Investir em educação nos primeiros anos de vida é retorno social garantido

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A atenção a crianças com até seis anos de vida, quem diria, influencia a vida do cidadão no futuro. Crianças que freqüentaram creches têm melhor desempenho no mercado de trabalho, menos chances de entrar na criminalidade e até deixam de figurar nas estatísticas de gravidez na adolescência. A análise faz parte do estudo “Educação da Primeira Infância”, divulgado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Menos de 10% das crianças brasileiras freqüentam creches. De acordo com o James Heckman, colaborador da pesquisa, a educação nesta fase da vida constitui o melhor investimento social existente. “Quanto mais baixa for a idade, mais alto é o retorno recebido pelo indivíduo e pela sociedade”, apresenta o estudo. O levantamento foi coordenado pelo economista da FGV Marcelo Neri, com base no Censo Populacional e na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, ambos do IBGE. “A maioria dos países está subinvestindo em educação infantil”, afirmou James Heckman, prêmio Nobel de Economia no ano de 2000, na apresentação do estudo.

O economista apresenta números mostrando que a maior parte das defasagens entre o desempenho de ricos e pobres em testes de matemática, por exemplo, já existe aos seis anos de idade, antes da primeira série do ensino fundamental. Testes revelam apenas uma pequena piora em relação às diferenças que já existiam aos seis anos de idade. “O principal fator da pobreza, e tenho certeza de que isto deve ser ainda mais verdadeiro no caso do Brasil, são as diferenças nos ambientes familiares e a influência disto no desempenho educacional”, disse Heckman.

Além da influência do ensino na formação dos cidadãos no futuro, as creches também fazem diferença no presente. Uma mãe que pode deixar o filho pequeno na escola pode trabalhar sem preocupações e garantir seu espaço na carreira. “O ensino das crianças é o mais importante, mas não podemos deixar de lado a contribuição que as creches trazem para a igualdade de gêneros”, afirma Juçara Dutra Vieira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). “Nada menos que 82% dos servidores ligados à CNTE são mulheres. Muitas vezes elas não têm com quem deixar seus filhos e acabam sacrificando suas carreiras e, conseqüentemente, trazem menos dinheiro para casa.”

Pesquisa internacional – Uma das pesquisas apresentadas pelo Nobel, o chamado Estudo Pré- Escolar de Perry, nome de uma escola fundamental no estado de Michigan, nos Estados Unidos, acompanhou ao longo de várias décadas um grupo de alunos negros de baixa renda que recebeu, entre três e sete anos, uma assistência educacional intensiva fora da escola, incluindo visitas às famílias.

Décadas mais tarde, as crianças deste programa, comparadas com um grupo com mesmas características, mas que não teve assistência, apresentava melhor resultado em diversos indicadores educacionais, sociais e econômicos. Por exemplo, 29% ganhavam mais do que US$ 2 mil — cerca de R$ 4,4 mil — por mês. E 36% tinham casa própria, comparado com 7% e 13%, respectivamente, para as que não tiveram acesso ao programa. Praticamente metade do grupo do programa colocou-se entre os 10% com melhor desempenho na escola aos 14 anos, comparado com apenas 15% no grupo sem programa. E a probabilidade de ir para prisão do grupo que participou do projeto foi metade daquela que ficou de fora.

Aposta para o futuro – Atualmente, 11,31% das crianças com até três anos de idade do Distrito Federal estão em creches, dois pontos a mais que a média nacional. O índice coloca o DF em quinto lugar no ranking brasileiro de freqüência escolar na primeira infância. Em primeiro lugar está o Rio Grande do Norte, com 14,67%. O problema é que no DF, a imensa maioria das crianças está em creches pagas. Apenas 2,38% das mães conseguem matricular seus filhos com menos de três anos em escolas do governo ou de associações comunitárias. Entre quatro e seis anos, 65% das crianças estão em creches – 31% estão em instituições públicas.

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