Escolas públicas de cidades do interior de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul que enfrentavam problema de evasão de alunos estão com as salas de aulas lotadas, no início deste ano letivo. O motivo é a criação de uma rádio na escola, que poderá ser utilizada por alunos, professores e pessoas da comunidade vizinha.
As rádios escolares fazem parte de um projeto piloto, o Educomrádio Centro-Oeste, criado pelo Núcleo de Comunicação e Educação da Universidade de São Paulo (USP), em convênio com a Secretaria de Educação a Distância (Seed) do Ministério da Educação.
Na primeira etapa do projeto, serão capacitados 140 professores de 70 escolas públicas do Centro-Oeste para utilização da linguagem radiofônica no processo de integração do ambiente escolar e redução da violência.
Nesta semana, professores dessas 70 escolas se reuniram nas capitais dos três Estados para o seminário que antecede o curso de capacitação de quatro meses. Batista Bernardo do Nascimento, professor de Filosofia na Escola Estadual Júlio Muller, em Barra dos Bugres (MT), conta que, desde outubro do ano passado, a comunidade local está animada com a novidade. “A expectativa de implantação de uma rádio na escola é tão grande que o número de matrículas aumentou 30%’’, afirma.
Rádio rudimentar – Apaixonado pelo rádio desde os 12 anos, quando montou o primeiro transmissor PX, o professor integra atualmente a diretoria da Associação Comunitária Movimento Rádio do Vale do Rio Bugres e confessa seu entusiasmo pelo projeto do MEC e pelo trabalho pedagógico que poderá desenvolver com alunos e pessoas da comunidade. “Faço rádio desde as primeiras experiências com técnicas rudimentares, como ouvir o som a partir de uma gilete e um lápis ou do rádio galena – um aparelho rudimentar, montado com bobina feita a mão, um diodo de germânio e fone de ouvido”, diz. “O diodo de germânio é um semicondutor que poderíamos descrever como o avô dos transistores”.
A Escola Estadual Nadir de Oliveira, em Várzea Grande (MT), onde a professora Marizete Marques de Barros Francisco dá aula, também passa por uma reviravolta por conta da notícia da criação de uma rádio escolar. “No ano passado, houve até processo de intervenção da secretaria estadual de Educação para fechar salas de aula, por causa da saída de alunos. Este ano, a escola está lotada, em função da rádio. Até o presidente da Associação de Moradores me procurou, para reivindicar a participação da comunidade”, afirma.
Viagem difícil – Marizete e Batista fazem parte da equipe de professores da rede estadual de ensino que participa até hoje, dia 5, do seminário de capacitação. A implantação do Educomrádio.Centro-Oeste é acompanhada pelo professor Ismar de Oliveira Soares, supervisor do Núcleo de Comunicação e Educação da USP, responsável pelo projeto em cerca de 500 escolas municipais em São Paulo.
Para chegar a Cuiabá, os 40 docentes que participam do seminário enfrentaram dificuldades por conta da chuva. “Só não vieram os professores de São Félix do Araguaia e de Villa Bella da Santíssima Trindade, porque os municípios estão isolados”, diz o coordenador do projeto em Mato Grosso, Luciano Moraes Sobrinho.
Professores de municípios como Confresa, no extremo nordeste de Mato Grosso, na divisa com o Pará, e Colniza, situado no norte do Estado, chegaram a viajar quase quatro dias para chegar à capital, por causa das péssimas condições das estradas nesta época de chuvas. Rosana Sanches e Lizângela Maria Lanes Rodrigues, da Escola Estadual Bernardino Gomes da Luz, de Colniza, por exemplo, tiveram de ir até Vilhena, em Rondônia, para chegar à capital mato-grossense.


