Termos como ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e universalização do ensino saíram dos gabinetes para a mídia. Aparentemente, nunca se falou, em tantos contextos distintos, sobre aceleração dos estudos, combate à evasão e repetência escolar, formação profissional, inclusão digital, democratização X qualidade do ensino. Sem dúvida, algo parece mudar nessa área, mas nós sabemos que ainda falta muito para atingirmos um padrão que faça a diferença na vida dos brasileiros.
Em meio a tantas necessidades e desafios, nesta área fundamental para o país, cabem, portanto, algumas perguntas: a educação de qualidade, enquanto um bem público, é responsabilidade de quem? Do Estado, da sociedade civil, dos educadores ou das empresas e fundações? Como ela deve ser encarada: um modismo, um bom negócio, solução para os problemas sociais ou tarefa para parcerias estratégicas?
Para entender o que acontece, hoje, é preciso voltar ao passado. No Brasil, a educação entrou na pauta nacional, de forma mais significativa, a partir dos anos 90, após muitas inadequações e crises que ainda respingam nos dias de hoje.
Parece inacreditável, mas já vivemos um tempo em que era nobre, socialmente, as pessoas (mulheres, em sua maioria) formarem-se professoras primárias e receberem um salário digno. Conheci algumas que compraram carro, moradia e educaram os filhos com o que recebiam no magistério, mas que, no início dos anos 80, assistiram à desvalorização de seu padrão de vida e status profissional.
Neste mesmo período, o ensino público apresentava um quadro nebuloso: altos índices de evasão escolar e repetência – mais de 30 % dos alunos não passavam da primeira série do ensino fundamental; insuficiência de vagas para alunos nas escolas; professores despreparados para enfrentar os desafios do cotidiano da escola; universidades em crise. Uma perspectiva triste e desesperançosa.
Vinte anos depois, o quadro apresenta sinais de transformação. Para melhor, felizmente. Há mudanças importantes no cenário da educação básica no país. O ensino fundamental foi universalizado: 97% das crianças em idade escolar estão na escola; o número de analfabetos com mais de 15 anos diminuiu; a escolaridade do trabalhador brasileiro pulou de 4 para 5/6 anos; o número de matrículas no ensino médio aumentou de 2 milhões para 8 milhões, entre 2000 e 2002; projetos de aceleração e complementação escolar são implementados em todo o país e, com eles, a discussão de como erradicar o problema da evasão e repetência; entidades governamentais desenvolvem diretrizes, parâmetros curriculares e programas de bolsa-escola e livro didático. Cresce no terceiro setor o número de organizações não-governamentais que atuam na área da educação.
O quadro muda de nuances e enfoques. A educação parece voltar a fazer parte da ordem do dia, da pauta nacional. Mas será que isso é suficiente para fazer a diferença na vida dos brasileiros?
Há quem diga que somos, hoje, a sociedade do conhecimento. Creio, no entanto, que o provável é que estejamos mais para a sociedade da informação, em que tudo circula por aí, de várias formas, sem necessariamente ser apropriado e traduzido em qualidade de vida e bem comum. Há um bom tempo a informação não está circunscrita ao universo da escola que, por sua vez – embora seja o espaço privilegiado para o aprendizado -, não pode mais caminhar sozinha. Cada vez mais é preciso ser capaz de aprender sempre, em diferentes lugares, através de diferentes mídias. É preciso desenvolver habilidades e competências para operar e traduzir uma enorme quantidade de informações em conhecimentos úteis, identificáveis e aplicáveis. De transformar a informação em conhecimento.
Portanto, cabe nova pergunta: nesta sociedade, como deve ser encarada a educação? Ela é responsabilidade de quem?
São várias as respostas: 1). A educação não pode ser apenas um modismo, volúvel e efêmero; 2). A educação não pode ser apenas um negócio, em que o foco são os investimentos e lucros competitivos, porque sua meta é de resultados de longo prazo; 3). A educação não pode ser encarada como a única solução para os problemas sociais, descolada de ações ligadas à sustentabilidade, segurança, saúde e infra-estrutura, entre outros.
E, finalmente: a educação precisa ser assumida por uma parceria estratégica, envolvendo governos, empresas, ONGs, fundações, comunidades e cidadãos, na qual cada um possui papel específico e complementar nesta rede social. Por conceito de parceria, entenda-se: a ação de diferentes organizações que, diante de uma situação de complexidade e gravidade, se reúnem e passam a atuar conjuntamente, potencializando suas capacidades específicas de atuar sobre o problema.
Acontece que, embora já existam louváveis e exitosos projetos educacionais, ainda estamos engatinhando na protagonização de parcerias estratégicas.
Pesquisas de instituições de referência – Andi (Agência Nacional dos Direitos da Criança), FGV (Fundação Getúlio Vargas), Preal (Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina e Caribe) – evidenciam também que ainda não há consciência na sociedade brasileira sobre o valor social da educação e de quem seja por ela responsável, das elites às camadas mais populares.
Portanto, é hora de criar um novo paradigma na educação brasileira: os governos, instituições, ONGs, empresários e voluntários devem atuar em parceria e estabelecer laços entre diferentes, de forma que todos possam trabalhar de modo complementar, estabelecendo princípios e táticas comuns no combate às desigualdades sociais. Quem sabe, assim, saiamos do discurso recorrente – e muitas vezes inócuo – do “politicamente correto” ou “socialmente responsável” para fomentarmos, efetivamente, a educação na escala e abrangência que o Brasil precisa. Urgentemente.


