O país dos desiguais

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Editorial 
 
No Brasil, a desigualdade de oportunidades começa no berço. Relatório recém-divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) demonstra que a disparidade de nível de renda representa um enorme diferencial para uma criança, mas não é em absoluto o único. De acordo com o estudo, raça, local de nascimento e até mesmo grau de escolaridade da mãe exercem influência preponderante sobre suas perspectivas de vida. Os exemplos a esse respeito só podem ser classificados de dramáticos.

Uma criança negra enfrenta possibilidades três vezes maiores de não ser alfabetizada do que uma branca. Se a mãe tiver menos de um ano de educação formal, aquele risco é 23 vezes maior, no comparativo com um menino ou menina cuja mãe tenha mais de 11 anos de estudos regulares. Um bebê no Acre tem 29 vezes mais probabilidades de morar em uma casa sem água do que outro nascido em São Paulo. Tão grave quanto esse cenário perverso e injusto é a indiferença com que fatos dessa natureza costumam ser encarados pela sociedade, já que se verificam há muito tempo em nossa trajetória nacional e passam a ser vistos equivocadamente como se fossem parte da ordem natural das coisas. É esse gênero de atitude que alenta o preconceito e a discriminação, pois está ela de tal forma entranhada no cotidiano de vastos extratos da população que o errado, e até o iníquo, acabam assumindo foros de normalidade. Na verdade, nada pode ser mais antinatural numa sociedade que se pretende democrática.

Seria enganoso depreender daí, porém, que é essa a distância que permeia entre um centro urbano como Parnaíba (PI) e outro como Ceilândia (DF). A desigualdade não é característica desta ou daquela região: distribui-se por todo o território nacional. Nas grandes metrópoles do Sudeste relativamente mais desenvolvido do que o Nordeste – e hoje, cada vez mais, também nos núcleos de porte médio -, cidadãos com o mais amplo acesso a todos os confortos e avanços tecnológicos encontráveis nos países mais ricos vizinham com aqueles que sobrevivem em condições similares às dos povos mais atrasados da Terra. Aos filhos dos primeiros não faltam excelentes escolas, nem cuidados de saúde. Os dos segundos são marcados pela fome, a doença, a ignorância, sentenciados a viver em locais precários, não raro redutos de promiscuidade e violência. É ali que se multiplicam o desamor, a desesperança, as agressões – não são incomuns as de ordem sexual – contra meninos e meninas.

O quadro é especialmente inquietante numa nação que elegeu entre as suas prioridades o enfrentamento da pobreza. É esse combate mais do que um imperativo moral: é também uma imposição social e econômica, pois exclusão costuma produzir mais exclusão. E não é outra a prole que estamos gerando.

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