Televisão bem-educada

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LAÇOS DE FAMÍLIA
O drama vivido por Camila, a jovem que descobriu a leucemia aos vinte e poucos comoveu o Brasil. O abatimento, os cabelos raspados, a dificuldade de respirar fizeram os telespectadores refletirem sobre a doença. Reportagens publicadas na época da novela mostraram que as doações para os bancos de sangue aumentaram.

TERRA NOSTRA
A imigração italiana é o foco da narrativa, embalada pela história de amor entre Giuliana (Ana Paula Arósio) e Matteo (Thiago Lacerda). Além das condições dos estrangeiros no Brasil, a enredo da novela de Benedito Rui Barbosa procurou contar as estratégias do governo brasileiro para financiar os barões do café.

O CLONE
As cenas de Mel, interpretada por Débora Falabella, em crises de abstinência por causa da cocaína roubaram a atenção da morna história de amor entre Jade (Giovanna Antonelli) e Lucas (Murilo Benício) e levantaram a audiência da novela. Muito elogiada por educadores, as cenas retomaram a discussão das drogas. A novela acabou virando uma grande campanha contra a dependência. Além disso, a novela colocou em pauta temas como a clonagem humana e maternidade de aluguel.

 

  Pegue um galã de novela das oito, coloque um óculos fundo de garrafa, dois livros debaixo do braço, uma olheira e faça o telespectador acreditar que o hobby preferido do personagem é ler. A receita poderia significar o fim das telenovelas globais. Herói que se preze tem a cara do Gianecchini. É bonito e inteligente (sem fazer esforço). Mas, na última semana, o Ministro da Educação, Cristovam Buarque, questionou a fórmula de se fazer dramaturgia brasileira. ‘‘Nenhum galã de novela consegue arrumar namorada porque é estudioso. Só consegue namorada o cara sarado’’, disse o ministro em uma palestra sobre o futuro da educação no país para professores do Colégio Inei em Brasília.

  O discurso do ministro reaqueceu a antiga polêmica sobre o papel da televisão dentro dos lares brasileiros. Teria a telinha a responsabilidade de ditar bons costumes? Cristovam diz que sim. Ele criticou o fato de não ser comum nas novelas as casas dos ricos terem estantes de livros. E fez uma sugestão aos dramaturgos: ‘‘As personagens ricas deveriam ensinar suas empregadas domésticas a ler e a escrever’’. Ele aproveitou para anunciar que já fez o apelo direto a Glória Peres, uma das novelistas de maior Ibope na televisão brasileira. ‘‘Propus a ela que me ajude a fazer da educação uma mania’’, relembrou.

Novo modelo
A coordenadora do Núcleo de Estudos da Televisão da Universidade de São Paulo, Maria de Lourdes Motter, concorda com a iniciativa do ministro, mas adverte: ‘‘A forma como a televisão brasileira faz novela está certa. A questão é aperfeiçoar o modelo existente. A televisão não tem que ficar dando liçõezinhas, sendo didática. O papel dela é entretenimento’’, diz a estudiosa. A coordenadora cita novelas como O Clone e Laços de Família como bons exemplos de tramas envolvidas com o engajamento social. ‘‘Quer novela mais bonita que O Clone? E com uma ação social fantástica em torno da questão sobre as drogas’’, elogia.

  A pesquisadora defende que as novelas brasileiras devem oferecer bons modelos de comportamento, mas precisam manter ingredientes que se tornaram indispensáveis para a dramaturgia brasileira: o culto à beleza e a possibilidade de ascensão social. Segundo a especialista, que estuda o assunto há uma década, até a miséria humana, quando exposta na telinha, precisa ser mostrada em meio a uma paisagem agradável, cheia de personagens bonitos. ‘‘Você pode ter isso em meio a tramas absolutamente alienadas ou que tenham enredos preocupados com a questão social’’, diz Maria de Lourdes.


Jovens preferem novelas e minisséries

  Um estudo coordenado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), A Voz do Adolescente, de 2002, confirmou a identificação do público jovem com a telenovela. Um dos traços sobre a personalidade de garotos e garotas entre 12 e 17 anos é que a maioria (51%) deles acha mais divertido ver televisão que ir à casa de amigos e elegeu as novelas e minisséries (21%) como o programa predileto. Ainda segundo esse estudo, os jovens garantiram que novela, minissérie ou programa que falam sobre sexo são tão esclarecedores quanto uma conversa com amigos sobre o assunto.

  A pesquisadora em Comunicação Social da Universidade de Brasília, Tânia Montoro, lembra que os jovens da América Latina cultivaram o hábito de comentar o conteúdo das novelas. Por isso, os temas levantados como ficção logo tomam a realidade e viram discussão nas rodinhas de bar, salas de aula e dentro de casa. ‘‘A novela é assunto tratado no jornal, nas revistas e na internet’’, afirma.

  A análise de Tânia é tema de pesquisa de Mauro Porto. Ele é coordenador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política na Universidade de Brasília e, desde 1993, pesquisa o papel da TV no país. ‘‘A freqüente discussão de temas políticos e sociais torna a novela brasileira bastante original’’, destaca o especialista. Em 1999, época da novela Terra Nostra, na Rede Globo, ele realizou um estudo com moradores do Plano Piloto, Taguatinga e Ceilândia sobre a influência dos programas televisivos na vida das pessoas. Foram 39 entrevistados divididos em três grupos.

  Depois de participar de seguidas reuniões com os moradores das três cidades do Distrito Federal, Mauro Porto chegou a duas conclusões. A primeira é que os telespectadores reconhecem a função pedagógica e educacional das novelas. Eles julgam que aprendem história, política e a realidade social do país pelas dramaturgias televisivas. ‘‘Não é correta a visão de que as novelas tratam só do campo da fantasia e não têm muita importância’’.

  A segunda conclusão comprova que a proposta de Cristovam em aproveitar a novela para influenciar os jovens a tomar gosto pelos estudos é possível. Nos três grupos observados, as pessoas afirmaram que as novelas ajudam a audiência a pensar sobre a realidade brasileira.

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