Nem só a lição escrita com giz no quadro verde, os professores e as provas bimestrais resumem a rotina de sala de aula das 610 escolas públicas do Distrito Federal. Em meio ao ensino tradicional que ainda impera, a rede oficial apresenta um universo de atividades pedagógicas, artísticas e esportivas que enriquece o currículo dos estudantes. Dá para aprender a tocar um instrumento diferente, a fazer trilhas no cerrado para amar de perto a natureza, a cultivar a terra e cuidar de animais, a treinar para ser um bom atleta, a falar bem uma língua estrangeira e até mesmo conquistar o diploma de uma profissão.
O único problema é que as escolas com salas de aula diferenciadas ainda são poucas e as vagas, limitadas. A seleção e o sorteio são quase sempre uma exigência para os alunos. Cursos interessantes, como aulas de cerâmica e escultura, são retirados da programação da escola por conta da escassez de profissionais, que somem do mercado em conseqüência dos baixos salários. Mesmo assim, há experiências bem-sucedidas e empolgação de mestres e alunos. O Correio(Brasília) visitou seis das 42 escolas com proposta pedagógica diferente e esbarrou em boas surpresas, em todas elas.
Boas experiências
Plantas em vez de armas
Encontrar seriema, veado-campeiro e mico a caminho da escola não é nenhuma surpresa para as 400 crianças que estudam na Escola Classe Jardim Botânico. Afinal, a escola é a única no Distrito Federal dentro de uma unidade de conservação. Por conta dessa particularidade, o primeiro projeto pedagógico do ano, na escola rodeada pela natureza, é um passeio pelo Jardim Botânico. Pelo caminho, os alunos vão aprendendo a importância de preservar o cerrado. ‘‘É muito legal essa escola. A que eu estudava antes não tinha tantas árvores. Aqui eu já vi até um tatu’’, conta Meire Odayk, 7 anos, aluna da 2ªsérie. As crianças ainda participam de oficinas de reciclagem de papel, com flores e sementes do cerrado, e de alimentação alternativa, onde aprendem a fazer, por exemplo, bolo de jatobá. Este ano, no entanto, a guerra no Iraque adiou a trilha pelo cerrado. ‘‘As crianças chegaram à escola apavoradas, querendo saber se a guerra atingiria o Brasil’’, conta a diretora Laís Matta. Na última sexta-feira, os alunos comemoraram a paz na escola. Vestiram branco e trocaram armas de brinquedo por plantinhas.
Uma chance ao futuro
Com pinta de bravo, o menino de cabelo louro amoníaco cansou da obrigação de ter de engraxar sapatos para sustentar a mãe e a irmã, que moram no Paranoá. Saiu de casa e passou a dormir na rua. Mas, no mês passado, Jefferson Viana, de 12 anos, resolveu conhecer o colégio de que um amigo tanto falava — a Escola de Meninos e Meninas do Parque — e passou a freqüentá-la . ‘‘Vou continuar vindo estudar’’ afirma, entusiasmado. A escola é aberta a meninos que vivem na rua, uma experiência pioneira e única no Brasil. Em troca da freqüência às aulas, no turno da manhã, os meninos menores de idade recebem uma bolsa-estudo (cada hora de estudo vale R$ 1) e cesta de alimentos no final do mês. À tarde, há cursos diversos, como pintura, aulas de circo e oficinas de biscuit (porcelana fina) e sabonete. A rotina na Escola de Meninos e Meninas do Parque começa com o banho. Ao meio-dia é servido o almoço e, às 16h45, o lanche. São 119 garotos e garotas que passam o dia fora das ruas.
