| Foto: Xando P. | |||
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“Se a gente deixa qualquer coisa na sala na hora do intervalo, quando a gente volta já não está mais lá. Ninguém é maluco de dar essa bobeira”, contou uma estudante de 15 anos, que cursa a 8ª série e preferiu não ser identificada. “Na minha sala já levaram quase tudo e eu, que trago celular para aula, não desgrudo da minha bolsa”, completou a adolescente.
A direção do colégio está ciente do problema. “Os nossos alunos já criaram o hábito de sempre carregar seu material. Isso porque se alguém esquece alguma coisa na sala é comum, após o intervalo, vir a queixa de que o objeto sumiu. E geralmente são objetos sem valor”, admitiu Alzenildes Trindade, vice-diretora do turno matutino da Hildete Lomanto.
Ela diz que, diante dessa situação, vai até a sala onde ocorreu o furto e conversa com os alunos. “Às vezes, eles devolvem, outras não. Mas nunca se identificam”, observou Alzenildes. A vice-diretora, ao revelar o problema, também se defende, alegando que esse tipo de ocorrência tomou conta de todas as escolas, sejam elas públicas ou particulares.
Não há registros
E ela tem razão. As ocorrências de furto dentro das salas de aula são as campeãs nas estatísticas da Polícia Civil que reúnem todos os registros referentes à violência dentro dos colégios de Salvador. Em 2002, foram contabilizados 176 casos de furtos em unidades escolares. Todos os outros tipos de ocorrências, como agressões físicas, depredações e roubos, juntos, somam 57 casos. Mas esses números exprimem a real quantidade de ocorrências nas salas de aula?
Não. Esse total é relativo e não demonstra a realidade. Afinal, são pouquíssimos os furtos que são reportados à polícia e às secretarias de educação. “A gente só comunica quando o furto é mais grave. Isso não quer dizer que não seja grave furtar, mas não há como registrar cada coisa que desaparece”, explicou Alzenildes Trindade.
Cultura de paz
Quem também está contabilizando esse tipo de ocorrência nas escolas é a Unesco – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. A instituição vai lançar, em abril, um relatório que reúne dados sobre violência em 58 escolas de Salvador. Nessas unidades, representantes da Unesco vêm desenvolvendo, há um ano, o programa Abrindo Espaços, que visa à diminuição dos relatos violentos em unidades de ensino.
Djalma Ferreira, coordenador da iniciativa, diz que a última pesquisa realizada pela Unesco, que serviu de suporte para o programa, contempla o problema do furto. Cerca de 25% dos alunos e 43% dos professores e funcionários das escolas visitadas pelos pesquisadores disseram ter conhecimento dessa situação.
“Neste primeiro ano de trabalho, vimos que essa é uma realidade comum nas escolas. Os alunos furtam qualquer coisa porque estão inseridos numa cultura de levar vantagem em tudo, da falta de limites e respeito. O que fazemos no projeto é inseri-los numa cultura de paz”, explicou Ferreira.
Nos colégios que fazem parte do programa, ele conta que os índices de violência diminuíram significativamente. Quem confirma isso é Edna Santos, vice-diretora do Centro Educacional Luís Pinto de Carvalho, em São Caetano. “Esses casos costumavam acontecer na escola, mas hoje praticamente todos os alunos acreditam que isso seja uma violência. Envolvê-los em atividades recreativas que trazem uma mensagem de cidadania foi a melhor solução”, contou.



