Livros que contam a história dos negros começam a ser distribuídos

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No próximo ano, pela primeira vez, a história dos negros (que compõem mais de 40% da população brasileira) começa a fazer parte da realidade de estudantes brancos, negros, índios ou migrantes, dos ensinos fundamental e médio.

Kits com dez livros cada um foram distribuídos para educadores de nove estados e 38 municípios, pelo governo federal, na semana passada. Apesar de reconhecer que há muito por fazer, nas mais de 320 mil escolas espalhadas pelo país, a Secretaria Especial de Políticas para Promoção da Igualdade Racial (Seppir) trabalha para multiplicar esse material didático, a despeito do escasso orçamento do órgão.

‘‘Cada secretaria de educação, de todas as cidades, recebe recursos para desenvolver material didático com cor local. Esse recurso é extremamente mal aproveitado’’, afirma o subsecretário de Relações Institucionais da Seppir, João Carlos Nogueira. O dinheiro do qual Nogueira está falando é distribuído pelo Ministério da Educação. A verba é proporcional ao número de alunos. Por ano, o repasse é de R$ 1,25 para cada estudante do ensino fundamental.

‘‘É fundamental chegar às mãos dos professores material pedagógico que os inspire na construção de uma metodologia positiva de tratamento pedagógico da diversidade racial, visualizando com dignidade o povo brasileiro’’, afirma Rosa Margarida, autora do Almanaque Pedagógico Afro-brasileiro, na introdução de seu livro. A frase resume o espírito do projeto lançado pela Seppir, que não quer tratar exclusivamente de discriminação racial. A idéia é recompor um período da história e da cultura brasileira ligada à presença dos negros no Brasil.

A conseqüência natural dessa nova disciplina é o orgulho. ‘‘É impressionante que o governo brasileiro tenha que lançar um projeto como esse. O ensino da cultura negra deveria acontecer naturalmente’’ comenta a antropóloga Berenice Dias, da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais. De acordo com ela, o ensino das tradições africanas enraizadas no país é importante para que as próximas gerações se preocupem cada vez menos com a cor de cada um. ‘‘Ficará claro para as futuras gerações que todos tiveram a mesma importância na construção do nosso povo.’’

Próximo passo

A distribuição de livros didáticos com a história dos afro-descendentes acontece um ano e meio depois de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionar a Lei 10.639 que institui o ensino de história da África, do negro no Brasil e da cultura afro-brasileira, em janeiro do ano passado.

O MEC e a Seppir passaram boa parte desse período em laboratórios e fóruns selecionando textos e livros que estariam mais próximos do necessário para capacitar os professores para tratar dessa parte da história. Para sair do papel, além da elaboração do material, é fundamental modificar os currículos escolares para que os educadores saibam como abordar cada tema. ‘‘Vamos discutir com secretários locais como fazer chegar esse conhecimento em sala de aula e ainda construir material local, com as peculiaridades de cada região’’, explica Nogueira. ‘‘A população indígena não tem a mesma linguagem que a negra e a urbana.’’

O melhor momento para inserir a disciplina nos currículos de alunos dos ensinos fundamental e médio é na revisão do Plano Nacional de Educação, que ocorre a cada cinco anos. A última vez que foi alterado o plano foi em 2000. ‘‘Assim que os novos prefeitos tomarem posse, terão que revisar o plano’’, afirma Nogueira. ‘‘É nesse momento que a lei vai chegar a cada canto do Brasil.’’

“Sai de perto, neguinha”

Os alunos das turmas de 1ª e 2ª série do Centro de Ensino Médio Setor Oeste, no Plano Piloto, em Brasília, não precisaram esperar pela Lei 10.639, de janeiro de 2003, para aprender a identificar o racismo e a contestá-lo. Há cinco anos, a professora de sociologia Sandra Leite Teixeira, de 38 anos, ensina seus alunos as tradições e histórias dos afro-descendentes. Mas engana-se quem pensa que o conhecimento está restrito aos estudantes negros.

Na sala de aula não existe discriminação às avessas. ‘‘No momento que a pessoa é preconceituosa, ela está aberta para ser vítima de  discriminação’’, afirma Dheyvit Gomes, um jovem de cabelo e olhos claros, de 15 anos. A lição contra a discriminação está espalhada pela sala de aula, em cartazes feitos pelos estudantes. ‘‘Fui vítima de discriminação muitas vezes antes de estudar com a professora Sandra’’, conta Diógenes Gomes, 16. ‘‘Agora, sei me defender melhor. Meus horizontes estão maiores’’, afirma.

A professora ensina a seus alunos a importância de se respeitar o próximo independentemente da idade, cor, opção sexual ou alguma necessidade especial. Negra e com várias tranças no cabelo, Sandra viu aumentar sua disposição para brigar contra o preconceito racial no dia que foi comprar um presente para uma criança e foi maltratada por uma outra cliente da loja. ‘‘Ela me mandou sair de perto da filha dela porque era uma negrinha’’, conta Sandra.

De acordo com ela, o conhecimento é uma importante arma contra o racismo e as injustiças profissionais. ‘‘Sempre que faço discussão em sala de aula, os alunos negros e negras não se pronunciam’’, afirma. ‘‘Existe um histórico de silêncio. Desde cedo aprendemos a nos calar.’’ O aluno Gabriel da Cunha Rego, de 16 anos, tirou nota máxima no trabalho contra discriminação. ‘‘No Brasil as pessoas consideram
aceitável e normal ser racista’’, afirma. ‘‘O conhecimento de cada um é importante para que as pessoas saibam se expressar e lutar por um mundo melhor.’’ (EK)

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