‘Onguinha’ prova que preservação também é assunto de criança

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Era uma vez uma menina que, no meio de um passeio, encontra uma truta falante agonizando porque a água onde vivia está muito poluída.

Enquanto ela sai para buscar um aquário, o riacho reclama com a truta: “Você pensou em você, mas como vão ficar os outros peixes?” Ao voltar e perceber o tamanho do problema, a menina decide fazer uma caravana de animais na floresta e lutar pelo meio ambiente.

Tema da radionovela infantil O Olho D’Água Chorou, que vai ao ar todos os sábados na Nova Rádio Campos do Jordão, a fábula tem tudo a ver com sua criadora e atriz principal: Maria Lívia Cabral, uma menina de 10 anos que na vida real também tem a natureza como maior preocupação.

Na semana passada, ela surpreendeu os participantes do Fórum Social das Águas, ao pintar na testa a palavra guerra, enquanto todos falavam de paz.

Logo depois, explicou: “Queremos a guerra contra a inércia e a hipocrisia dos adultos em relação ao meio ambiente”. Aplaudida, continuou: “Enquanto eles não resolverem, a Mingau vai cobrar.”

Mingau significa Movimento Infantil Guardiães das Águas do Universo e é nome da “onguinha” formada por crianças e presidida pela estudante da 4.ª série desde 2001. “A última vez que contei tinha 108 meninos e meninas de 0 a 14 anos participando em vários cargos, de promoter a superintendente”, conta, lembrando que até os bebês têm fichas de inscrição e recebem mensagens de meio ambiente.

Desinibida, Maria Lívia diz ainda que “trabalha” na Mingau desde os 8 anos, mas já pensava em ajudar a natureza desde os 5. “Eu ia a reuniões de adultos e percebia que eles só prometiam. Então pensei: vamos colocar nas mãos das crianças.” Como é menor de idade, sua “onguinha” é um braço do Instituto Águas da Prata, ONG tocada pelos pais. “Isso eu não gosto: tem um monte de coisa que criança não pode fazer.”

Mesmo com os obstáculos, no entanto, ela não se importa em deixar as brincadeiras para os sábados e passar a semana ocupada. Durante a tarde, vai à escola e em algumas noites grava o programa Criança Feliz, que vai ao ar aos sábados entre 11 e 12 horas, em Campos do Jordão, onde vive. Sem patrocínio ou salário, costuma usar as mesadas de R$ 30 para abastecer a coleção de Barbies. De vez em quando, também visita câmaras das cidades do Vale do Paraíba. “Sempre tento levar amigas da escola, mas algumas não podem porque o pai não deixa.”

Prioridade

– Maria Lívia ainda costuma receber cartas e telefonemas de adultos e crianças, agradecendo e oferecendo projetos. “Acho que a criança precisa de muitos movimentos, mas por enquanto a prioridade é o meio ambiente, porque em 2050 vou ter 60 anos e não vamos mais ter água.” Na sexta-feira, encontrou-se em Curitiba com a fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns. Daqui a um mês, quer começar uma nova radionovela – Vira-Lata, tratando do lixo e do abandono de animais.

Para o futuro, os planos mudam um pouco. “Quando crescer quero ser arqueóloga ou geóloga. Acho isso muito legal, porque adoro fósseis e pedras.

Imagine descobrir amuletos no Egito e coisas usadas na antiguidade…” E o que será da onguinha? “Até lá ela já vai ter seu trabalho pronto e poderei passar o cargo para outra criança”, garante.

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