Curva para a esquerda

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Antes da abertura do Fórum Mundial de Educação, realizado entre os dias 19 e 22 de janeiro, em Porto Alegre, o ministro Cristovam Buarque concedeu entrevista coletiva de 20 minutos a cerca de 70 jornalistas, entre brasileiros e estrangeiros, credenciados para a cobertura do evento. A diversidade das perguntas mostrou que a inquietação de toda a mídia, nacional e internacional, era saber o que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva fará no campo educacional. Ficou claro que os ideais de igualdade, outrora pregado pelo PT, abandonou as utopias e cedeu lugar ao reconhecimento das diferenças. Ao explicar o que é uma administração que dobrou à esquerda, o ministro falou em “tratar a todos de maneira muito próxima”. No lugar de acabar com as diferenças de classe, ele falou em fim da exclusão social, reconhecendo tratar-se de uma esperança modesta. De fato, não era essa a expectativa de quem, até outubro do ano passado, situava-se no conforto da oposição. Ficou claro também que a alfabetização e o ensino fundamental são os temas preferenciais do ministro. Para secretariar a alfabetização Cristovam anunciou, durante a coletiva, o nome do agrônomo João Luis Homem de Carvalho, contrariando as expectativas de quem apostava as fichas na deputada gaúcha, pedagoga e petista Esther Grossi. Quanto às universidades, há que se ter um pouco mais de paciência, porque muitos encontros ocorrerão até que as políticas sejam efetivamente anunciadas. A nova universidade, que segundo o ministro deverá vigorar por três décadas, só terá seu modelo desenhado em outubro, num grande encontro internacional apoiado pela Unesco. Mas durante a coletiva soube-se que o Provão não sofrerá mudanças, pelo menos este ano

— Cristovam disse que o ex-ministro Paulo Renato colou (e melhorou) o Provão aplicado por ele em 1986, na Universidade de Brasília. Soube-se também que o ensino técnico-profissionalizante voltará a dar crédito para participação no vestibular e que este será mantido, possivelmente multiplicado em três provas ao longo do ensino médio. O financiamento para estudar nas universidades particulares terá seus valores reajustados e atenderá, segundo o ministro, “pelo menos a uma boa parte” dos estudantes que pleitearem o FIES (Programa de Financiamento Estudantil). De acordo com Cristovam, esta é uma recomendação direta do presidente. O fim das vagas ociosas nas universidades também é do interesse direto de Lula, segundo Cristovam, mas ainda não se sabe o que será feito para isso. Veja o que o ministro disse aos jornalistas e à Folha Dirigida durante o Fórum Mundial de Educação:

Qual linha o senhor vai adotar no Ministério da Educação, agora como ministro?

Cristovam –

Idéia a gente tem como professor, como ministro a gente tem propostas e ações, depois que elas são aprovadas pelo presidente da República. Os três grandes eixos de propostas compatíveis com o programa de governo e que estão sendo analisados pelo presidente neste momento são, em primeiro lugar, o grande programa nacional pela abolição do analfabetismo no prazo de 4 anos; em segundo, a implantação de uma escola que seja compatível com as necessidades deste século 21, uma escola ideal naquelas cidades e estados onde houver cooperação e entendimento do prefeito ou do governador; e em terceiro, a construção de uma nova universidade no Brasil, que sirva à realidade que o mundo precisa e o nosso país também, uma universidade que seja capaz de acompanhar com a velocidade como o conhecimento é feito hoje e se espalha, e também que esteja sintonizada com as exigências éticas de um mundo com tanta exclusão. Tudo isso é para ser feito acompanhando as exigências emergenciais de cada um dos setores da educação.

Quando as políticas serão efetivamente anunciadas?

Cristovam –

Algumas já foram e estão em execução.

Não. Até agora o senhor só falou de alfabetização.

