Muita gente boa não sabe que, no MEC, desde o ano passado, existem as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo. Não é documento feito de forma aligeirada, pois passou por mãos competentes no Conselho Nacional de Educação, antes da aprovação do ministro da Educação.
O que isso quer dizer?
Houve uma preocupação central com as questões do campo, daí as Diretrizes, que foram encaminhadas a Estados e Municípios para que se implementassem de acordo com as características locais. A estranheza reside na produção de um documento como se existissem dois brasis, um deles chamado genericamente de “o campo”. O que é isso na prática? Área rural e campo são expressões sinônimas? Parece mais uma forma de dividir o Brasil entre ricos e pobres, estes situados nos burgos mais afastados. Uma espécie de apartheid social sem nenhum cabimento. Ainda aqui cabe uma outra questão: as periferias urbanas terão o mesmo tratamento dos chamados moradores do campo? Em geral, as suas populações maltratadas provêm do interior.
Quem elucidará a dúvida?
O professor Carlos Roberto Jamil Cury (CNE) estudou detidamente o assunto, abrangendo comentários sobre o caipira e o sertanejo, hoje até valorizados, no sentimento do nosso povo, pela presença das duplas de cantores que fazem o maior sucesso, no rádio e na televisão. Saímos dos folclóricos Jararaca e Ratinho ou Alvarenga e Ranchinho para duplas altamente profissionais como Chitãozinho e Xororó. Isso representa a cultura do campo, da zona rural ou das periferias urbanas? E os povos da floresta, onde ficam?
Para alfabetizar jovens e adultos não basta contar com a boa vontade de universidades mais sensíveis. Ou de alfabetizadores improvisados, como ocorreu nos tempos do Mobral, com resultados precários na alfabetização de cerca de 5 milhões de brasileiros. É indispensável que haja um imenso esforço de treinamento dos que se envolverão no projeto. Com idéias que, por mais simples que sejam, darão ao alfabetizador a dimensão correta do seu trabalho. Com a experiência que acumulamos, garantimos que não se conseguirá nada com apenas cinco dias de treinamento, como foi apregoado. É necessário um tempo mais adequado.
Vejamos o exemplo do Distrito Federal, onde há mais de 100 escolas chamadas de rurais. Na Grande Brasília, crianças de diferentes séries estudam na mesma sala, com uma única professora. Esse exemplo é comum, no interior do país. Mesmo que as aulas de matemática, por exemplo, façam cálculo tomando por base as medidas do curral ou sacas de feijão. Para não ir muito longe, a confusão do grau de amadurecimento das crianças será uma característica indissociável desse processo.
Quando autoridades afirmam que não precisamos de mais salas de aula, fica claro que elas jamais saíram dos seus luxuosos gabinetes, não conhecem a realidade nem têm competência para encontrar as melhores soluções. Não se pode desejar uma educação de primeira qualidade nas zonas urbanas e conviver com uma outra de quinta categoria no interior. Educar ricos e pobres ainda vai dar um bocado de trabalho, se não forem tomados preliminarmente os cuidados necessários.
* Membro da Academia Brasileira de Letras


