A comunidade de Pombal, na Paraíba, sofre com um problema sério: a contaminação do Rio Piancó pelas galerias de esgoto a céu aberto que atravessam a cidade. Uma dessas galerias passa ao lado da Escola Estadual de Ensino Médio Monsenhor Vicente Freitas. O mau cheiro nas salas de aula é inevitável. A partir desse fato, alunos e professores se uniram para construir um projeto que apontasse soluções para o problema ambiental.
A proposta foi tão bem-sucedida que, em dois anos, o número de estudantes que abandonam a escola caiu pela metade. Segundo a supervisora pedagógica da escola, Dalva Dantas Fernandez, a repetência também diminuiu e os alunos comparecem com mais freqüência às aulas: um aumento de cerca de 10%, de 2001 para 2003. Essa experiência conquistou o primeiro lugar do Prêmio Grupo Ciência, que será entregue na próxima segunda-feira, 22, no Ministério da Educação, em Brasília.
Segundo Dalva Fernandez, no início, foi preciso convencer alguns educadores, que estavam reticentes em relação ao projeto. Passada essa fase, os professores arregaçaram as mangas. Seu primeiro passo foi pesquisar, em jornais e revistas, informações sobre a poluição dos rios, a qualidade da água e a reciclagem de lixo. Num segundo momento, professores e alunos visitaram as galerias de esgoto, o local onde elas desembocam no rio e até a nascente do Rio Piancó, que fica em outro município. Dessa nascente vem toda a água que as pessoas bebem em Pombal.
Os estudantes conheceram o processo de poluição do rio, suas causas e conseqüências. “Percebemos uma grande quantidade de lixo, que certamente está ali por causa dos moradores, que deveriam ser conscientizados de que, com o lixo, as crianças e até mesmo eles próprios são prejudicados”, escreveram as alunas Maria de Fátima, Sâmara e Suenia no relatório que fizeram logo após a primeira visita, realizada em dezembro de 2000.
Busca de soluções – Depois da tomada de consciência dos alunos, com as observações, visitas e entrevistas, o grupo sentiu necessidade de maior conhecimento sobre o assunto. A escola convidou especialistas para dar palestras sobre recursos hídricos e impactos ambientais. Também usou programas da TV Escola e exibiu vídeos que tratavam de temas relacionados ao assunto. Afinal, dali poderia sair a resposta para resolver o problema do esgoto em Pombal.
Enquanto estudavam a solução, os alunos resolveram conscientizar a comunidade. Programaram visitas às residências para explicar aos moradores os problemas causados pelo lixo jogado nas galerias de esgoto. Em casa, a conversa era a mesma. Os filhos levavam informações para a família e agiam como multiplicadores de conhecimento.
Além desse trabalho de ‘formiguinha’, a escola programou uma exposição na praça de Pombal, com as fotografias tiradas durante as atividades. O trabalho começou a ganhar as ruas e a mobilizar a comunidade. Os estudantes promoveram debates, criaram panfletos e deram entrevistas aos meios de comunicação. Com esse movimento todo, a escola ganhou de um piscicultor 10 mil alevinos de tilápias para soltar no rio Piancó. As tilápias contribuem para a despoluição da água e, quando adultas, servem como alimento.
Outras atividades surgiram dos encontros para reavaliação do projeto. Os estudantes do ensino médio tomaram a iniciativa, por exemplo, de repassar a experiência para as crianças do ensino fundamental de outras escolas da cidade. “De hoje em diante, vamos agir com o nosso rio de forma bem diferente, procurando não poluir”, disse Ivanilda Pereira de Sá, da 5ª série da Escola Decisão, depois da visita dos colegas da Escola Monsenhor Vicente Freitas.
Caminhada – O projeto Rio (Con)Vida encerrou as atividades de 2003 com a caminhada Alerta Pombal, para a entrega de um documento ao prefeito pedindo que o esgoto fosse tratado antes de ser jogado no rio. Diante da repercussão da caminhada, a Câmara de Vereadores convidou os estudantes a comparecerem à Câmara para explicar o projeto. A garotada aproveitou para pedir aos políticos que destinassem mais verbas para o saneamento e conseguiram que a prefeitura passasse a recolher o lixo com mais freqüência – o que evita que os moradores que vivem perto da galeria sintam-se tentados a se livrar do lixo jogando-o no canal do esgoto.
Com seu trabalho, professores e alunos conseguiram envolver toda a comunidade na sua luta. Mais de dez instituições e empresas privadas contribuíram com o projeto, entre bancos, Rotary Clube, Sebrae, órgãos dos governos estadual e municipal e movimentos sociais.
Para a supervisora Dalva Fernandez, as parcerias foram fundamentais para que o projeto tomasse a dimensão que alcançou. Hoje, a escola é visitada por outras, que querem conhecer a experiência e aplicá-la nas suas instituições. E os alunos, além de um melhor desempenho escolar, estão mais envolvidos com a comunidade.
Conteúdos trabalhados – O projeto envolveu sete disciplinas: biologia, química, matemática, história, geografia, língua portuguesa e artes. Em cada etapa, foram tratadas duas ou três matérias. Segundo a professora Aucilene Morais, de língua portuguesa, os alunos saíam para aulas de campo ao menos dois dias por mês. Sempre que podiam, os docentes procuravam trabalhar o conteúdo da série no próprio projeto, embora as aulas não se restringissem a ele.
Nas aulas de português, por exemplo, os estudantes trabalharam descrição, coerência, coesão e clareza no desenvolvimento do texto. Eles elaboraram relatórios, paródias, poemas, literatura de cordel e peças de teatro. Na sala de artes, criaram cartões postais e fizeram maquetes. Nas aulas de história, descobriram a importância do Rio Piancó no contexto político, histórico e social de Pombal e a origem do município. Em geografia, estudaram sobre vegetação das margens, desmatamento, relevo, erosão, hidrografia, localização e extensão do rio e atividades econômicas. As questões da água, do esgoto e suas conseqüências – como as doenças transmitidas por falta de saneamento – foram temas das aulas de biologia. Em química, a professora falou sobre matérias orgânicas em decomposição e resíduos sólidos. Em matemática, os estudantes exercitaram funções, equações logarítmicas, estatística, sistema de medidas, proporções e porcentagem.
Para a professora Aucilene, o projeto dinamizou as aulas. “Não se fica só no giz, no quadro-negro, na falação. Com o projeto, tudo fica mais dinâmico, e o aluno se sente mais capaz. Ele executa e o professor coordena”, diz ela. “No trabalho de campo, ele passa a desenvolver o conhecimento a partir de uma realidade que conhece”. Com a conquista do primeiro lugar do Prêmio Grupo Ciência, a Escola Estadual de Ensino Médio Monsenhor Vicente Freitas tem agora mais um incentivo para ampliar essa experiência.


