OMinistério da Educação (MEC) está estudando a viabilidade de uma proposta que promete dividir opiniões. O ministro Cristóvam Buarque anunciou esta semana que planeja ampliar a duração do ensino médio de três para quatro anos. O argumento que justificaria a mudança seria a consideração de que, com mais um ano na escola, o jovem sairá mais bem preparado para entrar na faculdade e no mercado de trabalho. Antes de prestar vestibular, os estudantes teriam de enfrentar mais um ano de contato com livros e cadernos.
O educador Ney Campello, mestre em administração pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), defende a mudança por considerar curto o tempo médio de escolaridade do alunado brasileiro – equivalente a 15 anos, desde a 1ª série do ensino fundamental até o último ano da faculdade. “Em países desenvolvidos, como Alemanha, França e Inglaterra, e mesmo em países em desenvolvimento, como Chile, Argentina e Uruguai, o tempo de permanência do aluno na escola é de 20 a 22 anos. Com um tempo médio pequeno, o Brasil está no mesmo patamar do Haiti e do Paquistão, países mais atrasados cultural e economicamente”, salienta o professor.
O ministério corre o risco de estar atuando em foco errado, do ponto de vista da secretária estadual de educação, Renata Prosérpio. Ela acredita que a quantidade de horas, dias e anos que o aluno passa na escola não é tão importante. O que interessa é a qualidade do ensino oferecido. “Não acredito que a saída esteja na ampliação de três para quatro anos, e sim na garantia de um bom ensino, capaz de tornar mais eficaz a aprendizagem”. Prosérpio enfatiza que a melhoria qualitativa do ensino passa por uma ampla rede de canais, bem mais complexa que a simples construção de mais escolas, por exemplo. “A grande caminhada em busca de uma melhoria no ensino envolve pais, alunos, professores e profissionais de educação”.
Paralelamente às medidas adotadas recentemente na área da educação, como o sistema de cotas para negros, a proposta do MEC demonstra a necessidade de políticas públicas que facilitem o acesso mais igualitário dos jovens ao ensino superior. Para Ney Campello, mais um ano de estudos seria um reforço preparatório para o 3ºgrau, o que aumentaria as chances de ingresso das camadas menos favorecidas à universidade, bastante limitado no país. “Mais um ano de ensino médio possibilita ao aluno de escola pública uma maior competitividade tanto no acesso à faculdade quanto ao mercado de trabalho”. Ele reconhece, porém, que a medida do ministério só terá efeitos positivos se vier acompanhada de outras reformulações na educação, como uma melhoria na qualidade do ensino – em particular o público – e uma maior capacitação e remuneração do corpo docente.
Indo um pouco mais além dos limites da proposta, dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), órgão vinculado ao MEC, revelam que, de cada grupo de cem alunos que ingressam a 1ª série do ensino fundamental, 41 abandonam os bancos escolares.
Preparados para o mercado
A Bahia conta hoje com 4,5 milhões de estudantes na rede pública. Esse universo se amplia para cinco milhões se contados os alunos de escolas particulares. Enquanto o MEC não bate o martelo na ampliação do tempo de duração do ensino médio, a educação na Bahia vem traçando novos rumos referentes a uma maior preparação do aluno para o mercado de trabalho. De olho na educação profissional, a Secretaria estadual de Educação mantém centros profissionalizantes nos quais estudantes do ensino médio mantêm, hoje, contatos com representantes de organizações não-governamentais e empresas e treinam ofícios que podem render empregos no futuro.
Esses centros são localizados em Salvador, Feira de Santana e Camaçari e atendem 1.396 estudantes. “É um ensino pós-médio, voltado aos alunos que já concluíram o 3º ano científico e estão em busca de um lugar no mercado”, revela a secretária Renata Prosérpio. Os representantes das ONGs e das empresas participam, juntamente com os alunos, dos conselhos pedagógicos promovidos pelas escolas. O resultado desse contato é uma porção de alunos que, depois de terem suas habilidades e competências desenvolvidas, já são empregados em muitas dessas empresas, a exemplo da Pirelli.
A Escola Estadual Tourinho Dantas, que funciona há cinco anos no bairro de São Cristóvão, ainda não é contemplada pelo programa de educação profissional, mas a diretora Heloísa Costa defende a adoção de um ensino pós-médio para facilitar o ingresso dos estudantes no mercado de trabalho. “É fundamental que o alunado aprenda um ofício e seja treinado para ele. Terei muito prazer em adotar um programa desses na minha escola”.
Por enquanto, os cerca de 2.400 alunos da Tourinho Dantas – 1,5 mil deles no ensino médio – vão treinando suas habilidades na disciplina jornalismo escolar, presente no currículo obrigatório dos ensinos fundamental e médio. Através de uma central de notícias criada ano passado, os estudantes têm noções de técnicas de reportagem, fotografia e edição de textos.


