Porto Alegre – Um dos temas em debate no Encontro Internacional pela Paz e contra a Guerra é a formação de uma cultura de paz no mundo, capaz de barrar a cultura de guerra que se estabeleceu com a globalização neoliberal. Para Sérgio Haddad, relator nacional para o Direito à Educação, da Plataforma Brasileira de Direitos Humanos, tal cultura só pode ser criada por meio de processos educativos amplos, gerados não apenas dentro das escolas, mas na sociedade como um todo.
Numa entrevista exclusiva concedida à Agencia Carta Maior, Haddad abordou a polêmica sobre a real capacidade do sistema escolar de transformar a sociedade. “Será que as escolas têm importância para transformar a sociedade ou a sociedade é que constrói o tipo de escola que quer?”, questiona. Haddad também afirma que, para a construção de uma cultura de paz, é preciso que os educadores não abandonem seu papel de atores políticos e sociais e que a valorização do professor está diretamente relacionada ao tipo de sociedade que queremos construir.
Leia abaixo os principais trechos dessa conversa.
Agência Carta Maior – Como a educação pode ser uma ferramenta na construção de uma cultura de paz no mundo?
Sérgio Haddad – Qualquer processo de transformação cultural e social passa por processos educativos. Se olharmos a própria experiência do Fórum Social Mundial, trata-se de uma experiência educativa no seu sentido formal. Formal no sentido de formação, mesmo que não escolar. Apesar de achar que a cultura de paz passa pelo sistema escolar, este é um processo educativo no sentido mais amplo, através dos meios de comunicação de massa, dos sindicatos, das comunidades. Quando falamos em educação, pensamos em transmissão de conhecimento. Mas a simples emissão de informação não obrigatoriamente repercute em educação do outro lado. É preciso prática social. O Fórum é um pouco isso, um espaço onde as pessoas podem exercitar, praticar uma cultura de paz, produzir conhecimento a partir desta experiência. E isso pode ser feito em várias instâncias.
Um dos trabalhos mais bonitos em educação para a paz foi realizado em Lima, no Peru, na época em que havia uma luta dentro da sociedade peruana, entre a guerrilha e a reação militar. A ação da sociedade civil foi a de construir uma cultura de paz a partir das escolas. Isso tem um sentido muito importante porque os professores foram uma das principais vítimas do senderismo e dos militares, porque eram as grandes lideranças, que tinham capacidade de influir nas zonas rurais. Trabalhar com os professores na construção de uma cultura de paz nas escolas foi muito importante no processo de reconstrução de uma sociedade arrasada pela violência em ambos os lados do conflito.
CM – No Brasil não é difícil criar uma cultura de paz, já que vivemos apenas uma guerra velada, não declarada oficialmente?
Haddad – Este é um eterno dilema para os educadores. Um dilema de natureza mais ampla, política. Será que as escolas têm importância para transformar a sociedade ou a sociedade é que constrói o tipo de escola que quer? Os educadores sempre se dividiram entre essas duas hipóteses. Há uma teoria sociológica que discute a escola sob a lógica do reprodutivismo: a escola é mais conservadora do que transformadora da sociedade. E há outros que a vêem como um elemento importante de transformação. Paulo Freire é uma das pessoas que acreditam na educação como elemento transformador.
Mas tanto um lado quanto o outro sabem que a escola, assim como qualquer instituição da sociedade, está em disputa. É um espaço de luta de interesses. Numa sociedade conservadora, pode haver um professor progressista que produza impactos. Mas isso não significa que uma escola progressista numa sociedade conservadora transforme esta sociedade. Acho que é um passo importante, mas limitado. As ações não se dão só no sentido de mudar a consciência das pessoas e elas saírem de lá iluminadas e prontas para mudar a realidade. Isso é um erro sob o ponto de vista da educação, porque você disputa a formação com uma série de espaços de informação e de práticas sociais da família e da comunidade.
Talvez o mais bonito da história da educação seja o fato dela ter um efeito, mas de não poder ser planejada totalmente. Você não domina o ser humano. O impacto de uma família conservadora sobre seus filhos pode ser completamente o oposto. Da mesma forma o produto de uma sociedade conservadora podem ser os movimentos libertários. O ser humano reage a tudo isso. A questão é como a ação educativa pode estar a serviço desta mudança, já que também é limitada do ponto de vista das diversas instâncias.
CM – Como educar os educadores para a transformação social?
Haddad – Sob o ponto de vista do sistema, os parâmetros curriculares nacionais tratam do tema dos direitos humanos e da questão da paz como conteúdo. Mas a formação do educador não está descolada de sua própria vivência. O educador nunca pode abrir mão de ser um ator político, porque não existe educação neutra. Qualquer ação educativa tem uma razão política de ser. O problema é que, nos últimos tempos, o educador vem passando por um processo de perda de status como figura pública e de violência contra sua condição de trabalhador. Isso influencia sua forma de pensar a paz numa sociedade que sempre valorizou a figura do professor e hoje a considera apenas retoricamente. Paz se constrói não só por discurso, mas por mudança social. Esta é uma premissa.
CM – A educação comunitária, fora do sistema escolar, não pode ser um caminho mais profícuo de transformação, já que está mais próxima da realidade do aluno?
Haddad – Pode, mas esta educação perdeu muito espaço nos últimos anos. No caso brasileiro, estava voltada ao momento histórico da ditadura, quando as pessoas iniciaram uma certa reconstrução do tecido social através de processos educativos ligados a comunidades de base. As grandes lideranças que hoje estão no poder se formaram através de processos educativos permanentes fora do sistema escolar, nessas comunidades. O Partido Comunista, por exemplo, tinha uma longa tradição no processo de formação política de seus quadros. Mas isso se perdeu bastante. Com o processo de redemocratização da sociedade brasileira, o processo formativo se cola na dinâmica dos movimentos. Aquela formação que antes era feita nos sindicatos passa a ser feita nas grandes greves. O Movimento dos Sem Terra hoje diz que, se você não tem ação, você não forma pessoas. Ao mesmo tempo, a dinâmica dos partidos está mais voltada para a luta política parlamentar e pouco no sentido de formação de quadros. Então perdemos um pouco dos espaços mais miúdos de formação.
CM – Mas este movimento não está ressuscitando hoje de alguma forma?
Haddad – Está, mas em outra dimensão, sob um outro ponto de vista. O Fórum Social Mundial, por exemplo, recuperou este sentido formativo em suas diversas dinâmicas e nas atividades autogestionadas. Passou a ser uma grande instância. Mas ainda não recuperamos o que existia antes.

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