Cristovam –

Foi anunciado o Programa de Alfabetização no prazo de quatro anos, porque isso é basicamente uma tarefa do governo federal. No que se refere à escola ideal para o ensino básico, nós vamos ter duas reuniões. Uma com todos os secretários estaduais, no mês de fevereiro, e outra, ainda este mês (janeiro), com 1.100 dos secretários municipais. Juntos é que vamos construir, porque não haverá a escola que a gente quer, se não houver envolvimento dos prefeitos e dos governadores. E no sábado (o encontro foi na sexta-feira, 24, durante o Fórum Social Mundial), aqui mesmo em Porto Alegre, eu estarei o dia inteiro reunido com os reitores das universidades federais. Vamos discutir o que é que a universidade brasileira pode fazer para construir um novo Brasil e o que o governo tem que fazer pela universidade.

O senhor tem dito que a educação dará uma guinada à esquerda. Como será essa educação?

Cristovam –

Eu não disse apenas a educação. Eu disse o que o presidente Lula tem dito: que nós vamos governar dobrando à esquerda. Para mim, dobrar à esquerda — e isso vem sendo dito há muito tempo pelo meu partido — significa políticas sociais que consigam erradicar a exclusão social no Brasil. Houve um tempo em que dobrar à esquerda era construir a igualdade, hoje nós somos mais modestos. Dobrar à esquerda é não haver exclusão, é todos comerem, como é o programa Fome Zero. É todos concluírem o segundo grau com qualidade. Chamemos a isso uma educação mil. Termos um sistema de saúde que atenda de maneira muito próxima todos os brasileiros e todo mundo, sem exceção, ter um lugar onde morar com água potável, coleta de lixo e esgoto. Isso é dobrar à esquerda, é fazer com que todos os brasileiros tenham isso no prazo em que for possível ter.

Ministro, qual a diferença entre a Bolsa-Escola pagar R$15 por criança, como fez o governo passado, e pagar R$45 por família, como foi recentemente anunciado?

Cristovam –

Primeiro, a idéia não é R$45, mas R$65, sendo que R$45 sairiam do governo federal, mais R$10 do estado e R$10 do município. A diferença é de quase cinco vezes mais, de R$15 para R$65.

O que o senhor pretende fazer com o sistema de avaliação do ensino?

Cristovam –

Somos tão radicalmente a favor da avaliação, que a gente quer avaliar até mesmo a avaliação. É preciso lembrar que o ministro Paulo Renato, que eu acho que deixou uma marca positiva com a cultura da avaliação, utilizou uma avaliação que eu fazia quando reitor da UnB (Universidade de Brasília) em 1986, e melhorou bastante, ele avançou nisso. Agora nós vamos avançar, estamos trabalhando, mas não vai haver interrupção no processo de avaliação. O que a gente fizer é em marcha, para melhor. Temos que avaliar mais rigorosamente, mais amplamente e de uma forma mais eficiente. Toda avaliação tem que ser constantemente avaliada ela própria.

Como será a nova universidade?

Cristovam –

No próximo sábado eu vou estar inaugurando o debate que levará a isso com os reitores das federais aqui mesmo em Porto Alegre. A proposta é que a partir daí nós vamos chamar um grupo de cinco, seis ou sete pessoas, para formular o projeto, e em outubro nós vamos fazer um grande encontro internacional, com apoio da Unesco, já acertado, para debatermos como deverá ser a universidade no Brasil pelos próximos 30 anos. A última reforma na universidade brasileira foi feita pelos militares, o chamado MEC-Usaid. O mundo mudou muito de lá para cá e mudou sobretudo o governo que dirige o Brasil. Está na hora de um novo projeto, sem deixar de cuidar dos aspectos emergenciais que as nossas universidades padecem hoje.

Sobre sua proposta de trabalhar com os universitários no programa de combate ao analfabetismo. A maioria dos universitários está nas regiões Sudeste e Sul do país e a maioria dos analfabetos está na região Nordeste. Como isso se dará na prática?

