Analfabetismo cria fosso entre municípios mineiros

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A divulgação do relatório Situação da Adolescência Brasileira , do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que identificou a existência, no Brasil, de 1,3 milhões de adolescentes de 12 a 17 anos analfabetos, revelou também a profunda desigualdade que marca a educação mineira. Os dados sobre analfabetismo, presença na escola e repetência indicam que há municípios que caminham em direção à garantia dos direitos dos adolescentes, enquanto outros colocam em risco o futuro de sua população. O contraste torna evidente a necessidade de investimentos para a redução do abismo social que permite a convivência, em um mesmo estado, de índices que se aproximam tanto de países europeus quanto de países africanos. A balança, entretanto, pesa para os últimos.

Em um dos extremos figura Douradoquara, cidade com 1.785 habitantes no Alto Paranaíba, a 534 quilômetros de Belo Horizonte. Rigorosamente todos os 200 adolescentes da cidade freqüentam a única escola pública do município, que parte do dia funciona mantida pela prefeitura, com o  oferecimento de 1ª a 8ª séries, e na outra parte é mantida pelo Estado, para abrigar os alunos do ensino médio. O município não tem nenhum cidadão nessa faixa etária analfabeto. Além de ser a cidade que melhor trata seus adolescentes em Minas Gerais, ocupa a 14ª posição quando a comparação é com o País como um todo.

No outro extremo, figura São João das Missões, a 663 quilômetros de Belo Horizonte, no Norte do Estado. Dos 10.230 moradores da cidade, 1.605 têm entre 12 e 17 anos. Destes, 267 são analfabetos e cerca de 30% não freqüentam a escola. Na faixa dos 15 a 17 anos, os adolescentes deveriam estar cursando o ensino médio (antigo 2º grau). Mas, quando não estão fora da escola, os adolescentes de São João das Missões estão ainda matriculados no ensino fundamental (antigo 1º grau), em virtude dos altos índices de repetência. Apenas 5,3% deles estão na faixa correta de escolarização.

De modo geral, o atraso na escolarização dos adolescentes é um dos entraves da educação mineira. Em apenas 17 dos 853 municípios mineiros, mais de 50% dos jovens de 15 a 17 anos estão cursando o ensino médio. O melhor índice é de Bambuí, a 262 quilômetros ao sudoeste da capital, onde 76,3% dos adolescentes estão na relação correta entre faixa etária e escolarização. Em 15 municípios mineiros, não há um único adolescente matriculado no ensino médio na idade adequada.

O desafio dos gestores municipais é analisar os dados do documento do Unicef e identificar as causas das distorções. Os municípios com os maiores índices de analfabetismo entre adolescentes, São João das Missões e Bertópolis, por exemplo, são cidades onde grande parte da população é das nações indígenas Xakriabá e Maxakali, que apenas há três anos conquistaram o direito de freqüentar escolas indígenas dentro das reservas. Ainda assim, as escolas, dirigidas pelos próprios índios, somente oferecem a metade do ensino fundamental de 1ª a 4ª séries, deixando uma grande lacuna.

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