Muito se tem debatido sobre o papel das universidades públicas em nossa sociedade. Apesar da existência de opiniões bastante diversas, as mudanças de governo e de posicionamento da sociedade frente às questões sociais tornou indispensável às universidades ter mais compromisso social e ajudar o país na construção de uma sociedade mais justa.
Vários pontos precisam ser discutidos, especialmente no tocante às vagas remanescentes em função da evasão escolar. O combate à evasão deve ser uma das mais importantes políticas educacionais conduzidas pelo ministro da Educação e dirigentes universitários. Nós, da Universidade Federal do Paraná, temos feito um grande esforço para propiciar a nossos alunos um ensino de qualidade e um ambiente propício à realização dos seus sonhos. Porém, muitos continuam abandonando os cursos.
É fato que o país e seus cidadãos fazem um esforço grandioso para obter um resultado apenas regular no que diz respeito à formação de profissionais de nível superior. Por isso, nós, dirigentes de instituições de ensino superior, não podemos nos omitir diante desse problema.
Creio que a UFPR está fazendo a sua parte. Lançamos o Provar (processo de ocupação de vagas remanescentes) para o preenchimento de 1.247 cadeiras ociosas existentes na instituição. A primeira fase do concurso é dirigida somente a alunos da UFPR que desejavam transferência de turno, campus ou habilitação. A seguinte será voltada para alunos de outras instituições, inclusive particulares.
Se todas as demais universidades públicas de ensino superior — sejam elas federais, estaduais ou municipais — seguirem o mesmo caminho, cerca de 100 mil vagas ociosas estarão sendo preenchidas a custo zero em todo o país. Para a efetiva ocupação dessas vagas, é preciso que as universidades mostrem seu compromisso social, e que, acima de tudo, estejam determinadas a enfrentar as inúmeras dificuldades que surgem quando um processo de mudança como esse entra em curso. As dificuldades vão desde o entendimento equivocado da proposta, por falha na compreensão do processo, até a forma como diretores das instituições fazem o cálculo para a oferta das vagas.
Durante muito tempo o cálculo foi baseado na aplicação de fórmulas que quantificavam o número possível de alunos para um determinado curso. Exemplo: um curso que tem duração mínima de 5 anos, no qual entram 100 alunos a cada ano, obtém como número possível um total de 500 alunos. Teoricamente perfeito, 5 vezes 100 igual a 500. Na prática, um desastre! Dos 500 alunos, apenas uma parcela pouco superior à metade deles terminará o curso nos 5 anos previstos. Boa parte trancará a matrícula para realizar estágios não curriculares, outros sairão para trabalhar e outros simplesmente deixarão a universidade em função de problemas vocacionais ou pessoais. Alguns dirigentes universitários, com a finalidade de minimizar o problema, aplicam a fórmula com a duração média prevista para aquele curso, superior à duração mínima utilizada inicialmente — o que corresponde a um avanço, sem dúvida, mas que ainda não é a resposta.
O fato concreto é que não existe fórmula a ser aplicada. Aparecendo a vaga, ela precisa ser preenchida. A professora Terezinha Rios, doutora em Filosofia da Educação pela USP, resume assim a formação de um aluno no ensino superior. Ela diz que o processo de aprendizagem e formação profissional é como uma viagem de avião, na qual o comandante reitor e sua tripulação convidam os alunos para uma viagem de descobrimento e crescimento pessoal que tem por objetivo a formação de um profissional-cidadão na verdadeira acepção da palavra. Da filosofia para a prática é exatamente isso o que ocorre. Uma turma que inicia um curso superior é como um avião que levanta vôo. Ele certamente irá fazer sua viagem num período predeterminado de tempo, ou seja, o tempo mínimo de cada curso. Portanto, quando o aluno interrompe o curso é como se tivesse pulado de pára-quedas, pois o avião não pode parar.
À medida que o avião vai perdendo passageiros, só existe um meio para retomar a lotação da partida. É colocando novos passageiros que estão no mesmo nível de altitude, ou seja, no mesmo estágio da turma. Chegar ao ponto final com o avião cheio significa otimização de recursos, maior produtividade e acima de tudo uma importante política de inclusão social, pois possibilitará que passageiros que nunca terminariam a viagem cheguem ao destino, concluam o processo de formação profissional e se tornem importantes para a sociedade que tanto investiu neles.
Carlos Moreira Jr. é reitor da Universidade Federal do Paraná (UFPR)


