Por uma hora e meia, mais de mil dirigentes ficaram hipnotizados diante de uma mulher com discurso envolvente que tratou do tema “A fragmentação do ensino”. A palestrante é Viviane Mosé, filósofa e professora há 30 anos.
Ela foi bastante aplaudida ao dizer “Tem que parar de falar mal do professor. O importante é ajudá-lo a sair da inércia”.
Viviane envolveu a plateia criticando o consumismo, refletindo o valor do pensamento e questionando a fragmentação do ensino. “A escola que não te faz pensar, te desumaniza”, provocou a filósofa. Comparou a escola à fábrica e criticou a linha de montagem no ensino para a produção de mão de obra para o mercado de trabalho. Criticou o vestibular como forma de ingresso à universidade, e exaltou o Enem como bilhete de entrada ao ensino superior. “Pensar é confrontar uma ideia com a outra”. E enfatizou a importância do conteúdo para a vida.
Assim que a filósofa saiu de cena, sentaram-se à mesa de debates, a oficial do Programa de Educação da Unicef no Brasil, Júlia Ribeiro, e a coordenadora executiva da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Iracema Nascimento. Elas apresentaram a pesquisa “Acesso, permanência, aprendizagem e conclusão da Educação Básica na idade certa”. O estudo mostra que 2% das crianças brasileiras ainda não estão na escola. A porcentagem parece pequena, mas isso significa cerca de 540 mil crianças de idades entre 7 e 14 longe da sala de aula. A intenção da pesquisa é descobrir porque elas não têm acesso à educação e mostrar caminhos para reparar o erro. Por enquanto, o levantamento mostrou que as desigualdades por causa da região onde moram, da cor da pele, da idade e da condição pessoal, como deficiência, são alguns dos motivos que afastam a criança da escola.
Acabar com as desigualdades e trabalhar uma educação inclusiva foram temas debatidos na conferência seguinte. Liliane Garcez, Coordenadora de Articulação de Políticas de Inclusão nos Sistemas de Ensino da Diretoria de Políticas de Educação Especial do MEC. Ela defendeu que “é preciso olhar cada uma das crianças. Cada um tem que ter a formulação de um plano especializado para aquela criança que precisa de uma atenção maior.”
A doutora em educação e professora da Unicamp, Maria Thereza Mantoan, criticou as pesquisas apresentadas por instituição internacionais, como o Unicef: “discordo dos dados e da metodologia dessas pesquisas e do sentido dessas pesquisas no aprimoramento da educação. Porque a educação não se faz através de médias, classes e categorizações. A educação tem a ver com pessoas, com diferenças, que não podem ser contidas em conclusões e resultados que serão propositivas de políticas tão generalizantes. Cada sujeito é um. Cada pessoa tem que ser reconhecida na sua diferença. Então a metodologia da pesquisa tem que acompanhar a natureza do sujeito”.
E por falar em diferenças, saber conviver com elas também se aprende na escola. O combate a discriminação por meio do conhecimento dos direitos humanos também foi tem a de debate no 4º FNEx.
Participaram do último debate, cujo tema foi “Implementação do PNE em Direitos Humanos nos municípios brasileiros”, o membro da coordenação executiva do gabinete de assuntos jurídicos às organizações populares, Manoel Severino de Almeida, e a Coordenadora-geral de Educação em Direitos Humanos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Lúcia Camini.
“Se o ser humano tiver uma formação integral, que ele seja capaz de respeitar o direito dos demais cidadãos. Assim, nós vamos ter uma sociedade diferente. E a escola, o espaço onde se constrói a educação, é o lugar onde ele pode, além de adquirir conhecimento útil para a vida, ter sua formação para qualificar-se para o trabalho e também vivenciar um ambiente promotor dos direitos humanos. Neste sentido a educação para o Direitos Humanos se constitui numa prática e num conhecimento. E com isso nós vamos superar todas as formas de discriminação, de exclusão social, de violação do direito. E assim vamos ter uma sociedade diferente que não deprime as outras pessoas ou que retira a possibilidade de elas viverem com dignidade.”
Depois de quatro dias de profundos debates, o 4º FNEx se despediu do município Mata de São João/ BA, onde contou com a participação de 1302 participantes. 902 deles, dirigentes de municípios prioritários. Vão levar para casa novos conhecimentos para ajudar a construir uma educação e melhorar no nosso país.
No próximo ano tem mais Fórum para troca de experiências. O próximo destino? – São Bernardo do Campo/ SP, em março do ano que vem. Será mais um Fórum para debater melhorias na educação deste país. A contagem regressiva já começou.


