Eles vão para a 5º série sem entender o que lêem e com profundas deficiências em matemática. Exatos 59% dos alunos brasileiros não foram alfabetizados direito e só compreendem frases curtas e simples. Pelo menos 12,5% são incapazes de entender o enunciado de um problema e de resolver operações básicas de soma ou subtração.
Essa triste realidade ficou escondida por anos nas entrelinhas do resultado do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) – que mede o conhecimento de português e matemática de alunos da 4º e 8º séries do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio. Até ontem, o Ministério da Educação se limitava a mostrar a média das provas. O resultado estava claramente aquém do desejado, porque a maioria não acertava sequer 50% das questões. Mas faltava classificar o grau de conhecimento desses estudantes. A nova leitura – divulgada ontem pelo ministro da Educação, Cristovam Buarque – é assustadora.
22,2% dos estudantes da 4º série estão no pior nível de conhecimento possível em português. São praticamente analfabetos e não conseguiram responder à prova, em 2001, simplesmente por não entendê-la. Na 8º série, a situação melhora: apenas 4,8% estão no mesmo patamar. Conseqüência do aumento da qualidade de ensino? De jeito nenhum. ”O problema é que antes de chegar à 8º série, boa parte dos alunos já desistiu da escola”, lamenta Maria José Feres, secretária de Ensino Fundamental do MEC.
”A situação da nossa educação é dramática”, analisa Cristovam. ”Nem durante a escravidão havia tanta desigualdade educacional no Brasil. Esta é a maior tragédia brasileira.” Segundo o novo estudo do MEC, nenhum estado brasileiro teve média adequada nas três séries avaliadas pelo Saeb. As notas ficam entre crítica (leitura truncada e dificuldade para resolver problemas) e intermediária (compreensão de textos simples, mas não de textos jornalísticos ou informações contidas em tabelas). Ou seja, no fim das contas os alunos brasileiros não aprenderam o suficiente para chegar às série em que estão matriculados.
O desempenho dos estudantes brasileiros no Saeb é medíocre e – para piorar a situação – tem caído nos últimos seis anos. Em 1995, a média de português dos alunos em condições de prestar vestibular era de 290 pontos (a nota máxima é 425). Em 2001, o resultado caiu quase 30 pontos. O governo anterior alegou que a queda era esperada porque um maior número de carentes fizeram a prova. A nova equipe do MEC não aceita a desculpa. ”Estudante pobre também precisa aprender”, defende Maria Feres. ”O sistema educacional brasileiro tem de se adaptar para atender às necessidades desse grupo.”
Atualmente, a escola brasileira é preparada para receber crianças e adolescentes com certa bagagem cultural – adquirida em livros, gibis, revistas, televisão ou internet. Ao professor, cabe apresentar novos conhecimentos e maneiras de interpretar a realidade. Mas meninos e meninas das classes D e E – de menor poder aquisitivo – exigem mais esforço didático. A maioria nunca viu um jornal de perto e tem no livro didático a única fonte de leitura. Despertar o interesse deles para a educação e preencher as lacunas cognitivas que tiveram durante a infância é um desafio e tanto para os professores.
Sem curso superior
No entanto, a pobreza não é a única responsável pela falta de conhecimento da meninada do ensino básico. Segundo o diretor do Saeb, Carlos Henrique Ferreira, fatores como o salário e a formação dos professores também interferem na qualidade da educação e, conseqüentemente, no rendimento escolar de meninos e meninas. Prova disso é que 64% dos alunos de 4º série com desempenho crítico em português estudaram com docentes sem curso superior. Entre aqueles com desempenho adequado, 65% tiveram aulas com educadores devidamente graduados em Pedagogia ou alguma Licenciatura.
A escolaridade dos pais é outro motivo para a variação das notas. Os estudantes com desempenho muito crítico normalmente são criados por adultos que nunca estudaram ou cursaram até a 4º série. Vale a pena lembrar que uma criança brasileira entre 7 e 14 anos filha de mãe com baixa escolaridade tem onze vezes menos chances de freqüentar a escola que uma criança filha de mãe com alta escolaridade. O dado é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
À lista de causas para o mau desempenho dos alunos soma-se ainda o trabalho infantil e a repetência. Valdson Araújo, 15 anos, tem conhecimento de causa no assunto. Aluno do Centro de Ensino Fundamental 01, do Cruzeiro Velho, ele repetiu de ano e quase não tem tempo para estudar – já que ajuda a cuidar da casa. Resultado? Tem dificuldades para aprender a danada da matemática. ”A minha mãe me ajuda, mas ela também tem dúvidas porque só estudou até a 5º série”, conta o menino, que participará da prova da 4º série do Saeb este ano.
Propostas do ministro
O ministro Cristovam Buarque tem sempre uma nova proposta na manga. Somente ontem, ele falou de cinco novos projetos para a educação. Um deles visa à criação de uma bolsa-pedagógica para crianças menores de quatro anos. Ela viria com livrinhos, brinquedos e outros utensílios capazes de despertar o intelecto da criança. Cristovam também quer colocar um livro em cada cesta básica distribuída no país. Só não disse como. ”Dinheiro eu sei que tem”, afirmou. ”Só falta saber se ele será destinado à educação ou a outros setores.”
Como está Brasília
O Distrito Federal perdeu com a releitura dos dados do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb). Até ontem, a capital podia se vangloriar de ter a maior média do país em português e matemática. Agora, a situação não é tão confortável. Apesar do bom desempenho geral, os alunos do DF estão em um patamar intermediário de conhecimento. Eles desenvolveram habilidades de leitura, mas ainda estão aquém do desejado. Em relação à matemática, falta lógica para resolver problemas com mais de duas operações.
Os alunos de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul estão na mesma situação do DF. São os melhores entre os piores. Nas demais unidades da federação, o nível de conhecimento dos alunos da 4ªsérie é considerado crítico.
Em relação às regiões do país, o Nordeste é a que mais sofre com problemas de aprendizagem. Lá, 33% dos estudantes da 4ªsérie situam-se no nível muito crítico em português. Apenas 2% dos alunos têm habilidades de leitura compatíveis com a série. No Sul, há o menor índice de alunos em situação muito crítica: 13%.
O Ministério da Educação começou a traçar medidas para melhorar o conhecimento dos alunos do ensino básico. A principal é investir pesado na formação de professores. Serão destinados R$ 122 milhões do Fundo Nacional do Desenvolvimento da Escola (FNDE) e do Fundescola para a formação continuada de docentes de 5 mil municípios brasileiros.
Além disso, pretende-se criar um piso nacional para o salário do professor. A intenção do ministro da Educação, Cristovam Buarque, é o de vincular o aumento dos vencimentos do poder executivo ao aumento dos vencimentos dos educadores. Assim, cada vez que deputados e vereadores aumentarem os próprios salários, os professores também seriam indiretamente beneficiados. Se a proposta será levada adiante, é outra história.
O governo também pensa em criar uma bolsa para os alunos dos cursos noturnos. Motivo? 76% dos estudantes com pior desempenho no 3º ano do ensino médio estudam nesse horário porque precisam trabalhar. Com o benefício, espera-se deixá-los livres para se dedicar integralmente aos estudos. Também pretende-se diminuir a evasão escolar nessas séries. Hoje, apenas 40% concluem o ensino médio.


