Aluno pobre deve ser tratado de forma focalizada
Quando Jailson Souza e Silva entrou para a universidade, a família, ao contrário do que se poderia imaginar, não gostou. Mas ele foi em frente. No terceiro ano de Geografia, na UFRJ, resolveu fazer também História na Uerj. Aí já era demais. “Recebi uma carta do meu irmão me esculhambando, dizendo que eu era um irresponsável, que estava na idade de eu trabalhar e casar e não ficar perdendo tempo com mais uma faculdade”, conta o hoje doutor em Geografia e professor da Universidade Federal Fluminense. Sua trajetória foi de tal forma uma exceção entre seus pares, jovens de espaços populares, que ele decidiu investigá-la em sua tese de doutorado. O resultado está registrado no livro Por que uns e não outros, trajetória de jovens pobres até a universidade, recém-lançado pela Editora Sete Letras. Nele Jailson pesquisa as razões que levam um número tão pequeno de moradores das comunidades de baixa renda a cursarem o ensino superior. E mostra que elas são múltiplas. “Você não vai resolver o problema tentando achar uma correlação de causa e efeito imediata em se tratando de vidas humanas”, diz ele.
Nesta entrevista, Jailson fala das estratégias que permitiriam derrubar a imensa cerca que afasta os pobres da universidade, defende o sistema de cotas como uma ação compensatória importante e também a adoção de bolsas para que esses alunos não precisem abandonar os estudos. “Há que se tratar desigualmente os desiguais. O aluno que vem de espaços populares precisa ter acesso a diferentes linguagens, ser tratado de forma focalizada e ter um conjunto de produtos, que lhe permitam viajar, usar computador, ter acesso a bens culturais. É preciso reconhecer que ele tem necessidades especiais”, afirma.
Por que existem tão poucos estudantes de favelas e outros espaços populares na universidade?
Jailson – O primeiro ponto central é reconhecer que não existe um único fator determinante desse problema. Tradicionalmente as principais teorias educacionais têm tratado disso numa perspectiva unifatorial. Segundo elas, o garoto não permanece na escola porque tem problemas proteicos, cognitivos, econômicos, culturais, porque pertence a uma família que não tem vontade, não se esforça, etc. O que eu tento trabalhar no livro é a conclusão de que existe um conjunto de fatores para a permanência tanto longa quanto curta desse garoto ou garota na escola. Você não vai resolver o problema tentando achar uma correlação de causa e efeito imediata em se tratando de vidas humanas. Mas existem algumas conclusões que a gente pode tirar: a primeira delas é que você só pode colocar alguma coisa diante de si como perspectiva de futuro se você tiver conhecimento dela.
Ninguém deseja o que não conhece.
Jailson – Exatamente, ou você pode até desejar mas não transforma aquilo em necessidade. No fundo, todo pai talvez tivesse o desejo de que o filho fosse doutor, mas enquanto para os setores médios a universidade já está incorporada de tal forma que a permanência na escola tornou-se uma necessidade, nos setores populares essa necessidade não existe. A família dos setores médios, principalmente aquela cujos membros são mais letrados, se empenha em manter o filho na escola, bota em “explicadora”, compra material, paga escola particular, etc. Essa é a estratégia educógena típica dos setores médios.
O que significa estratégia educógena?
Jailson – É aquela que entende a escola ou a educação como uma estratégia fundamental de ascensão social. Para os setores populares, existem outras dimensões na construção da permanência ou melhoria da posição social. Primeiro porque a escola tradicionalmente não está dentro da experiência paterna ou materna. As estratégias de investimento de ascensão social são variadas no tempo. Para as mulheres, historicamente, era o casamento. A menina era desde cedo preparada para casar. E para o homem, era o trabalho. Tudo isso dentro do pressuposto de que ela fosse uma mulher de bem e não ficasse falada, e ele, um homem trabalhador, que não virasse bandido. Quando a escola entra no cenário, ela vai se tornando gradativamente uma inevitabilidade, principalmente nas áreas urbanas. Mas isso só até um determinado limite, que é o momento que o garoto precisa começar a trabalhar.
Ele fica na escola o tempo suficiente para se qualificar minimamente para o mercado de trabalho?
