Renata é uma menina negra gordinha e charmosa (embora não saiba), que tem dito à mãe que não quer mais ser negra nem gorda. Não pode mais ser negra porque sua melhor amiguinha, uma menina branca, só brinca com ela quando não tem outras amiguinhas brancas para brincar e, quando está com elas, despreza-a dizendo que não pode brincar com ela porque ela é negrinha.
Renata também não quer mais ser gorda porque, em sendo, também não poderá ser modelo – sonho de dez entre dez meninas no Brasil. Sonho que faz crescer de maneira aterradora a quantidade de meninas que comem cada vez menos, pelo medo de engordar, com os riscos previsíveis à saúde e ao crescimento e conseqüências conhecidas. Sonho que expressa mais uma derrota no esforço de positivação da diversidade: à ditadura da brancura soma-se a da magreza. A conjugação dessas perversas ideologias leva Renata a não querer ser mais o que é. Está prisioneira de uma pulsão de morte. Emagrecer ainda lhe seria possível, mas desnegrecer, sem chance!
Luanda, minha filha, certo dia, lá pelos seus 5 anos, chorava para ir à escolinha. Levei uns dois dias para ir à escola para saber o que estava ocorrendo e, quando enfim lá cheguei, fui informada pela professora, uma simpática e dedicada moça nissei, que sim, ela estava tendo problemas com alguns amiguinhos que ”brincavam” com seu cabelo chamando-o de cabelo de bombril o que a deixava muito molestada, mas que, felizmente, esse problema já havia sido resolvido porque ela, a professora, passou a esperar por Luanda à porta da escola, antes de ela entrar no pátio, para amarrar vigorosamente o seu indomável black power e assim conseguiu que os amiguinhos parassem com a ”brincadeira”. Desnecessário dizer que essa ”pedagogia” tão bem-intencionada nos levou, mãe, professora, diretora e orientadora pedagógica, todas para a delegacia. Muitos outros escândalos e muita doutrinação foram necessários para que enfim Luanda pudesse hoje, aos 23 anos, exibir sem medo e sem dor, a sua imensa cabeleira black ou suas tranças nagô.
Rogério é um menino negro de 8 anos. Vive na rua. Nunca foi chamado ou tratado como criança, ele é menor, pivete, menino de rua ou infrator. É assim que estamos acostumados a ver tratadas e retratadas crianças nas suas condições sobretudo nos meios de comunicação.
Por que essas histórias? Porque, de 25 a 27 de junho próximos, ocorrerá em Brasília o I Seminário Criança Esperança – Igualdade na Diversidade, promovido pelo Unicef, no qual, pela primeira vez, a questão da diversidade será tematizada como um eixo fundamental para a promoção dos direitos da criança do Brasil. Pautá-la significa enfim o reconhecimento de que a diferença racial, étnica, de gênero e outras tem se constituído elemento de restrição de direitos e promoção de iniqüidades para as crianças; é enfrentar a necessidade de superar uma visão universalista de criança que abstrai o sofrimento que a rejeição à diferença impõe a essas pessoas em processo de desenvolvimento. Os exemplos arrolados acima são algumas situações, e nem de longe as mais graves e perversas a que estão expostas, em especial as crianças negras.
O seminário se propõe a examinar as relações entre infância e adolescência e riqueza e pobreza no Brasil; nas relações étnico/raciais; nas relações de gênero; nas situação de deficiência; nas desigualdades regionais e nas questões urbanas e rurais. Visa extrair dos debates recomendações que possam ”indicar às políticas, programas, projetos e à sociedade em geral meios para:
– fortalecer o processo de reconhecimento da diversidade como um valor humano fundamental na promoção dos direitos humanos da criança e do adolescente;
– combater os mecanismos de exclusão, as determinantes das iniqüidades e construir e promover as condições de eqüidade…;
– para que as organizações possam participar ativamente, nessa perspectiva da valorização da diversidade, na formulação, execução, controle e avaliação de políticas públicas”.
É uma agenda animadora num contexto em que o silêncio em relação às formas de discriminação a que crianças estão expostas no Brasil é uma prática pedagógica e social como já demostrado nas pesquisas da educadora Eliane Cavalleiro. Em tese de doutorado recentemente defendida, a autora aprofunda esse tema e mostra a sua inércia mediante o estudo de três gerações de mulheres negras: avós, mães e filhas, todas igualmente submetidas às humilhações raciais sobretudo no espaço escolar. A mudança mais perceptível é que os antigos ”cabelos de bombril” são agora chamados de “asolam”! Da persistência dessas práticas, a autora extrai o título de seu trabalho ”Veredas das noites sem fim”.
Espera-se que o seminário possa indicar caminhos seguros e persistentes que permitam que as noites sem fim, produzidas pelo racismo e pela discriminação, possam dar lugar a dias claros e luminosos em que a luz das Renatas, Luandas e dos Rogérios deste país possa, enfim, brilhar resgatando a esperança de um tratamento digno a todas as crianças.


