Sonia Madi, coordenadora pedagógica do Programa Escrevendo o Futuro, e Tathyane Tudda, gerente do Programa, falaram das mudanças que ocorrerão com a nova olimpíada. Entre elas está a participação de alunos das sétimas e oitavas séries do ensino fundamental e dos segundos e terceiros anos do ensino médio. Segundo Sônia, a parceria entre o governo federal por meio do MEC, a Fundação Itaú Social e o Cenpec, vai fazer o programa “estourar” pelo Brasil.
Com a Olimpíada da Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro, quais são as principais mudanças que o programa terá a partir de 2008?
Sônia Madi – A principal mudança é que passaremos a atender alunos de outras séries, ampliando a abrangência do Programa. Agora, ele se estende para sétimas, oitavas e para o ensino médio. Com isso tivemos que fazer uma adaptação nos materiais utilizados, antes dirigidos apenas às quartas e quintas séries. Os materiais passam a ter contornos diferentes e textos com um nível maior de aprofundamento. Em 2007, fizemos visitas de acompanhamento e avaliação em sessenta escolas de todas as regiões do país que participam do programa. As observações que fizemos nesse acompanhamento estão sendo utilizadas no aperfeiçoamento desses materiais também, já que pudemos observar na prática como são aproveitadas e utilizadas as orientações passadas aos professores pelos nossos materiais. Mas a principal mudança foi a ampliação para outras séries.
Outra coisa que aumenta é o número de semifinalistas que participam das oficinas. O Prêmio Escrevendo o Futuro, quando realizava as sete oficinas regionais, reunia 180 alunos e 180 professores representantes de todas as regiões do país. Agora serão 500 alunos e 500 professores. Durante as oficinas, os alunos de quarta e quinta série continuarão aprimorando os textos escritos, como foi feito nas edições anteriores. Já os estudantes das sétimas, oitavas e segundos e terceiros anos do ensino médio terão que escrever novos textos, diferentes daqueles com o quais se inscreveram. Eles passarão por um desafio maior. Nós apresentaremos uma nova situação de produção e eles produzirão os textos durante as oficinas.
Tathyane Tudda – As oficinas para os estudantes de quarta e quinta séries continuarão da mesma forma, acontecendo em cidades-pólo, conforme a região onde vive o estudante. Já os estudantes dos outros níveis terão uma oficina centralizada em São Paulo com alunos de todos os Estados. Outro desafio vai ser o trabalho com adolescentes. Tínhamos uma boa experiência em lidar com crianças, agora serão adolescentes, que têm outros interesses e comportamentos.
Qual será, em números, essa abrangência da Olimpíada? O que se almeja?
Tathyane Tudda – Vamos sair de um patamar que atingia 10% das escolas públicas brasileiras para chegar a 50% delas, ou seja, 80 mil, já que, agora, incluímos as sétimas e oitavas séries do ensino fundamental e as segundas e terceiras do ensino médio. Serão 207 mil professores participando com mais de seis milhões de alunos. Na última edição do Prêmio Escrevendo o Futuro atingimos 33,5 mil professores, aproximadamente. Este é um projeto com uma grande estratégia de mobilização. Mobilizar 33 mil ou 207 mil professores é fazer com que muita gente tenha contato com esse material e seja atingido por ele. Há uma enorme probabilidade de outros, que não estejam sendo atingidos diretamente pelo programa, serem atingidos indiretamente. Isso dá uma outra escala. Com o MEC essa estratégia de mobilização aumenta.
Como vai funcionar a relação de vocês com o Ministério da Educação?
Sonia Madi – Há um fórum permanente de discussões entre o MEC, a Fundação Itaú Social e a equipe do Cenpec na condução do projeto. As propostas, as mudanças e os encaminhamentos são realizados sempre em comum acordo. Pela própria dinâmica de um projeto dessa dimensão é necessário que as decisões sejam sempre resultante de acordos.
Como é feita a revisão e a produção dos materiais utilizados na Olimpíada, levando-se em conta as especificidades dos professores no ensino fundamental e no ensino médio?
Sonia Madi – Ainda estamos trabalhando nos materiais que vamos utilizar. É um processo difícil. Temos a experiência de três edições do programa trabalhando com professores de quarta e quinta séries. Isso gerou uma convivência muito próxima com esses professores. Já tínhamos encontrado o tom. Queremos que o novo grupo que participará tenham acesso a um material onde a teoria que fundamenta a proposta do Escrevendo esteja presente, mas sem tornar o material pouco comunicativo. Os materiais passarão a ser mais diretos, sintéticos e objetivos. Queremos uma edição que comunique mais diretamente.
E serão distintos para cada grupo de professores?
Sonia Madi – Sim. Nas quartas e quintas vamos trabalhar com poesia; nas sétimas e oitavas, textos de memórias; nos segundos e terceiros com artigos de opinião. Essa mudança é importante. Antes o professor escolhia o gênero entre os três propostos pelo Programa, agora fica definido um único gênero por categoria. É determinado.
Isso demandou alguma pesquisa específica?