Os meninos do lava-jato
À primeira vista, parece exploração. Só depois é que se descobre o valor do projeto inovador desenvolvido pelo Centro Especial nº 1 do Guará. Desde 1999, a escola que atende alunos com necessidades especiais criou o projeto Lava-jato. Durante quatro horas por dia, os alunos que se inscrevem para participar lavam carros de professores e de moradores. São duas turmas por dia: oito alunos de manhã e oito à tarde. O lava-jato funciona dentro da escola, de segunda a sexta-feira, em horário comercial. ‘‘É uma forma de socializá-los e treiná-los para o mercado. Aprendem a ter disciplina e responsabilidade’’, explica o professor Osmar Honório, coordenador do projeto. A maior parte da renda é repassada aos alunos — 30% vão para a compra de xampu e para a Associação de Pais e Mestres. Paulo Roberto de Melo da Silva, 17, da 6ªsérie, começou a trabalhar no lava-jato há uma semana e faz planos para os R$ 50 que deve ganhar por mês. ‘‘Preciso economizar para comprar uma casa. Vou casar com Giovana, minha namorada.’’
A profissão garantida
São apenas cinco os centros de ensino profissionalizante do DF. Escolas que os alunos do 2º ano do ensino médio podem freqüentar em horários diferentes das aulas, para apressar o diploma de uma profissão. Há cursos nas áreas de tecnologia (como informática e telecomunicações), música, saúde (enfermagem) e agricultura. Na última seleção, em dezembro, foram cinco mil inscritos para 460 vagas na Escola Técnica de Brasília, em Taguatinga. Marcelo Guedes Saraiva, 23, é aluno novo do curso de Telecomunicações. ‘‘Passei no vestibular, mas não posso pagar. Tenho de sustentar minha família’’, explica. Morador do Gama, ele acorda às 4h para estudar as matérias do curso, que começa às 8h. Das 15h às 21h, trabalha numa empresa de TV por assinatura, na Asa Sul. ‘‘Aprendi a não reclamar. A concorrência é grande e se quiser melhorar de vida tenho de ralar mesmo’’, ensina. Lorena Cardoso, 18, colega de turma de Marcelo, vê na escola a oportunidade de passar em um concurso da área técnica. ‘‘Tem menos gente especializada para concorrer’’, afirma.
Aprendendo a tocar lira
A escola parque foi uma proposta do educador Anísio Teixeira para o ensino público na nova capital do país. Seria um espaço para os alunos das escolas classe da vizinhança complementarem o aprendizado da sala de aula. Pela manhã, a garotada iria para a escola regular e à tarde, aprenderia música, teatro, dança, artesanato e praticaria esportes. Era a filosofia da escola em tempo integral. Mas somente cinco escolas parque foram construídas no Distrito Federal, todas no Plano Piloto. As vagas são restritas e o interesse dos estudantes é grande. Yasmin Mesquita, 10 anos, teve de esperar dois anos pela sorte para aprender a tocar lira, um instrumento musical de 25 teclas de metal, utilizado nas fanfarras escolares. ‘‘Desde a segunda série, queria muito entrar nessa turma’’, conta a aluna da 4ªsérie da Escola Classe 304 Sul e da Escola Parque 308 Sul, a primeira a ser inaugurada em Brasília.
Trabalho na roça
O Colégio Agrícola de Brasília, que fica na zona rural de Planaltina, é a única escola-fazenda da rede pública de ensino do DF. Embora exista há 41 anos, o dia-a-dia dos estudantes da escola ainda é desconhecido de muitos brasilienses. Dentro da fazenda de 2.236 hectares, o aluno aprende a pôr em prática a teoria ensinada pelo professor em sala de aula. Ele aduba e cultiva o solo, combate as doenças que atacam animais e plantas e cuida da alimentação e reprodução de carneiros, aves, coelhos, bois, porcos e cavalos. Parte da comida preparada no refeitório é preparada com produtos colhidos na horta da escola. Há 411 alunos matriculados em três cursos com duração de três meses: agroindústria, agropecuária e especialização em turismo (pós-médio). Os alunos de fora, como Valmir Alves de Araújo, 25, ficam hospedados na escola. Ele veio de Balsas, Maranhão. ‘‘Lá tem muita soja e sempre precisam de técnicos no campo’’, explica.


