Não haverá emprego para os sem-escola

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O pesquisador Sergei Soares, especializado em educação, licenciado da direção social do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), acaba de publicar “Os Jovens Adultos de 18 a 25 anos: Retrato de Uma Dívida da Política Educacional” em estudo para esta instituição. Ele observa que, no Brasil, no nível primário, 10% dos estudantes estão em escolas privadas e 90% em escolas públicas. No segundo grau a escala é de 80% para 20% e 70% das universidades são privadas. Mais preocupante é a matrícula de jovens de 18 a 24 nas quatro primeiras e nas quatro últimas séries de ensino fundamental e no ensino médio (ver quadro na página anterior). É uma defasagem idade-série de sete anos ou mais de alunos que deveriam estar pelo menos matriculados na educação de jovens e adultos (EJA). De acordo com ele, há instituições privadas, ONGs e algumas iniciativas governamentais regionais interessadas em incrementar os programas do EJA. “Mas isso não basta. É fundamental que o governo federal tenha um papel articulador, complementador e regulador”, diz. Leia entrevista em que além desse assunto, Soares duvida da eficiência de mecanismos a serem criados para incentivar a entrada de capital internacional no sistema educacional e aponta a existência de uma geração de jovens sem acesso à educação. “Hoje não há emprego para quem não tem educação”, alerta.

Valor: A entrada de capital internacional para investir em educação nos países, como está sendo discutido na OMC (Organização Mundial do Comércio), seria uma solução positiva para o país?
Sergei Soares: Os mecanismos podem ser criados, mas duvido que algo aconteça. Se fosse acontecer, acho que iria para as universidades, pois a estrutura do ensino privado, de segundo e primeiro grau, no Brasil, é de dois tipos: para pessoas pobres, em torno de uma figura, de um diretor ou de uma liderança de bairro que vem a suprir deficiências graves do setor público e as escolas privadas tradicionais para a classe média alta e rica. Não vejo espaço para mais ninguém. Os países mais desenvolvidos não têm tradição no ensino pago. O mercado não é aberto. Assim, a tentativa de acontecer investimento privado na educação seria no ensino superior, que no país é 70% privado.
 
Valor: As instituições de ensino internacional não teriam interesse em investir no Brasil?
Soares: Tenho minhas dúvidas até de que universidades da rede privada americana ou inglesa, que são potências do ensino, possam se interessar em entrar no Brasil. Quem tem dinheiro no país – e essa é uma das nossas perversidades – vai para as universidades públicas boas. Para as universidades privadas vão aqueles que não têm dinheiro. Se chega uma universidade americana propondo ensino de qualidade, mas aos custos americanos, nem os ricos brasileiros teriam como pagá-la. Sou cético quanto à possibilidade de universidades estrangeiras, a não ser dos países latino-americanos, cujos custos são semelhantes aos nossos, virem investir aqui.
 
Valor: Há quem critique as medidas adotadas pelo presidente Lula para o primeiro emprego, afirmando que é preciso também pensar em garantir a escolarização desses jovens.
Soares: Essa história começa nos anos 60, 70. O Brasil sempre foi um país com uma desigualdade colossal e muita pobreza. Mas antigamente uma pessoa podia não ter muita educação, no máximo a quarta série, e, mesmo assim, conseguir entrar no mercado de trabalho. Um exemplo é Lula, que não teve oportunidade de estudo, conseguiu emprego, porque era uma época de expansão da indústria, e depois conseguiu estudar. Naquela época existiam oportunidades. Nos últimos 20 anos, muita coisa aconteceu no mundo e no Brasil. Uma delas é que cada vez temos mais computadores, máquinas de controle numérico, processos automatizados que aumentaram a produtividade e reduziram a demanda por trabalho não-qualificado. Hoje, nos países mais desenvolvidos, não há mais emprego para quem não tem qualificação.
 
Valor: Esse é um fenômeno recente
Soares: Bateu no mundo em torno dos anos 80 e no Brasil nos 90. Não há emprego para quem não tem educação. As pessoas que já entraram no mercado, embora não tenham educação, estão um pouco protegidas porque já entraram nas firmas, adquiriram conhecimentos específicos e têm experiência no mercado do trabalho.
 
Valor: Em seguida surge uma lacuna para os jovens sem estudo, é como um beco sem saída
Soares: Quem não tem educação, hoje, não tem nada, não terá oportunidades, nem emprego. O Brasil é um fracasso educacional, pior do que outros países da América Latina – pior, só a Bolívia ou o Haiti. Esse é um problema que vem de 40 anos para cá. É uma catástrofe. Mesmo assim, nos últimos dez anos começamos a recuperar o terreno perdido. Em grande parte, com o ministro Paulo Renato, do governo FHC, e também em alguns governos estaduais e municipais. Mas o efeito disso é que hoje os garotos que estão entrando no sistema educacional estão entrando em um sistema mais inclusivo. Ou seja: todo mundo chega na escola e como a repetência caiu muito, o número de pessoas se formando no primeiro grau é muito grande. Assim, o sistema consegue incluir alunos de um modo que antes não conseguia. Ainda tem graves problemas de qualidade, mas pelo menos atende mais pessoas.
 
Valor: Mas, no meio, há uma geração perdida
Soares: Há uma geração perdida e por isso falamos de dívida educacional. São pessoas que perderam o bonde do mercado de trabalho dos anos 70 e também o da educação dos anos 90. São as pessoas que deveriam ter entrado na escola nos anos 80. São jovens que não têm oportunidade no mercado de trabalho, não conseguem voltar para a escola porque passaram da idade adequada mas também não têm escolaridade adequada.
 
Valor: Qual é a saída para elas?
Soares: A gente acha estranho que eles virem bandidos, mas no fundo eles não têm o que fazer: não conseguem emprego e a escola não está capacitada para recebê-los de volta. Um garoto de 20 anos voltar para a escola com uma turma de 10 anos, nem ele nem a turma vai aprender.
 
Valor: Mas como resolver esse problema?
Soares: O Brasil precisa do EJA (programa de educação de jovens e adultos). Existem muitas experiências do gênero no país, mas nunca passam de 1/3. A Firjan (Federação das Indústria do Rio), tem muito interesse nisso – diferente da Fiesp (São Paulo). Também governos regionais, ONGs, a indústria e empresas. Mas a oferta ainda é muito pequena em relação à demanda avassaladora e não basta o interesse deles. É fundamental que o governo federal tenha um papel articulador, complementador e regulador. E aí, tanto o governo FHC, antes, como o de Lula, agora, estão comendo mosca. Não estão atentos à gravidade do problema. Voltamos à questão que você citou: é importante dar incentivos no mercado para contratar jovens no primeiro emprego. Nesse ponto, Lula está na direção certa, mas se o jovem não tem qualificação, não há incentivo que ajude.
 
Valor: O que fazer a médio prazo?
O Brasil não tem sido bem governado nos últimos 500 anos. É possível fazer muita coisa. O problema é a resistência corporativista, por exemplo, a uma reforma pequena na previdência, a uma redução pequena de privilégios. O Brasil tem um gasto social colossal e o problema é a aposentadoria de juízes e de gente como eu. O problema não é essencialmente técnico, é político e cultural.
 
Valor: A Unesco anunciou que, em desempenho escolar, o Brasil é o penúltimo em uma lista de 41 lugares.
Soares: No geral nem nós nem o resto da América Latina saímos bem nessas listas. Mas ficaria feliz se oferecêssemos ao menos essa qualidade baixa a essa geração perdida. Grande parte da população nem isso tem.

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