança
vejo contradições que me causam desesperança
Cansa ver tanta gente ignorante
Tratando gente humilde de forma arrogante
Deselegante ao lidar com a maioria
Que fala com sotaque de periferia
Na correria, sobrevivendo a covardia
Daqueles que nos retribui com antipatia
A superação me emociona
Mas a apatia dos irmãos me decepciona
Vivemos da democracia que não funciona
Condição social que aprisiona
Vários vão a lona
Sentados na poltrona
Recebendo ordens que serão ditadas na telona
E nos deixam como herança
Uma verdadeira erupção de criança na minha lembrança
Não da pra esquecer o que eu vi (na lembrança)
Não da pra esquecer o que senti
percebi?
Que a policia continua sendo o braço governamental
Na favela discimina o mal
Com suas fardas e caveirões
A serviço daqueles que controlam opniões,que roubam
milhões, donos de mansões
Constrói a riqueza com a fraqueza de multidões
Tubarões?
engolem o peixe pequeno
Não vejo plantação de coca no nosso terreno
Vai além?vejo plantações de vida
de sonhos, de morte, ferida
Que não cicatriza, que não ameniza
Se o clima tiver tenso a paz não se estabiliza
Pra mim é muito fácil de ser entendido
Sem educação vários de nós vai virar bandido
E a nossa pena não é branda
Perdemos a infância, a juventude a fila anda
Menos pra quem tem família com dinheiro
Que paga pelo erro do filho o tempo inteiro
Atitudes que eu não me identifico
Bateram na empregada só porque o pai é rico
Pai que vai a público falar de ética
Sem saber que o filho é envolvido com droga sintética
Vida frenética, fazendo merda pela rua
Com a certeza que a justiça é menos energética
Não é assim com a gente,
Nova operação policial leva a alma de um inocente
Deixa a criança ferida
Com bala perdida
Mais punição como medida
Revelando a incompetência
Tenho complemento no refrão que há na sequencia
Combatente não aceita
Comando de canalha que a nós não respeita
Excluído, iludido
Quem nasce na favela é visto como bandido
Rouba muito, magnata
Não vai para cadeia e usa terno e gravata
Causa e efeito
Só dever sem direito 2x
A corrupção permite
que atrocidade ultrapasse seu limite
Por mais que parte elite evite
Um afrogenocidio existe
onde pessoas morrem por conta da cor
Com sobrenome comum não temos valor
Artista câo, que fala de amor,
Não fecha com nois nem na hora da dor
Por isso eu faço do meu palco um pupito
usando minha voz contra um Brasil que é corrupto
Impunidade fala mais alto
Os homens de preto sobem o morro pra defender o asfalto
que impotente, assistem a tragédia
No desnivel entre a favela e a classe média
Que tratam o guetto como se fosse a África
numa distancia que nem chega a ser geográfica
Distanciamento provocado pelo preconceito
Como se nascer aqui fosse um defeito
Não é!
É parte de um destino que você ajudou a escrever,
quando não quis se envolver
Vem, vem aqui combater a consequencia de politica de ausencia
que resulta em violencia
Se o foco não for mudado, não terão resultado
e o ódio na juventude é uma tendencia
Sem escola, sem escolha
Expectativa de vida até que o crime te recolha
Vários do lado do bem, são empurrados pro mal
vitimas da convulsão social
País tropical, povo sensual
Fábrica de gente em condição marginal
que não conseguem pensar, que não conseguem falar
Parasitas não iram prosperar
Combatente não aceita
Comando de canalha que a nós não respeita
Excluído, iludido
Quem nasce na favela é visto como bandido
Rouba muito, magnata
Não vai para cadeia e usa terno e gravata
Causa e efeito
Só dever sem direito 2x


