Educação de qualidade

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CRISTOVAM BUARQUE, futuro ministro da Educação, ainda promete pôr todas as crianças em escolas de qualidade e não ter mais analfabetos ao fim do governo Lula.

EDUCAÇÃO DE QUALIDADE

Rio – O futuro ministro da Educação, Cristovam Buarque, de 58 anos, chega ao Ministério da Educação mudando o significado do C que ainda ficou na sigla: será, a partir de agora, C de criança. Os projetos de Cristovam têm como carro-chefe o Bolsa-Escola, mas passam por idéias ambiciosas, como fazer um censo dos meninos de rua e arrumar casas e escolas para todos. O futuro ministro ainda promete pôr todas as crianças em escolas de qualidade e não ter mais analfabetos ao fim do governo Lula. “Se no fim do governo nós tivermos, em vez de 97% de crianças na escola, 98%, em vez de comemorar nós vamos pedir desculpas pelos dois por cento”, promete.

– O senhor dizia que gostaria de assumir o Ministério da Educação sem o ensino superior, mas agora terá que administrar também as universidades.

Cristovam Buarque – Idéias o ministro tem direito de ter. Políticas, não. As políticas pertencem ao presidente. Essa é uma idéia que tenho há 15 anos, mas a política de governo é que vamos ficar juntos. E agora estou muito animado. Se quiserem tirar as universidades do MEC, eu não vou querer.

– O governo do presidente Lula vai conseguir deixar uma marca nas universidades brasileiras. Qual será a marca?

Cristovam – Essa mudança não vai sair da cabeça do ministro, mas da comunidade acadêmica, da sociedade inteira. Nós vamos preparar esse projeto ao longo dos próximos meses com reitores, com a comunidade acadêmica, com os alunos e com a sociedade. Vamos procurar empresários e políticos.

– Dentro de alguns meses, o Brasil poderá ter o projeto do governo Lula para as universidades. As universidades federais poderão ser pagas?

Cristovam – Não sei. Vamos esperar que esse grupo analise isso. Temos que lembrar que a universidade federal já é paga. Não existe nada de graça. A pergunta é: quem paga, o estudante ou a sociedade? Essa decisão a gente tem que fazer com a abertura para qualquer proposta, mas sem escolher aquela que saia da cabeça de uma ou outra pessoa ou de um ou outro grupo.

– O senhor pretende manter as avaliações que são feitas hoje, como o Provão, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb)?

Cristovam – A avaliação tem de ser feita. Ninguém pode deixar de fazê-la. É uma responsabilidade nossa diante de quem paga nossos custos, que é o povo. Então, temos obrigação de avaliar. Podemos até mudar critérios, mudar a maneira de fazer, mas parar de fazer as avaliações que o governo Fernando Henrique Cardoso começou, não vamos. Ainda vou tentar fazer uma avaliação a mais, a do ministro.

– No ensino básico quais são as suas metas?

Cristovam – Tem duas tarefas que Lula me disse que gostaria de ver cumpridas: criar uma mania de educação no país, fazer o brasileiro ter tanta mania de educação quanto tem de futebol. E outra é ter orgulho da escola. O dia em que o brasileiro tiver orgulho da sua escola, vamos resolver o problema da educação. Para isso o Brasil vai ter que pagar. Não só a parte chamada governamental. Vamos pedir a contribuição da sociedade. Todo brasileiro que quiser uma boa educação terá de dar sua contribuição. Não vou entrar em detalhes. É cedo para começar a falar em programas antes que o presidente dê aval.

– O orçamento do ministério não é suficiente? Cristovam – O ministério tem dois problemas: pouco dinheiro e dinheiro amarrado. Tem setor que pode sobrar e você não pode tirar de outro porque a lei não deixa.

– Mas o senhor já disse que não quer começar pedindo mais recursos…

Cristovam – Cada ministro faz parte de um grupo. O ministro que briga olhando só para o seu ministério não é um bom ministro. A primeira coisa não é começar a pedir mais dinheiro num momento em que temos um risco de inflação e em que é preciso manter um superávit fiscal. Eu não vou começar pedindo mais dinheiro ao Lula. Vou começar descobrindo de onde remanejar recursos dos R$ 18 bilhões que estão previstos para 2003. E eu vou sim bater na porta da sociedade brasileira e das organizações internacionais.

