Matemática, português, química, biologia e as demais disciplinas tradicionais não figuram mais soberanas no currículo das escolas brasileiras. Desde o início do ano, está em vigor a Lei 10.369/2003, que obriga a inserção da temática história e cultura afro-brasileira no currículo oficial, alterando a Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (LDB), de 1996. Com isso, os alunos das escolas públicas e particulares deverão estudar a história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil e sua participação na formação da sociedade nacional, com ênfase na contribuição nas áreas social, econômica e política do País. O assunto deverá ser abordado de forma interdisciplinar, em especial nas áreas de educação artística, literatura e história do Brasil.
Apesar de amparado por lei apenas desde 9 de janeiro, o assunto não é novidade para muitos colégios, principalmente da rede pública, onde a população é majoritariamente negra ou parda. Preocupados em resgatar a auto-estima de seus alunos e educar para a igualdade racial, professores desenvolvem projetos que valorizam a cultura afro-brasileira em várias escolas. A expectativa, entretanto, é que a discussão torne-se permanente e mais qualificada.
A gente nota que as escolas até têm essa preocupação, mas discutem o tema apenas em 13 de maio, por ocasião da Abolição da Escravatura, ou 20 de novembro, aniversário de Zumbi. Essa é a chance de valorizar a cultura negra a cada dia, relacionando-a à atualidade e às condições sociais do País , acredita Evandro Passos, professor da Escola de Educação Física da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que desenvolve projetos de educação para a igualdade racial em escolas. Para o educador, a nova lei é positiva, pois coloca o tema no centro das discussões. Mas Evandro Passos também ressalta que, conduzida de forma equivocada, a inclusão da temática pode ser ainda mais estigmatizante. Há dois riscos: o primeiro, é de que as escolas transformem o tema em disciplina, em que, em vez de discutir o assunto, os alunos serão obrigados a decorar datas, nomes, histórias sem sentido para eles.
Outro risco é de que cultura afro-brasileira seja reduzida a folclore e estudada sem seu contexto sociopolítico , avalia. Para evitar esses desvios, o professor defende que as secretarias estaduais e municipais da educação capacitem os professores com o auxílio do movimento negro, que já tem experiência em discutir o assunto nas escolas.


