Educação é a arma para o combate à escravidão

Picture of undime

undime

Ao participar de mais um debate na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro, sexta-feira, 23, às 19h30, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, convocou a platéia a participar do movimento educacionista brasileiro. Semelhante ao abolicionismo, o movimento será orientado para a educação. Ele acredita que essa é a hora de deflagrá-lo, pois neste momento está surgindo uma consciência muito clara, nacionalmente, sobre a importância da educação como saída para os males sociais. “Não demos terra nem escolas aos escravos, e eles não puderam participar da vida nacional; está na hora de trazê-los”.

A Cor da Pele: Raça e Escravidão foi o tema discutido no fórum, coordenado pelo jornalista e escritor Eduardo Bueno, com a participação de Cristovam Buarque, do presidente da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva, e do escritor e historiador Joel Rufino. Por se tratar de um tema polêmico e instigante, Bueno considerou o debate como um dos mais importantes da Bienal.

O ministro disse que o acesso à escola pública e de qualidade, na qual o conteúdo não seja racista, é a única saída para acabar com a discriminação que ainda existe no Brasil. Isso só deve acontecer, plenamente, daqui a alguns anos. “Se alguém quiser ver o Brasil daqui a 20 anos, é só visitar a escola pública brasileira”, declarou o ministro, mais uma vez.

Ele optou por se concentrar na palavra escravidão, em seu discurso. “Vou me concentrar nisso, porque o Brasil não libertou os escravos, apenas os abandonou”, disse Cristovam, demonstrando que tudo feito no País foi incompleto: a República, a Abolição, a Independência e a Democracia. O ministro lembrou que, em termos políticos, a democracia voltou totalmente ao País em 1988, mas ficou incompleta porque não foram feitas as mudanças sociais: “O analfabeto vota, não há censura à palavra, mas quando a gente olha pra trás, vê que não fizemos nenhuma reforma social”.

Para acabar com a exclusão, o caminho, para Cristovam, são as políticas sociais. Ao completar a República e a Abolição, o governo Lula deixará seu grande legado. Isso não será feito pela retomada do crescimento econômico e da distribuição melhor da renda, e sim por meio do acesso à educação de qualidade.

Ao dizer que, nos próximos 15 anos, o Brasil tem as condições necessárias para colocar 100% das crianças em escolas de qualidade, o ministro enfatizou que o governo está trabalhando três grandes itens: a valorização, a motivação e a preparação ou formação dos professores, por ser o professor o centro da escola.

Cristovam Buarque disse ser a favor do sistema de cotas para negros, mas defendeu que cada universidade deve ter seu próprio sistema, não ficando a instituição obrigada a adotar as cotas por meio de lei federal. Ele citou o exemplo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Recife, que adotou, recentemente, o sistema. “A cota não é o caminho para colocar o negro na escola, pois vai beneficiar o negro rico. O negro pobre não consegue terminar o ensino médio; a qualidade da escola pública é que vai mudar essa realidade. Durante a escravidão a brecha educacional era menor que hoje”, salientou.

Resgate – Autor de “A manilha e o liambo” e “ A enxada e a lança”, dois importantes livros sobre a escravidão no Brasil, Alberto da Costa e Silva disse ser preciso estudar a perspectiva da presença negra no Brasil, de forma positiva: “Precisamos ter orgulho dessa herança, pois foi o negro quem construiu o País. Ele é nosso verdadeiro herói”.

Para Costa e Silva, a igualdade na educação é o fator primordial para a ascensão social do negro no Brasil. Ele concorda que no passado o negro tinha mais acesso à educação: “A falência da escola pública contribuiu para escravizar o negro”.

Apesar de o País ter tido o maior influxo de escravos de toda a história da humanidade e ter mantido, talvez, durante mais tempo, em toda a história moderna, o tráfico de escravos, Bueno afirmou que nós, brasileiros, tentamos esquecer tal fato. Confirmando a ligação entre a cor da pele e a educação, Bueno disse que o País só vai ser construído com diálogo, como está sendo feito agora.

Estudioso do tema, Rufino, que é negro, disse que o preconceito racial é diversificado e tem várias modalidades: “Concordo plenamente com o ministro, a qualidade do ensino é quem vai poder mudar essa realidade”.

Realizado no Auditório Otto Lara Resende, no Pavilhão Azul do RioCentro, o debate foi transmitido pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) via Internet. 

Notícias recentes

Assine nossa newsletter