O dia 9 de abril de 2003 entrará para a história como o dia em que populares iraquianos, com o apoio das tropas dos Estados Unidos, derrubaram a estátua de Saddam Hussein e arrastaram a parte correspondente a sua cabeça pelas ruas de Bagdá. Mas terá registrado, também, em outros arquivos, o momento em que 50 países de todo o mundo realizaram um ato simultâneo em favor do direito à educação, por iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Aulas públicas sobre a importância da educação na formação do cidadão foram realizadas ao longo do planeta. A idéia foi a de promover “a maior aula do mundo”, em número de alunos e concomitante, a fim de integrar a página do Guiness Book. Mas o ato aconteceu com um fim maior do que a simbólica quebra de recorde, que atualmente contabiliza 28.801 alunos. A Unesco anda preocupada com o acesso ao ensino e que este seja de qualidade.
No Largo das Baianas (Amaralina), local escolhido em Salvador para abrigar a aula pública, o número de estudantes que compareceram e suas declarações à reportagem revelam que a preocupação da Unesco não é à toa. Num universo de milhares de alunos do bairro de Amaralina e vizinhança, algumas dezenas compareceram, embora tenham sido previamente convidados e avisados nas escolas. Falta de interesse? “Muitos alunos não têm vontade de participar desse tipo de atividade porque acham que não vai acontecer nada”, disse a estudante Jamile de Jesus, 14 anos, aluna da 8ª série da Escola Sátiro Dias (Nordeste de Amaralina) e moradora de Pernambués. Acostumados com um cotidiano escolar no qual atividades extra-classe são raras, a motivação para esse tipo de encontro, às vezes, soa, como algo desinteressante ou estranho.
“A gente não está acostumada a ver esse tipo de trabalho. Mas para a gente que prestou atenção no que eles falaram, vê que é uma coisa verídica mesmo. Pessoas que só sabem escrever o seu nome e votam nem podem conhecer os candidatos direito”, disse Isabela Andrade, 15 anos, estudante da 8ª série da mesma escola. Para ela, que sonha em cursar “pediatria” (ou seja, medicina) na universidade pública, algumas dificuldades do dia-a-dia da escola são um dos maiores problemas da educação que ela conhece; no caso, a pública. Ela exemplifica com o insuficiente número de livros didáticos distribuídos para os alunos. Muitas vezes, os alunos têm de dividir o mesmo livro, o que acaba dificultando a concentração, o estudo e o exercício das lições. A infra-estrutura precária de alguns prédios é outra reclamação.
Qualidade ainda deixa a desejar
Embora as estatísticas do Ministério da Educação (MEC), coletadas através do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), apontem um crescimento progressivo de inclusão/acesso à educação, a qualidade do ensino público e as condições para a sua oferta ainda deixam muito a desejar. “A batalha quanto à quantidade nós já vencemos. Temos agora de conseguir a qualidade. E esta qualidade, que é uma das metas do governo federal, será a responsável pelo desenvolvimento social. Mas é bom que se entenda que não existe política de sucesso sem parceria de todos os atores sociais. No caso, alunos, família, professores, diretores, governos e setor privado”, disse Djalma Ferreira, coordenador da Unesco na Bahia.
Os atores sociais devem começar o quanto antes a construção de um espetáculo educacional de qualidade, considerando o peso da pobreza e desigualdade no roteiro. Há pouco mais de um mês, por exemplo, o MEC anunciou que, de cada grupo de cem alunos que ingressam na 1ª série do ensino fundamental, 59 conseguem terminar a 8ª série e os outros 41 param de estudar no meio do caminho. Para aqueles que entraram no ensino médio, a expectativa de conclusão é maior: 74% conseguem terminá-lo. Os estudantes que concluem, sem interrupção, essas etapas educacionais levam, em média, de 10,2 anos para completar as oito séries do ensino fundamental e 3,7 anos para passar pelas três séries do ensino médio. A necessidade de trabalhar cedo para ajudar nas finanças em casa ou o desestímulo decorrente do método de ensino são alguns dos motivadores desses dados.
No Brasil, a ação da Unesco marcou o lançamento oficial da Década da Alfabetização, estabelecida pela Assembléia Geral das Nações Unidas, durante a Semana Educação Para Todos (6 a 13 deste mês) – compromisso formado entre 180 nações durante o Fórum Mundial de Educação realizado em 2000, na cidade de Dacar (Senegal). A realização da Maior Aula do Mundo está relacionada à semana Education for All (EFA), que este ano abarca o tema “Tudo pela educação das mulheres”, que tem a finalidade de equilibrar quantitativamente o acesso à educação para meninos e meninas em todo o mundo.