– E os estados e municípios?

Cristovam – Vamos ter que fazer juntos algumas tarefas. Por isso algumas cidades podem ir mais depressa que outras, por mais determinação do prefeito ou porque um governador tem mais motivação que outro. Se põe junto os três segmentos, já começa a faltar menos dinheiro. E se em cada cidade se mobiliza a sociedade, as igrejas, as empresas, eu acho que vamos poder ter os recursos.

– Se não surgirem os recursos, aí a gente vai ter que fazer uma opção. Quais são as opções?

Cristovam – Buscar mais recursos públicos ou ir mais devagar. Nós não sabemos a que velocidade vamos avançar. Uma coisa eu quero dizer: a diferença de um governo do Lula, ele tem dito, é que não vai fazer mais do que já está feito, vai resolver. Não se trata de alfabetizar mais adultos, se trata de dizer que analfabetismo de adultos neste país é exceção. Trabalho infantil é zero, não pode ter prostituição infantil de caráter endêmico no Brasil como existe hoje. Isso é o que Lula me disse. Na nossa conversa ficou claro que o C do MEC é de criança. Eu quero ser o ministro da educação e das crianças.

– O que o senhor pretende mexer nos programas que existem hoje no Ministério da Educação? Cristovam – Lula me disse: “Nós não viemos para destruir, mas para construir”. Nós não vamos parar nenhum dos projetos do ministro Paulo Renato (Souza, atual ministro da Educação). Podemos reformar, reorganizar, dar mais prioridade, agir mais depressa, mas não vamos parar projetos. Não vamos chegar no ministério mudando todo mundo de uma vez, parando coisas que estão indo. Algumas boas, eu diria até muitas.

– O senhor falou de não pedir recursos, mas algumas das idéias do programa de governo do PT, como ampliar o Fundef e aumentar o valor do Bolsa-Escola custam caro.

Cristovam – Vamos ter que fazer, mas não dá para garantir que vai ser no primeiro ano de governo porque o Orçamento está pronto. Um Orçamento que, inclusive, tirou dinheiro do fundo da pobreza para financiar programas que eram financiados por outros fundos, como parte da merenda escolar. Significa que o dinheiro que antes ia para a merenda foi para financiar alguma coisa de rico. Esse Orçamento de 2003 que Lula vai herdar não vai permitir nenhum salto.

– O programa do PT também pretende aumentar o valor anual por aluno do Fundef para mil reais. O senhor acha realmente necessário?

Cristovam – Necessário é, resta saber a data. É já em 2003? Não tenho como analisar agora, sobretudo depois do que tenho falado, que não vou começar com pires na mão.

– O que o senhor pode fazer para resolver o problema dos meninos de rua?

Cristovam – Aqui no Distrito Federal consegui tirar das ruas aqueles com menos de 16 anos. Eu vou ver se consigo fazer no ministério, mas não é possível sem os prefeitos. Aqui no Distrito Federal pus no meu computador o nome de todas as crianças fora da escola e fui procurar uma a uma. Fizemos um censo nas ruas, fomos em algumas casas. Para cada um procuramos uma casa, um lar. Alguns, a própria família.

– O senhor acredita que realmente 97% das crianças brasileiras estejam na escola?

Cristovam – É claro que não vou desconfiar dessa estatística, mas ela para mim não serve muito. O que está se dizendo é que 97% estão matriculados. Não basta matricular. Tem que ver se está freqüentando e se está passando de ano. Tem que criar um indicador de freqüência, um monitoramento. Enquanto ficar fora da escola não for uma anomalia, nós temos que pedir desculpa pelas que estão fora. Se, no fim do governo, nós tivermos em vez de 97% de crianças na escola, 98%, em vez de comemorar nós vamos pedir desculpas pelos dois por cento.

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