Professor em extinção

Picture of undime

undime

Pesquisa mostra que escolas de ensino médio e fundamental vão sofrer com a escassez de educadores. Mais da metade se aposentará nos próximos 10 anos. Maioria dos alunos de licenciatura não pretende exercer a profissão

Os professores brasileiros são uma espécie em extinção. Pesquisa inédita da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) confirma a suspeita de vários especialistas em educação. Daqui a dez anos, as escolas de ensino médio e fundamental sofrerão com a escassez de educadores. Culpa da falta qualidade de vida da categoria. Os profissionais do ensino trabalham mais de oito horas por dia, sobrevivem com cerca de R$ 600 por mês e não têm tempo, disposição ou dinheiro para se divertir. Desmotivados, tendem a abandonar as salas de aula e os estudantes.

A penosa realidade dos educadores foi esmiuçada na pesquisa Retrato da Escola 3, divulgada ontem pela CNTE. O estudo traçou um perfil completo da categoria (leia quadro). Para tanto, entrevistou 30% dos 2,5 milhões desses profissionais em dez estados brasileiros — Alagoas, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Paraná, Piauí e Tocantins.

Segundo o estudo, a maioria absoluta da categoria pertence ao sexo feminino (83%), tem entre 40 e 59 anos (53,1%) e já está, em média, com 15 anos de profissão. São educadores como Míriam Marques Nery, 46 anos, professora do Centro de Ensino Fundamental 01 do Guará. Concursada há 26 anos, Míriam aguarda ansiosamente a aposentadoria que virá em 2004, quando completar 48 anos — idade mínima exigida por lei para uma mulher parar de trabalhar, se tiver ingressado no serviço público até 1998.

Assim como Míriam, mais da metade dos professores brasileiros se aposentará nos próximos dez anos. Só que o buraco deixado pelo grupo corre o risco de ficar descoberto. Afinal, cada vez menos pessoas está dispostas a seguir carreira na sala de aula.

‘‘Por conta dos péssimos salários, a maioria dos alunos da licenciatura não pensa em exercer a profissão’’, lamenta Regina Vinhais, especialista em políticas educacionais da Universidade de Brasília (UnB). Ela conta que boa parte dos universitários faz o curso apenas para ter uma segunda opção de carreira. Uma vez com o diploma em mãos, vão atrás de grandes concursos públicos ou de empregos bem pagos no setor privado. Trabalhar em sala de aula, só em último caso.

Leonardo Oliveira, 25, faz parte do grupo de descontentes. Aluno de Matemática, não quer nem saber de lecionar. ‘‘Quando me formar, vou fazer o concurso do Banco Central’’, afirma. ‘‘O pior é que eu gosto de dar aula, mas não posso viver de pó de giz.’’

Na opinião da professora Juçara Vieira, presidente da CNTE, se a remuneração e as condições de trabalho não melhorarem, a falta de professores se tornará um problema crônico no Brasil. A ausência deles, aliás, já é sentida em várias escolas de ensino médio e fundamental. Principalmente nas áreas de Matemática, Física e Química. Aqui no DF, não é raro encontrar colégios que já passaram por essa crise. No Centro de Ensino Fundamental 802 do Recanto das Emas, os alunos da 3º série B passaram as primeiras semanas do ano sem aula. Até a chegada da substituta, as crianças se apertaram em outras turmas para não perder todo o conteúdo.

Em tese, a maioria dos educadores trabalha 40 horas semanais. Na prática, à jornada oficial somam-se 14 horas de trabalhos extras remunerados — como aulas particulares e venda de cosméticos — e outras oito horas para finalizar o planejamento das aulas em casa. No fim das contas, a labuta chega a 62 horas semanais. São 12 horas por dia de atividade mal remunerada, segundo a pesquisa. O suficiente para estressar e desanimar qualquer um.

Sem lazer e sem saúde

Outro reflexo da massacrante rotina dos professores do ensino médio e fundamental é a falta de lazer. Segundo a pesquisa, apenas 5,9% dos mestres vão freqüentemente ao teatro ou cinema. Diante desses dados, não é de se estranhar que pelo menos 22,4% deles tenha pedido afastamento do serviço por motivos de saúde.

‘‘Tive de repor mais de um professor este ano porque eles entraram com atestados médicos’’, confirma Francisco Avelino, diretor do Centro de Ensino Fundamental 802, do Recanto das Emas. A mesma realidade se repete em todo o país. Cerca de 43,7% dos professores fizeram cirurgias nos últimos anos. Outros 30,4% têm problemas de saúde. Entre eles, é claro, está o estresse.

Curiosamente, apesar de tantos problemas, a pesquisa mostrou que 68,4% dos trabalhadores da educação têm casa própria. A explicação para o fenômeno é simples: a maioria dos docentes é casado e compra a residência com ajuda do parceiro. ‘‘Se dependesse só do meu salário, não daria para pagar este imóvel’’, assume a professora Míriam Nery, moradora do Sudoeste.

O estudo revela, ainda, que a principal conseqüência dos baixos salários do professor é a queda na qualidade da educação. Sem tempo nem dinheiro, eles não têm como se reciclar. ‘‘O professor não está preparado para lidar com essa nova realidade, em que o conteúdo de uma matéria pode mudar a todo instante por causa das guerras ou avanços da ciência’’, constata Regina Vinhais. ‘‘Na maioria das vezes, ele não tem dinheiro nem para assinar uma revista, quanto mais para investir na própria formação.’’ (G.F) 
 

Assine nossa newsletter