Dois anos depois de instalados os primeiros computadores do Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo) do Ministério da Educação (MEC) em escolas indígenas, a rede de comunicação entre aldeias de diferentes estados já alerta autoridades brasileiras sobre problemas na fronteira.
Em locais em geral afastados das cidades e de difícil acesso, onde transporte e telefone são recursos escassos, a internet facilita a troca de informação. E essa integração já se mostrou importante. No final do ano passado, um e-mail enviado por índios da reserva Ashaninka, no Acre, ao MEC e reencaminhado ao Ministério da Justiça, alertou as autoridades brasileiras sobre a exploração irregular de madeira na Amazônia por madeireiros peruanos.
Escolas indígenas de sete estados (Bahia, Ceará, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Pernambuco e Santa Catarina) começam a desenvolver projetos com o uso da informática, na maioria das vezes com a ajuda de organizações não-governamentais.
Uma idéia, por exemplo, é criar uma rede de intercâmbio de comunicação entre aldeias do Acre, de Parati (RJ) e da divisa de Minas Gerais com a Bahia para planejar a preservação da natureza em reservas localizadas em áreas de mata atlântica, cerrado e floresta.
Os computadores chegaram até os índios da região em novembro de 2003, por meio do trabalho desenvolvido pela ONG Centro de Democratização à Informática (CDI). Apenas um dos quatro micros tem internet. “É uma coisa nova e estamos em processo de capacitação’’, diz Isaac Yashaninka, professor de 400 índios do Rio Amônia, no município de Marechal Taumaturgo, a 800 quilômetros da capital, Rio Branco. “Nossa intenção é usar esse meio de comunicação para denunciar invasões da terra indígena que fica na fronteira e ter contato com outras aldeias daqui da região e do Brasil.’’
Índios xacriabás – Os índios da reserva indígena de Xakriabá, no norte de Minas Gerais, discutem com o Governo Federal a liberação de verba para a preservação do cerrado na região. Por e-mail, também buscam informar-se sobre a experiência do povo Bakairi, no Mato Grosso, que já tem escolas de ensino médio nas aldeias.
Na Escola Estadual Indígena Bokimuju, em São João das Missões, em Minas Gerais, os computadores do ProInfo foram instalados no ano passado. “Um técnico abriu um e-mail para mim e fui fuçando, de curioso, até aprender’’, afirma o diretor José Nunes de Oliveira.
Os dois mil alunos estão vendo a máquina pela primeira vez e, a partir deste ano, começarão a desenvolver trabalhos no laboratório. “Eles têm a curiosidade natural pela coisa nova’’, diz o diretor.
Antes da chegada do computador, o único meio de comunicação na reserva era o orelhão em frente à escola. Agora, a internet permite que o diretor e lideranças comunitárias se comuniquem por meio de e-mail com funcionários da Secretaria estadual de Educação, com o MEC e com organizações não-governamentais. “Os índios não têm medo de explorar, nem de cometer erros. São como crianças, e têm uma grande autonomia intelectual que lhes permite observar e experimentar tudo’’, comenta Kleber Gesteira, coordenador-geral de Educação Escolar Indígena do MEC. Segundo ele, a linguagem iconográfica da internet também ajuda os indígenas a se interessarem pela rede mundial de computadores.


