O presidente da Câmara de Educação Superior do CNE – Conselho Nacional de Educação, Paulo Monteiro Vieira Braga Barone, em entrevista concedida ao movimento “Todos Pela Educação” fez uma análise da formação inicial dos professores da Educação Básica no País. Apesar de reconhecer deficiências na formação dos cursos de pedagogia, Barone diz que as diretrizes curriculares para o curso não devem sofrer modificações a curto prazo, pois são muito recentes e “muitos cursos ainda não foram reestruturados a partir das novas diretrizes”.
As diretrizes curriculares nacionais para o curso de pedagogia têm sido criticadas por diversos especialistas da área, sobretudo, após a divulgação de uma pesquisa elaborada pela Fundação Carlos Chagas. O estudo aponta grande distanciamento entre o conteúdo ensinado nesses cursos e a prática docente. Além dessa questão, Barone também comenta a responsabilidade das instituições públicas na formação dos professores da Educação Básica e a ausência das instituições particulares neste debate.
Paulo Barone é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, possui doutorado e mestrado em Física pela Universidade Estadual de Campinas. Além de presidir a Câmara de Educação Superior, ele escreve periodicamente no Blog da Educação, no endereço
http://www.dzai.com.br/paulobarone/blog/blogdeeducacao
Leia abaixo a entrevista completa:
TPE: Qual a sua avaliação sobre a formação inicial dos professores no País?
Paulo Barone: Eu acho que, na média, a formação é deficiente. É claro que existem bons cursos, mas nós estamos falando da formação de muita gente. Há dois aspectos importantes sobre a qualidade e a quantidade. No que diz respeito à qualidade, um dos aspectos mais graves é que há uma falta de identidade entre projeto pedagógico de muitos cursos de licenciatura e o campo profissional, porque muitos são subprodutos dos cursos de bacharelado, portanto não são preparados para formar o professor, mas sim um pesquisador ou um profissional que vai lidar em outras cadeias do conhecimento, que não a carreira da Educação Básica.Esses cursos são remendados para depois formar o professor, como se isso fosse algo que exigisse menos. Além disso, muitos estudantes de pedagogia têm deficiências muito sérias na formação prévia, na Educação Básica, principalmente porque há um corte social entre os que optam por essa carreira. As instituições, nos seus projetos pedagógicos, não tomam muitas providências, não têm elementos que permitam a recuperação dessas deficiências. Às vezes o projeto pedagógico se omite nesse aspecto.
Em relação à quantidade, há muitas áreas em que se forma uma quantidade de professores absolutamente insuficiente para atender as nossas demandas atuais. Por exemplo, faltam professores de matemática, física, química, biologia e, em muitas regiões do país ainda,faltam docentes de língua estrangeira ou geografia. E isso também acontecerá agora com a Filosofia e a Sociologia, que passaram a ser obrigatórias. A formação ocorre em número insuficiente para atender à demanda.
TPE: Muitos especialistas criticam as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Pedagogia que juntaram a formação de professor e de pedagogo em um único curso. Como o senhor avalia essa crítica?
PB: Algumas pessoas acreditam que a gestão educacional nas escolas e nos sistemas deve ser exercida por pessoas que não são docentes, e as diretrizes da pedagogia estabelecem o contrário. Quem participa da gestão é o docente, o que me parece, pela experiência que tenho, muito mais apropriado. Há quem aponte isso como defeito, mas acho que não. A gestão da escola não é só a direção, é a coordenação pedagógica e a realização de atividades transversais, tudo isso faz parte do trabalho da docência.
Em minha opinião, em termos de formação, qualquer licenciatura seria suficiente para isso, portanto a pedagogia não precisaria ter ênfase demais nisso. O licenciado em História, Geografia ou Matemática, que tenha a vivência escolar, tem condições de exercer as funções ligadas à gestão na escola. Agora ter profunda compreensão sobre o objeto educação e sobre o objeto escola, como se pretende na pedagogia, não se alcança em nenhuma licenciatura e talvez nem na Pedagogia. Talvez devesse existir um bacharelado em Pedagogia.
De qualquer maneira, eu acho que o debate sobre esta questão costuma contrapor teses gerais defendidas por dois pólos de opinião. Um pólo defende essa Pedagogia que está cristalizada nas diretrizes, o outro, que pedagogo é gestor de escola e que professor é outra coisa. Eu entendo que uma política pública não deve se limitar a excluir uma ou outra possibilidade, mas devem aproveitar os melhores aportes, as melhores possibilidades que há. Será que as diretrizes não são um pouco pretensiosas no sentido de querer aglutinar em um único licenciado todo esse conhecimento sobre a docência e sobre a gestão desses objetos?
TPE: É possível que as diretrizes curriculares para o curso de pedagogia sejam reformuladas?
PB: As diretrizes curriculares são muito recentes, foram criadas em 2006, e as experiências que foram implementadas ainda não foram avaliadas. Nós ainda estamos em um nível de debate do gosto ou não gosto. Muitos cursos ainda não foram reestruturados a partir das novas diretrizes. Para mim, muito mais do que diretrizes, a implementação e a concepção do currículo nas instituições é muito deficiente.
TPE: É difícil induzir as instituições formadoras a implementarem essas diretrizes? Exames de certificação poderiam contribuir nessa direção?
PB: Não é difícil, isso pode ser buscado por mecanismos como por exemplo a avaliação, o Enade – Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes. Além disso, professores e funcionários da rede pública devem ter o seu rendimento avaliado permanentemente. Isto significa que a evolução na carreira, os benefícios devem depender de avaliação. Eu penso que isso funciona melhor do que exames de certificação.
TPE: Deveria haver uma ampliação de oferta de cursos para a carreira docente nas instituições públicas?
PB: É preciso priorizar a formação para a carreira docente. O ministério da Educação está fazendo força para que isto aconteça. Isso tem a ver com a expansão de vagas, mas também tem a ver com a adoção de mecanismos que propiciem aos estudantes a recuperação da deficiência da formação básica, para que eles possam seguir os cursos com qualidade. Esse é um problema grave e a responsabilidade social das universidades públicas não está sendo cumprida nesse aspecto.
Outro ponto é a necessidade de incorporar as instituições privadas a um debate de alto nível sobre a questão da formação de docentes. É muito fácil nós nos sentarmos no “Olimpo” das universidades públicas e sairmos emitindo uma série de opiniões negativas em relação às outras experiências, sem criticar a nossa. Há deficiências do ponto de vista da incorporação ao debate das instituições privadas, assim como há no cumprimento da responsabilidade social das universidades públicas.