Jailson – Lembre-se que estamos falando de famílias com muito poucos recursos. E a escola é um investimento de longo prazo, tanto pelo custo que se tem com ela quanto pelo que se deixa de ganhar ao manter um filho estudando. Quando ele permanece na escola ele é um peso dentro de casa. Até os 18 anos, quando o jovem vem de uma família educógena, como a minha, tolera-se que o garoto não trabalhe e que se dedique exclusivamente aos estudos, para concluir o Ensino Médio e, dessa forma, ingressar nas Forças Armadas, por exemplo. Mas a universidade não faz parte dessa estratégia, porque ela é vista como um peso numa idade em que o rapaz tem que trabalhar. Ela não está nem no horizonte dessas pessoas. Quando eu entrei na faculdade, isso foi um problema na minha casa. No terceiro ano de Geografia, na UFRJ, eu resolvi fazer também História na Uerj, e recebi uma carta do meu irmão me esculhambando, dizendo que eu era um irresponsável, que estava na idade de eu trabalhar e casar e não ficar perdendo tempo com mais uma faculdade. O que eu estou querendo dizer é que a universidade, para os setores populares, aparece como um investimento muito longo, precário e distante do seu universo. Para você ter uma idéia, nunca entrou um doutor na minha casa, nunca entrou um médico, um advogado, um contador…
Não se trata, então, apenas de um problema econômico. Existe também uma questão cultural, entre outras, que dificultam o acesso e a permanência na universidade.
Jailson – É uma questão bastante complexa, que envolve muitos fatores. Um dado, por exemplo, que quase não se leva em conta, mas que já está comprovado por várias pesquisas, é que o caçula entra menos na universidade do que o mais velho nessas famílias. Isso porque o mais velho incorpora uma série de valores, como responsabilidade, autonomia, disciplina, autoridade sobre os irmãos que os caçulas não incorporam em geral. Basta dizer que na minha tese, das onze famílias que entrevistei, nove primogênitos chegaram à universidade, contra apenas quatro caçulas. De 49 filhos, 25 chegaram à universidade, e desses, só quatro eram caçulas. Porque em geral o caçula se envolve mais com a vizinhança, que trabalha com o tempo mais presente, mais imediato, com uma lógica mais pragmática de vida. Quando você junta esse conjunto de fatores, que reúne família, que reúne grupos de vizinhança, que reúne a própria escola, você vê que juntos eles não apostam na longa permanência do aluno pobre. Por isso o Bolsa-Escola é tão importante. Ele trabalha com os grupos sociais mais vulneráveis e articula o presente e o futuro, ou seja, o investimento de longo prazo, que é a escolarização, articulado com a renda, que é atua no imediato e ajuda a família.
A própria forma como a escola se apresenta para esses alunos, formal, pouco interessante do ponto de vista cultural, também deve ser um fator de afastamento, não?
Jailson – A escola tem que funcionar como uma rede sócio-pedagógica, que amplie o espaço e o tempo sociais dos alunos, além do conteúdo formal que ela oferece. A primeira vez que eu saí do Rio de Janeiro, quando fui a Angra dos Reis, foi na universidade. Depois fui a Petrópolis, a Teresópolis, a universidade me possibilitou isso no plano físico e ao mesmo tempo no plano cognitivo, de acesso a um conjunto de teorias. Esse papel ninguém tira da escola. Ele exige disciplina, rigor, concentração, método. Para você incorporar o método científico, mais acadêmico, você precisa disso. Mas a escola pode fazer isso de outra forma, levando em conta as estratégias das famílias dos alunos e as deles próprios, e a partir disso tentar trabalhar essas características permitindo o acesso de outras formas. Como, por exemplo, usando outras linguagens, como a informática, o teatro, a música, a dança, as línguas estrangeiras, ou seja, se aproximar dos alunos de uma forma mais sedutora. A escola só trabalha a linguagem acadêmica. Ela trabalha numa lógica fordista, quando poderia trabalhar numa lógica pós-fordista, levando em conta os indivíduos, prestando mais atenção às características de cada um e vendo os diversos interesses e potenciais de cada um.
Vocês têm tido uma experiência extremamente positiva nesse sentido no trabalho desenvolvido pelo Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré, o Ceasm, não?