Resposta – Eles cuidam dos analfabetos do lugar onde houver universidade. A idéia, inclusive, não é baseada no universitário, mas em todos que quiserem ser alfabetizadores, pagando. Não será um trabalho necessariamente voluntário. Quem quiser fazer voluntariamente fará, e se o universitário quiser fazer, acho que vai ser ótimo para a formação dele, mas os secundaristas também podem ser alfabetizadores e os professores da rede pública que quiserem, à noite, poderão ser alfabetizadores. Os 1,5 milhão de professores, mais 3 milhões de universitários, somam 4,5 milhões de pessoas perfeitamente hábeis para serem alfabetizadores. E a gente só precisa de 72 mil, ao longo de quatro anos, para alfabetizar 20 milhões. Não é muito. Tirar 70 mil de 4,5 milhões não é muita gente. Quando não tiver universitários, haverá professores. Nós temos que ser muito claros, porque há diversos analfabetos em lugares muito remotos e é possível que a gente não chegue lá, como a gotinha da poliomielite, que tem lugares em que fica difícil chegar. Mas vamos tentar chegar a todos os lugares.

E o problema da pedagogia, como é que fica?

Cristovam –

O método será absolutamente livre. Quem tiver o seu método…

Isso não vai de encontro com a carta-proposta do Fórum Social?

Cristovam –

A carta diz que só tem um método?

E a pedagogia, morre?

Cristovam –

Ao contrário, eu disse que há muitos métodos pedagógicos. Eu fui estudante de engenharia e alfabetizador pelo programa organizado por Paulo Freire.

Paulo Freire será a referência, ministro?

Cristovam –

Ele continua referência, mas não só ele. Nós temos que ser livres. Alfabetização visa a liberdade, ela não pode começar sob o signo do autoritarismo. Vale qualquer um dos métodos existentes. Aqueles que forem capazes de serem alfabetizadores serão, os que não forem não serão. Métodos pedagógicos, a gente quer que se desenvolvam muitos, mas livremente. Se amanhã inventarem uma injeção que alfabetiza, a gente vai comprar essa injeção.

Ministro, como as universidades serão financiadas?

Cristovam –

O Brasil abandonou a educação porque começou discutindo como financiar. A gente tem que começar a discutir o que fazer, depois como fazer, depois os recursos que precisam, depois o dinheiro. Se não vier nenhum recurso de fora do governo, precisaremos de R$1,5 bilhão por ano. Isso é 0,1% da renda nacional, é R$1 em cada R$1 mil do que esse país produz. Será que o Brasil não está disposto a pegar isso e usar para a alfabetização? Custou mais caro erradicar a escravidão e a elite brasileira em 1888 pagou para abolir a escravidão. Será que não pode pagar agora para abolir o analfabetismo? É muito pouco o que vai custar.

Quais são os parceiros mais próximos para este trabalho?

Cristovam –

Todo aquele que quiser participar desse processo, o setor privado, mas sobretudo os governos estaduais, municipais e a União. Estes são os três grandes parceiros que vão bancar, financiar, apoiar. Quem vai executar são as universidades, as redes públicas de ensino e todos aqueles que sabem ler e querem dedicar algumas horas por semana, durante um certo prazo, para que este país possa dizer ao mundo inteiro o seu exemplo, no espírito de Porto Alegre, que entrou no século 21 sem analfabetismo.

Gostaria que o senhor comentasse sobre eliminar o vestibular para ingresso na universidade. Quais outras formas teríamos, considerando a demanda que existe hoje e o pequeno número de vagas que as públicas oferecem?

Cristovam –

Nunca se falou em eliminar instrumentos de ingresso na universidade. Nunca a universidade vai ser capaz de receber todos que terminam o segundo grau. Isso é até uma arrogância dos universitários achar que todo mundo quer entrar na universidade. Sempre vai haver mecanismos de avaliação. O que eu defendo, o que implantei como governador e que tentei como reitor, é que metade dos alunos que entram na universidade sejam escolhidos dentro do ensino médio. Em Brasília, há sete anos, metade dos que ingressam na universidade, é pelas notas de três provas que a universidade aplica. Uma no final da primeira série do ensino médio, outra no final da segunda e outra no final da terceira. Os alunos que tiverem a maior média nas três provas entram. Com isso a gente consegue que os alunos estudem mais durante o ensino médio, a gente consegue evitar aquela tragédia da sorte, de uma só prova, de um só exame decidir a entrada na universidade, e a gente consegue uma interação maior da universidade com o ensino médio.

