Em junho deste ano, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) divulgou dados do Censo Escolar apontando que 65% das escolas de ensino fundamental do Brasil oferecem algum tipo de educação ambiental. Mas o dado, que à primeira vista poderia ser encarado como animador, merece uma reflexão. Que educação ambiental é oferecida em nossas escolas? Ter uma horta no fundo do quintal, plantar árvores em datas comemorativas ou oferecer latões coloridos para fazer a coleta seletiva do lixo pode não significar muita coisa.
Para terem efeito, essas ações precisam estar acompanhadas de uma sensibilização para os problemas ambientais e para o papel de cada um nisso, alertam especialistas ouvidos pelo Sinapse. “Chegamos à quantidade, agora é importante pensar na qualidade do que está sendo ensinado”, afirma Guilherme Blauth, coordenador da ONG Harmonia da Terra, que atua com formação de educadores ambientais em Santa Catarina.
A demanda pela discussão é tanta que motivou neste ano o lançamento de vários livros sobre o assunto, além da realização de dois congressos. O Congresso Mundial de Educação Ambiental aconteceu em setembro, com coordenação da Fiocruz e da Associação Brasileira de Ciência.
De 3 a 6 de novembro, os ministérios da Educação e do Meio Ambiente realizam o 5º Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, evento que não ocorria desde 1997. A principal preocupação de toda essa mobilização é fazer com que a educação ambiental faça sentido para a vida de alunos, professores e comunidades e possa servir como instrumento para a construção de uma sociedade sustentável.
“É nas práticas pedagógicas cotidianas que a educação ambiental poderá oferecer uma possibilidade de reflexão sobre alternativas e intervenções sociais, nas quais a vida seja constantemente valorizada e os atos de deslealdade, injustiça e crueldade possam ser repudiados”, defende Marcos Reigota, professor da Universidade de Sorocaba, que fez parte da mesa de abertura do congresso mundial.
Há tempos o tema sustentabilidade não é exclusivo aos ambientalistas, mas o fato de ter entrado no discurso das pessoas ainda não basta para reverter os estragos no ambiente. É nesse vácuo que uma educação ambiental bem feita pode surtir efeito, esperam os especialistas.
“Nunca houve tanta informação sobre ambiente quanto hoje, no entanto nunca se degradou tanto. Precisamos fazer com que a boa-vontade desses professores não reme na direção contrária”, afirma Marcos Sorrentino, coordenador do programa de educação ambiental do Ministério do Meio Ambiente. “Queremos que essas ações produzam uma compreensão histórica de causas e conseqüências.”
Uma das atividades que correm o risco de seguir na “direção contrária”, de acordo com Sorrentino, são os programas de coleta seletiva e reciclagem. “Sem reflexão, eles podem estimular um consumo maior.” Ele explica que é o que ocorre, por exemplo, quando a escola premia o aluno que conseguir mais latinhas. “É preciso ter coerência. Em vez de simplesmente depositar nos locais certos, é melhor substituir o copo de plástico pela caneca de cerâmica, evitar o isopor”, completa Blauth.
A preocupação também está norteando o governo. Neste ano, o MEC deu início a um programa de formação de 32 mil professores em todo o Brasil, sob o tema “Consumo sustentável com abordagem científica, de políticas públicas e sugestões de atividades em sala de aula”.
“Queremos que eles percebam que nem tudo é consumível”, diz Rachel Trajber, coordenadora-geral de educação ambiental do ministério. Além dessa diretriz e dos conceitos gerais passados aos professores, o programa do MEC pretende que cada escola aborde a educação ambiental a partir das necessidades locais. É o famoso “pensar globalmente, agir localmente”, que tem sido destacado por especialistas da área. “Não basta falar da Amazônia quando a praça em frente está destruída. As questões globais têm de ser compreendidas, mas antes é importante perceber o entorno em que vivemos”, diz Blauth.
Para conseguir isso, a primeira coisa a fazer é aprender na prática. É o que estão fazendo escolas de Embu, na Grande São Paulo, em um projeto idealizado pelo Instituto Ciência Hoje, organização ligada à SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), com a prefeitura da cidade.
Com o projeto Embu na Onda do Mar, os alunos das quartas séries do ensino fundamental das escolas municipais saem a campo, em um determinado período do ano, para investigar os problemas da cidade, localizada em área de mananciais e cercada por rios poluídos.
Quem aprende primeiro são os professores. No curso de formação, eles são orientados a mudar a forma tradicional de ensino. Em vez de se basearem apenas no livro didático, descobrem que fazer atividades relacionadas aos interesses da comunidade é mais interessante. “Esse processo é impressionante. No primeiro programa, percebemos que muitos professores não tinham idéia do que poderia ser feito em educação ambiental”, diz Ricardo Madeira, superintendente do ICH.