Jailson – A gente consegue botar um aluno na universidade em dois anos, um aluno que veio de uma escola pública, noturna, de um supletivo. Saiu uma pesquisa na PUC recentemente mostrando que o curso que aprova mais áreas e disciplinas fora das áreas humanas é o Ceasm. Dos 19 pré-vestibulares comunitários cadastrados na PUC, o Ceasm é o campeão de aprovação. Porque trabalhamos essas diversas dimensões. Nossos alunos têm que ter acesso a filmes, a vídeos, a produções de dança, de música, à informática…Isso obviamente aliado ao conteúdo, que vai exigir deles disciplina, concentração, método, etc. A escola não pode abrir mão disso, mas pode construir isso de outra forma.
Esses cursos pré-vestibulares para alunos pobres têm feito crescer sensivelmente o número de universitários de espaços populares. Mas a permanência deles ainda é um problema, na medida em que eles precisam se manter financeiramente e ficam em desvantagem em relação àqueles que podem se dedicar integralmente aos estudos. Você acha justo que se pague uma bolsa para que esses alunos não precisem trabalhar fora de sua área de estudo?
Jailson – Existem quatro questões fundamentais hoje relacionadas a esse garoto e a essa garota oriunda de espaços populares. Primeiro, a questão do acesso, que é dificílima. Então é preciso mudar as formas de acesso à universidade, e para isso existem várias possibilidades. Um problema muito comum ao garoto de área popular é que ele só sabe a matéria relacionada à área que ele quer fazer. Eu, por exemplo, era muito bom em história, geografia e português, mas nunca tinha estudado física e química. Um aluno que vem de uma boa escola, tem acesso a diferentes disciplinas e tem um conhecimento médio de tudo. Já um garoto de escola popular, ele é uma escada, sabe um pouco da matéria que tem interesse em estudar, mas sabe muito pouco de outras que tem menos interesse, tem problemas de ausência de professores, falta de acompanhamento escolar, etc. Por que um aluno que vai estudar pedagogia precisa saber química? Esse tipo de prova é ridícula. A cota é muito importante também. Para a escola pública municipal ou estadual. Ela não é solução, o ideal seria que todos pudessem competir em igualdade de condições, mas ela é compensatória. E por isso não há razão para se dar cota para alunos do Pedro II, do CAp da Uerj ou da UFRJ, porque eles têm condição de competir com alunos de boas escolas particulares.
Alega-se que esses alunos que entram por cotas têm uma grande defasagem de conhecimento em relação aos que entram pelas vias regulares e acabam baixando o nível acadêmico geral. Como se pode lidar com isso?
Jailson _ Nesse caso cabe à universidade fazer um diagnóstico desse aluno, ver quem ele é, quais são suas dificuldades e limitações para fazer aquele curso e ajudar a suprir esses recursos de forma que ele possa superar essa defasagem. Há que se tratar desigualmente os desiguais. O aluno precisa ter acesso a diferentes linguagens, ser tratado de forma focalizada e ter um conjunto de produtos para ele, que lhe permitam viajar, usar computador, ter acesso a bens culturais. É preciso reconhecer que ele tem necessidades especiais. Para a permanência, há duas exigências: tem que ter bolsa para ele se manter e tem que ter ajuda para a compra de material. Como um aluno pobre pode estudar odontologia ou medicina? Há a questão do compromisso social, que é uma obrigação da universidade. É claro que isso tem um custo, por isso acho fundamental que exista a contrapartida. Todo aluno que entra na universidade pública tem que, ao final do curso, trabalhar um ano ou dois anos, dependendo do custo do curso dele, com alguma entidade pública, seja do estado ou da sociedade civil, prestando serviço, ganhando uma bolsa. Ou seja, ela vai devolver para a sociedade o investimento que ela fez nele. Depois, ele pode abrir um consultório na Vieira Souto e cobrar mil reais uma consulta, não importa. Mas se ele freqüentou uma universidade pública tem que dar um retorno direto. Dessa forma, aquela população que de outra forma não teria acesso a um bom serviço de saúde, de engenharia, de direito, etc, passa a ter acesso através desses ex-alunos. E aí você pensa de outra forma o serviço público e seu grau de comprometimento com a sociedade. Se o aluno não quiser isso, ele tem a opção de ir para uma faculdade particular.


