Há quarenta anos, a cidade de Angicos vivia uma das fases mais importantes da educação popular no Brasil, com a aplicação, de forma pioneira, do método de alfabetização em 40 horas, do educador Paulo Freire. Depois de quatro décadas, pouco resta da experiência vivenciada durante três meses de aulas noturnas, ministradas por estudantes universitários, entre os dias 18 de janeiro e 2 de abril de 1963. Não há monumentos nem nada que lembre a passagem de Paulo Freire e seu método alfabetizador. O que há é a lembrança dos antigos alunos, que não esquecem as noites de aprendizado.
Um deles é o pedreiro aposentado Severino de Araújo, de 72 anos, aluno do projeto ao lado da esposa, a dona de casa Francisca de Araújo, da mesma idade. Casado há 51 anos, o casal não se separava nem na hora de estudar, mesmo que o cansaço do dia de trabalho não os animassem. ‘‘Me lembro que Walquíria vinha aqui em casa, me puxava pelo braço e dizia que eu dormindo não iria ganhar nada. Então eu levantava e levava Francisca comigo’’, recorda.
Walquíria, a quem seu Severino se refere, era a sua professora, de quem o ex-aluno guarda muitas lembranças carinhosas. ‘‘Ela era muito boa. Ensinava as palavras. Não era aquele ‘‘b’’ ‘‘a’’ ‘‘ba’’ chato. Ela ensinava as palavras. Tijolo, belota. Palavras que eu conhecia’’, explica seu Severino, fazendo referência ao próprio método que tinha a palavra geradora como centro de todo o trabalho desenvolvido.
Entre as recordações de seu Severino está o dia em que eles foram proibidos de estudar e as aulas suspensas, por ordem dos militares no Brasil. Tido como um instrumento comunista, o método Paulo Freire foi proibido de ser aplicado e os alunos foram aconselhados a rasgar e queimar todo o material. Essas lembranças ainda fazem seu Severino sofrer. ‘‘Queimei tudo porque não podia ser preso. Tinha mulher e filhos pequenos. Mas queimei com ódio’’, relata o ex-pedreiro, chegando às lágrimas.
Sua companheira de vida e de sala de aula, Francisca, também gostava das aulas e tinha bastante disposição para aprender. O rendimento de Francisca foi melhor do que o do marido, conseguindo ter mais ritmo na leitura e na escrita. No entanto, problemas na visão, solucionados recentemente com uma cirurgia, afastaram a dona de casa da leitura. ‘‘Gostava muito de ler e aprendi muito. A minha maneira de pensar sobre a vida mudou depois das aulas’’, relembra.
A diversão do casal, depois de alfabetizado, era ler tudo o que surgia. ‘‘Às vezes, até um papelzinho que aparecia no chão a gente lia. Era uma alegria danada’’, lembra seu Severino.
A mesma alegria demonstrada pelo casal ao recordar a experiência com as aulas é compartilhada com o agricultor Manoel Bezerra, de 75 anos. Integrante de um dos círculos da cultural, como eram chamadas as turmas, o agricultor lembra dos debates em sala de aula e de como os temas eram abordados pelos professores. Entre os que mais marcaram seu Manoel está um debate sobre o poder do povo, em que alguns alunos acreditavam que o poder estava apenas nas mãos do Estado, por comandar as forças armadas. ‘‘Eu lembro de ter dito, juntamente com outro colega, que o poder estava nas mãos do povo. Bastava o povo querer para mudar. Nesta hora, ouvimos uma pessoa aplaudindo, na porta da sala. Era Aluísio Alves (então governador do Rio Grande do Norte). Ele concordava comigo e abraçou a todos da turma’’.
Para a mulher de seu Manoel, Maria Leandro, de 75 anos, ficaram apenas as recordações do marido lendo e escrevendo o nome. Mãe de sete filhos vivos e 10 tendo perdido ainda bebês, dona Maria dizia não ter tempo para estudar. ‘‘Eu só pensava em pari’’, diverte-se a dona de casa.
Mas as lembranças de outros alunos não são tão boas. É o caso da aposentada de 58 anos Francisca de Brito. Uma das mais novas de seu círculo, com 19 anos, d. Francisca lembra de quando aprendeu a ler e nunca mais parou. Quando os círculos foram encerrados, procurou uma escola e deu continuidade aos estudos. Mesmo tendo aprendido, ela ainda guarda tristes recordações de quando o projeto foi extinto. ‘‘O nosso professor não apareceu e disseram que ele estava preso. Senti uma revolta muito grande. Até hoje sinto. Ele trabalhava para os pobres aprenderem e por isso foi preso. O Brasil continua assim até hoje. O pobre sofre e não tem direito. Quando vejo uma criança na rua, fico pensando: qual o futuro dela, se não for para a escola? Nenhum’’, responde ela mesma.
Resgate
Apesar de não haver nenhum movimento oficial para resgatar a memória de toda a experiência do método Paulo Freire em Angicos, a 8ªDired – Diretoria regional de educação, ligada à Secretaria Estadual de Educação – organizou uma solenidade, no início do mês, reunindo 24 alunos alfabetizados na época.
Para a professora Sônia Maria Pereira, uma das organizadoras da solenidade, a principal dificuldade em resgatar a história está na falta de documentação da época existente em Angico e na falta de lembrança dos próprios alunos. ‘‘Muitos não se lembram do que aconteceu porque foram induzidos a esquecer. Ameaçados pela ditadura. Assim como queimou os cadernos, a maioria esqueceu por medo’’.
Durante suas pesquisas, professora Sônia resgatou informações importantes sobre a educação da época. Angicos, em 1963, convivia com índices alarmantes. 70% da população acima de 14 anos era totalmente analfabeta. Dos 30% restantes, 10% considerados semi-analfabetos. ‘‘A implementação do método em Angicos trouxe resultados quase que imediatos. O grande problema foi a falta de continuidade. Com a proibição do método, os alunos alfabetizados perderam o ritmo de estudo e outros adultos não tiveram a oportunidade’’, explica a professora.
Para setembro, mês em que é comemorado o aniversário de nascimento de Paulo Freire, já está sendo programado um segundo encontro entre os ex-alunos. ‘‘O nosso objetivo é fazer com que os mais velhos não se esqueçam dessa história e que os mais novos conheçam essa importante contribuição que foi dada para o desenvolvimento de todos’’, argumenta Sônia Pereira.