Antes de sair da escola, os alunos formulam questões sobre fatos da natureza que devem ser observados. Na coleta de dados, elaboram hipóteses e, quando voltam para a sala de aula, se mobilizam para encontrar as respostas. Para isso, usam recursos como experiências, pesquisas em livros, revistas e na internet e até entrevistas com especialistas.
A etapa seguinte é passar um dia na Baixada Santista, onde podem comparar os ecossistemas da cidade e do litoral. Depois, as turmas trocam informações. Ao final da expedição, todos vão à praia. “Eles aprendem se divertindo. Apesar da agitação por conta da viagem e do mar, que muitos nunca viram, todos sabem que têm muito trabalho a fazer e sempre põem a mão na massa”, conta Maria Del Carmen Chude, diretora pedagógica do Programa Ciência Hoje de Apoio à Educação, que coordena o projeto.
Por meio dessa abordagem, vários assuntos passam a fazer sentido. Por exemplo, ao compararem a água do rio na nascente e na cidade, os alunos percebem que a poluição é causada pelo homem. “Eles vêem que, antes, a cidade deles também tinha mata atlântica e compreendem o impacto da degradação ambiental”, explica Maria Del Carmen. Outro resultado positivo é que, realizada dessa forma, a educação ambiental se torna um tema transversal em todas as disciplinas.
De um modo geral, as escolas têm restringido o assunto aos professores de ciências, biologia ou geografia ou mesmo criam uma disciplina para tratar o assunto. “Não é raro ver escola que separa saúde e ambiente, que não relaciona o desmatamento ao surgimento de uma endemia como a malária”, critica a bióloga da Fiocruz Danielle Grynszpan, que coordenou o Congresso Mundial de Educação Ambiental. “Isso empobrece o trabalho. Educação ambiental é uma forma de ver o mundo. Tem de ser uma prática integrada e contínua em todos os níveis de ensino”, completa Rachel Trajber, do MEC.
Para formar educadores ambientais, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) lançou a coleção de cinco livros “Educação Ambiental para o Desenvolvimento Sustentável”, (Globo, R$ 37 cada um). “A idéia é que qualquer pessoa possa desenvolver um projeto na área”, diz Valéria Sucena Hammes, coordenadora da proposta. Um bom exemplo de transversalidade vem ocorrendo na escola da Fundação Bradesco em São João del Rei (MG).
Há dois anos, a fundação decidiu incluir educação ambiental nas suas escolas, com um professor responsável pelas aulas. Mas não deu certo. Não havia integração com as outras disciplinas, e a aula acabava repetindo o conteúdo de outras. Hoje a cadeira ainda existe, mas o conceito é outro. Para começar, foi chamado um profissional diferente para ensinar: um engenheiro agrícola, cujo papel não é dar aulas, mas ajudar no planejamento dos professores.
No começo do ano, ele avalia os currículos, reúne-se com cada um dos docentes e sugere desde inserções simples de questões ambientais em aula até projetos maiores, como estudos de campo. “Em matemática, por exemplo, quando se estuda regra de três, é possível fazer a conta: quantas árvores são necessárias para fazer um livro?”, explica Waldir Alves Pereira Júnior, responsável pelo trabalho.
Com a orientação do professor, os alunos da quarta série produziram um livro de receitas com ingredientes normalmente desprezados, como folha de beterraba, casca de batata e caroço de melancia. Com outra turma, reuniu os conteúdos de geografia, português e ciências em uma visita ao supermercado, o fato observado: a substituição de vidro por plástico em embalagens. Em ciências, avaliaram o impacto na natureza. Em geografia, conheceram conceitos de industrialização. Em português, elaboraram cartas para empresas questionando a mudança.
O professor coordena ainda projetos amplos, que envolvem a escola inteira, como a reciclagem de papel e a transformação dos restos de comida em adubo para a horta orgânica. “Fechamos um ciclo por meio do qual a escola consome o que ela própria produz. E os restos voltam a alimentar essa produção”, explica Pereira Júnior. Toda sala de aula tem um latão específico para o depósito de papel branco, que vai depois para uma miniusina de reciclagem, manuseada pelos próprios estudantes. O que é reciclado ali volta para o uso da escola e da comunidade na forma de convite, cartão, diploma, cardápio, livro, embalagem, porta-retrato etc.
Em outra frente, os alunos trabalham combatendo o desperdício de alimentos na merenda e encaminhando para a composteira, onde restos orgânicos são transformados em adubo. Eles também cuidam de um minhocário, que serve para a obtenção de húmus. A produção alimenta a horta, que alimenta a escola. “Se quisermos uma escola verde, nada poderá ser perdido. Aqui a gente transforma tudo”, diz Pereira Júnior. Uma etapa importante da construção da sociedade sustentável depende agora desses alunos. “Nossa intenção é que eles sejam multiplicadores de conhecimento, levando esses conceitos para casa.”