Sonia Madi – Sim, tivemos que ver quais são os conteúdos próprios de cada série. Por exemplo, o fascículo das edições anteriores sobre artigo de opinião era dirigido a alunos de quartas e quintas séries. Na nova edição, foi preciso ajustar o fascículo para que seu conteúdo coincidisse com com conteúdos próprios do currículo de ensino médio. Nessa etapa da educação básica, espera-se que o aluno aprenda a argumentar, domine processos de reflexão e de raciocínio lógico para produzir textos argumentativos coerentes e convincentes. A seqüência didática anterior já propunha um trabalho nesse sentido, mas nesta aprofundamos alguns aspectos, como o uso de argumentos de diferentes tipos e a análise de diferentes vozes que circulam no artigo de opinião. Isso não muda o encaminhamento das oficinas, os passos da seqüência didática. É preciso que os alunos saibam argumentar e isso aumenta a exigência. Seremos mais exigentes.
Os canais de comunicação do programa com os professores também serão modificados?
Sonia Madi – Haverá alteração no periódico Na Ponta do Lápis e, provavelmente, na Comunidade Virtual Escrevendo o Futuro. Vamos ter que fazer adaptações em todo o projeto para nos comunicarmos melhor com toda essa rede. Temos clareza do que é um trabalho de formação. O prêmio é uma estratégia para mobilizar as escolas e oferecer uma oportunidade de formação. O que queremos é que os professores sigam as orientações e observem que o resultado nos textos dos alunos é melhor do que quando eles trabalham sem uma seqüência didática. Queremos que eles percebam isso e passem a incorporar essa forma de trabalho para ensinar outros gêneros. A preparação para o concurso é apenas um passo do trabalho.
Que questões chamam atenção em quase sete anos de programa?
Sonia Madi – Sempre pensamos o que é que esses professores e alunos têm aprendido. Temos sempre a oportunidade de conversar com eles e falar sobre os textos que escrevem e saber quem são esses professores que se empenham diferentemente na tarefa de ensinar. Quem são esses professores premiados e como podemos divulgar seu trabalho para servir de modelo a outros professores. Mesmo com a condição difícil que temos hoje na escola pública, ainda assim temos professores que enfrentam todos obstáculos e produzem diferentemente. Onde eles encontram esta força, esta vitalidade para fazer diferente do que fazem normalmente? Há professores que fazem diferença na vida dos alunos porque sabem que muito depende do jeito de ensinar. Por isso queremos contribuir para que esses professores possam estar focalizados e digam aos outros: “não é verdade que tudo está tão ruim”. É preciso resgatar a crença de que é possível recuperar a qualidade de ensino na escola pública.
E qual a expectativa para o programa nessa nova fase, transformado numa Olimpíada?
Sonia Madi – Acho que vamos estourar. O poder de penetração do MEC nas cidades e nas escolas é enorme. Depois, entramos como um projeto de governo, mas que já tem uma credibilidade que vem das próprias escolas e professores. Em algumas reuniões que tivemos com técnicos de secretarias de Educação, antes de dizermos qualquer coisa, eles já nos diziam que acreditavam no projeto pelo que ouviam dos professores de suas regiões. Quer dizer, houve uma junção muito feliz e produtiva que é essa penetração do MEC com a credibilidade que o Escrevendo o Futuro já ganhou pelas quatro edições já realizadas.
Estamos mostrando ao professor um novo jeito de trabalhar com a produção de texto. E nisso eu tenho esperança de que, sendo bombardeado por essa rede de conhecimento que é o programa hoje, teremos mudanças. É um concurso. Mas o concurso é apenas uma estratégia de mobilização que abre uma oportunidade de formação. O que queremos que aconteça? Que as escolas e professores se mobilizem. Que os professores estudem os cadernos de orientação e trabalhem de uma forma diferente; que conheçam a seqüência didática; que realizem as oficinas de escrita e percebam a importância das atividades diferenciadas e motivadoras; que o resultado desperte o interesse dos alunos e melhore o nível dos textos produzidos; que fique evidente a evolução dos alunos na criação do texto. Com isso o professor passa a incorporar a metodologia no ensino de outro gênero de texto. Este é o nosso grande plano. Achamos que é uma oportunidade de os professores experimentarem outro jeito de trabalhar.
Mudanças no Processo de Seleção
A gerente do Programa Escrevendo o Futuro, Tathyane Tudda, explicou que a mudança começa pela adesão à Olimpíada. Ela será assinada pelos secretários municipais e estaduais de educação e pelo prefeito. Feita essa adesão, as escolas poderão se inscrever e o processo de escolha do melhor texto em cada escola continuará o mesmo. A novidade é que haverá uma nova etapa depois da escolha do texto na escola. “Antes, o texto saía da escola e ia para a etapa estadual, coordenada pelas Undimes, com apoio do Cenpec. Por causa do grande aumento do número de textos, criamos uma etapa municipal intermediária, antes da estadual”, explica Tathyane
As secretarias municipais é que organizarão comissões para a escolha dos melhores textos daquele município. O Cenpec está confeccionando um guia para orientar a organização dessa comissão local, com representantes da rede municipal e estadual na cidade. Caso a secretaria municipal de educação e a prefeitura não tenham aderido à Olimpíada, as escolas municipais da cidade não poderão participar, só as estaduais. Nesse caso, o órgão regional de ensino ficará responsável por formar a comissão julgadora local. Mesmo que o órgão seja responsável por vários municípios, ele terá que formar uma comissão para cada cidade.


