Em fevereiro deste ano, Analece Rosa dos Santos, de 26 anos, decidiu voltar a estudar. Para conciliar o trabalho de empregada doméstica e os livros, entrou no curso noturno para jovens e adultos da Escola Municipal Francisco Portugal Neves, em Piratininga. No início do semestre, ela tinha 35 colegas de turma.
Hoje, quando são dez os alunos em sala, já é muito. Episódios recorrentes de violência no turno da noite vêm afastando estudantes e desestimulando professores, que planejam para esta quarta-feira um abraço à escola em protesto pela situação.
– É mais do que bagunça. São casos de bombas tipo cabeça de nego sendo explodidas no pátio e no banheiro, disjuntores sendo desligados durante a aula, pneus dos carros dos professores esvaziados, depredação das salas…
Ainda tem a escuridão no pátio e no entorno – lamenta Analece, representante de turma.
A falta de segurança nas escolas apareceu na pesquisa feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) sobre a qualidade do ensino em Niterói como o ponto negativo mais citado pelos 300 pais entrevistados. A agressividade dos alunos foi citada por 6% dos professores e a indisciplina de estudantes e docentes foi apontada por 9% deles.
No mês passado, durante uma pausa entre as aulas na Escola Municipal Francisco Portugal Neves, um grupo de alunos usou uma janela para disparar um extintor de incêndio dentro da sala de professores.
– Foi horrível. Fomos cobertos por aquele pó. Houve pessoas até com crise de hipertensão.
Alguns tiraram licença médica – relata a professora de Ciências Maria de Fátima Castro.
– Também faltam profissionais treinados para lidar com os alunos, como porteiros. A solução é deslocar pessoal da limpeza.
Segundo Fátima e outras colegas, o turno da noite sempre foi tranquilo. A mudança começou há de três anos, com a chegada de alunos cada vez mais jovens.
– Recebíamos mais adultos trabalhadores. Aliado a essa mudança, temos o abandono da escola. Uma obra aqui se arrasta há anos – conta Nilza Alves, que já teve os quatro pneus de seu carro esvaziados no pátio.
A entrada do prédio do colégio, trancada o tempo todo, retrata bem o clima atual. A direção já enviou vários ofícios à Secretaria municipal de Educação.
Um dos pedidos é que a Guarda Municipal mande um agente para atuar ali à noite. Os docentes relembram que isso acontecia enquanto durou a Ronda Escolar da GM, até 2008.
Fundação informa que escola ganhará agente de portaria
O presidente da Fundação Municipal de Educação, Claudio Mendonça, diz que é preciso aparelhar a escola, sem recorrer à repressão: – A escola tem que ser um espaço de debate. Temos que promover atividades esportivas, atos que ensinem a conviver.
As professoras reclamam, no entanto, que a quadra coberta está em péssimas condições e que a área de lazer externa está em escombros há anos. Mendonça informou que em sete meses a intervenção para construir três salas e reformar banheiros e piso do colégio estará concluída. Não há previsão de recuperar a área de lazer externa.
Ainda segundo o presidente, a prefeitura acaba de chamar 50 agentes de portaria concursados. Um deles vai para a Francisco Portugal Neves.


