A professora aposentada Maria Andrade Ribeiro, 74, é personagem de uma saga de desafio, coragem e determinação. Para realizar o principal sonho de sua vida, que era ser professora, profissão respeitada na época em que ela era criança, venceu desafios como o de começar a trabalhar no início da adolescência só para comprar livros e ter que passar muitas horas da noite estudando à luz de lamparina.
Hoje, aposentada na profissão, ela garante que se sente realizada e só não cursou faculdade porque enfrentou problemas de saúde na família e também tem uma doença nas articulações das pernas que a impedem de caminhar sozinha. Para a aposentada, querer é poder. “Só não consegue as coisas quem não quer e não tem coragem”, diz ela.
A história da professora começou aos 5 anos de idade, quando foi alfabetizada pela mãe, numa época em que poucas pessoas tinham acesso à escola e aprendiam a ler. “A minha mãe contou para o meu padrinho que já sabia ler. Ele ficou admirado, me colocou no colo e, acariciando meus cabelos disse que eu seria uma grande professora”, contou.
As palavras do padrinho ficaram gravadas na cabeça da menina do interior, filha de um agricultor e de uma dona de casa que moravam no Município de Careiro da Várzea (a 29 quilômetros de Manaus), numa localidade conhecida como Curari, e que tinham poucos recursos financeiros. Segundo a aposentada, estudo naquela época era para quem tinha dinheiro para estudar em Manaus.
SEM DINHEIRO
O desejo de Maria se tornar professora esbarrou na falta de recursos da família. Apesar de saber ler, não tinha livros, vivia pedindo revistas, jornais e qualquer coisa para ler das pessoas que conhecia. Muitas vezes, andando pelos caminhos dos sítios vizinhos, encontrava folhas de livros ou de jornais. Cuidadosamente, ela juntava e lavava para casa e lia.
“Quando eu não conseguia livros ou revistas para ler, lia bulas de remédios”, conta. Quando o pai vinha para Manaus ela pedia para que ele lhe levasse exemplares do “Jornal do Commercio” e do “Diário da Tarde”. Depois passou a ler A CRÍTICA, o que faz até hoje, que ela considera o melhor. “Eu queria saber de tudo. A história da guerra, a vida dos artistas e políticos”, relata.
Apesar das dificuldades, ela mantinha o sonho de ser professora. Estudar na capital era tudo o que ela queria. Aos 12 anos de idade perdeu o pai e as esperanças diminuíram, mas não acabaram. A mãe conseguiu interná-la em uma escola pública, a Escola Premonitora do Bom Jesus, localizada na rua Urucará, bairro da Cachoeirinha, Zona Centro-Sul, administrada pelo então juiz de Menores André Araújo.
De acordo com a aposentada, o estabelecimento era muito pobre, mas foi ali que aprendeu corte e costura, bordado, pintura em tecido e outras prendas domésticas que logo lhe serviram de profissão para conseguir dinheiro para comprar seus livros. Ela ainda recorda as missas de domingo, quando André Araújo e a família iam à missa na capela da escola. “Para nós, era a maior alegria quando a gente via o jipe dele chegando. A gente fazia uma festa”, recorda.
FILHOS
Maria só conseguiu estudar até a 4ª série primária (hoje ensino fundamental) e voltou para a casa da mãe no interior. Logo começou a trabalhar como costureira, conseguindo assim dinheiro para compara livros, jornais e revistas.
Aos 19 anos casou-se com um pescador, teve filhos, ao todo nove. Passa o dia cuidando da casa e, à noite, quando todos já estavam dormindo, ela aproveitava para estudar à luz da lamparina.
“Uma vez eu dormi lendo e a lamparina virou sobre meu corpo, que ficou molhado de querosene. A minha sorte foi que a chama da lamparina apagou. Por pouco não morri queimada”, declara. Ela também ouvia a rádio Voz da Baricéia, que mais tarde passou ser a Rádio Baré.


