O espaço temático das Diversidades é, de longe, o mais caótico deste Fórum Social Mundial. Parece um amontoado de grupos identitários que se afirmam, cada um por si, no estilo que Freud batizou de narcisismo das pequenas diferenças. Que alianças políticas podem se formar entre os que se definem a partir de suas diferenças? Que propostas abrangentes podem advir da multiplicação de identidades desviantes de um padrão “normal” de conduta, de gosto, de escolhas de vida?
No entanto, uma reflexão mais atenta sobre o conjunto das atividades do Espaço B revela um fenômeno muito diferente do entrechoque individualista de pequenos guetos separados uns dos outros por interesses e identidades incompatíveis. O que se percebe é que os trabalhos e manifestações apresentados sob o signo das diversidades formam uma grande onda progressista que aponta para a inclusão dos subgrupos e tipos humanos mais desviantes, dos mais incapacitados para o mercado (de trabalho ou de consumo), dos mais esquisitos e marginalizados, sob a condição cidadã de sujeitos de direitos.
Não me refiro apenas aos dois grandes movimentos de “minorias-não-minoritárias” – os negros e as mulheres, seguidos de perto pelos movimentos gay – que conquistaram espaço e direitos a partir da década de 1960. Estes, hoje, contam com grande experiência acumulada, com redes internacionais de apoio e interlocução, e já estão incluídos no pensamento hegemônico não só das esquerdas, como dos liberais progressistas. A partir dos anos 80, outras minorias vêm conquistando direitos e cidadania; os loucos, os presidiários, os remanescentes de culturas indígenas, os usuários de drogas, os de preferências sexuais extravagantes; e mais: as crianças autistas, os deficientes mentais, os bebês psicóticos (graças a valiosos avanços no campo da psicanálise) também vêm sendo considerados sujeitos, com direito a assistência respeitosa e a um tratamento que lhes aponte perspectivas de futuro.
Direitos das minorias
Mas as bandeiras dos grupos minoritários e as políticas humanitárias e/ou culturais que se ocupam deles, não representam apenas esforços concretos para melhorar a qualidade de vida de milhões de pessoas, cujo sofrimento ou cujas necessidades, até o começo do século passado, não contavam para o mundo dito “civilizado” – o mundo branco, ocidental, capitalista, heterossexual, masculino, adulto. As lutas pelos direitos das minorias e pela afirmação das novas identidades são partes de um campo de conquistas morais e ideológicas, não exclusivamente de esquerda mas, com certeza, contrárias a todo tipo de conservadorismo, e que atravessam todas as classes sociais. É um campo polarizado que decide, em alguns casos, o destinos das democracias. Basta lembrar que a reeleição de George W. Bush nos Estados Unidos definiu-se menos pela posição dos norte-americanos a favor ou contra a invasão do Iraque, e mais pelo fundamentalismo religioso latente naquela sociedade, que mobilizou milhões de eleitores a votar contra John Kerry por serem contrários à legalização do aborto e ao direito de união civil entre homossexuais.
O conceito tradicional de Direitos Humanos já ficou estreito demais para abrigar as diferentes lógicas culturais e identitárias que a própria modernidade possibilitou. Hoje, não é possível pensar em “revolução” ditada por uma razão universal que unifique, a pretexto de uma solidariedade abstrata, a diversidade das expressões humanas. Mas é importante lembrar que a produção totalitária de conservadorismo já não vem (somente) de uma esquerda atrasada e repressiva. Ela se impõe a partir do trabalho permanente e sedutor da indústria do espetáculo, que se apropria das diferenças socialmente produzidas para devolvê-las transformadas em mercadoria/ imagem, sempre as mesmas, sob sua aparente diversidade. Neste sentido, a luta ideológica pelo respeito às minorias é indissociável da luta política contra o monopólio dos meios de comunicação de massa. A democratização da mídia impressa e eletrônica e a conquista do software livre são fundamentais para que a existência digna dos mais diferentes grupos humanos se faça acompanhar de uma produção de discursos e de expressões artísticas que os representem e, com isso, venham a enriquecer o patrimônio simbólico de toda a humanidade.
*Maria Rita Kehl, psicanalista, ensaísta e poeta, é autora do livro “A mínima diferença – o masculino e o feminino na cultura”