Ministro, como o governo pretende tratar a questão das vagas ociosas?

Cristovam –

Na reunião com os reitores das federais nós vamos discutir o problema das vagas ociosas e qual a forma de combater estas vagas. Essa determinação não saiu do Ministério da Educação, mas do próprio presidente da República. Ele me disse que não quer vagas ociosas nas universidades federais brasileiras e eu, como ministro, vou levar adiante, obviamente respeitando a autonomia das universidades, conversando com reitores, alunos, professores e servidores.

Algum projeto alternativo ao FIES?

Cristovam –

Ao FIES como instituição, não. Mas a forma de financiar, o valor, sim. Vamos ter uma proposta clara para melhorar as condições de financiamento. Essa é outra grande preocupação do presidente Lula, que sempre manifestou isso na campanha e disse mais de uma vez que poucas coisas são mais tristes do que ver um jovem que consegue passar no vestibular abandonando o estudo por falta de dinheiro. E nós vamos querer atender através do FIES pelo menos uma boa parte desses jovens que saem das escolas por falta de recursos.

A ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, disse recentemente que está buscando junto ao Ministério da Educação apoio para a educação ambiental, numa iniciativa que seria inédita no país, porque nunca se conseguiu fazer isso antes. O que poderia ser feito?

Cristovam –

Já estamos trabalhando para colocar o sentimento ético desde a primeira infância, mas não só o ensino relacionado com os problemas ambientais. A gente tem que levar desde a primeira infância todos os temas da contemporaneidade. Criança é capaz de aprender ética às vezes melhor do que nós, porque já somos viciados com certos valores. A criança é perfeitamente capaz de entender o problema dos transgênicos, da clonagem. As crianças são muito mais sensíveis no respeito à natureza, do que os adultos. Basta a gente levar com carinho e competência esses assuntos.

Como o governo pretende tratar a especificidade da educação no campo?

Cristovam –

Eu fico contente que esse tema seja trazido, porque eu comecei agora a discutir com o próprio MST (Movimento dos Sem-Terra) e eu quero deixar claro que eles me despertaram para o assunto e nós vamos incorporar, dentro da idéia dos grandes eixos da educação. A gente quer incluir como eixo o fato de que há diferença entre a educação da cidade e a educação do campo. Houve nos últimos anos uma ditadura, no sentido de levar para o campo a cultura, os valores e a educação característica da cidade. Não temos ainda a proposta feita, mas estamos trabalhando juntos, com o grupo do MST, e vamos procurar também a Contag (Confederação dos Trabalhadores na Agricultura) para formular um eixo em educação voltado para o campo.

Quais as outras frentes em que o ministério pretende atuar?

Cristovam –

Como o presidente determinou, e eu fico muito satisfeito, nós temos uma política imediata para dois que são os maiores problemas de risco: as crianças que trabalham e a prostituição infantil e juvenil. Temos um programa, que é simples, de uma Bolsa-Escola com um valor satisfatório e uma escola agradável. Se houver uma remuneração, não vai precisar trabalhar, se houver uma escola que atraia, essa escola vai segurar as crianças. Vamos trabalhar com as duas linhas, de melhorar a escola e garantir uma Bolsa-Escola decente.

Qual nome ocupará a Secretaria de Alfabetização?

Cristovam – Já está confirmado. O secretário é o João Luís Homem de Carvalho. É uma pessoa que já demonstrou, no cargo que ocupou no Distrito Federal, capacidade de levar adiante suas atividades. Não é um pedagogo, é um gerente. Os pedagogos, eu vou levar levar aqueles que a gente precisa junto de nós para darem o método. Ele (Homem de Carvalho) é uma espécie de trator, de gerente, de administrador, e eu acho até bom, porque não sendo um pedagogo, não vai ter preconceito contra nenhum dos métodos e não vai entrar, em nenhuma hipótese, nas brigas tão comuns entre as pessoas do ramo.

Qual sua visão sobre a inclusão da educação na lista do Gats?

Cristovam –

É absurdo pensar em mercantilizar a educação e ponto. Educação não se mercantiliza, como não se mercantiliza a religião.

O senhor conhece a proposta da Executiva de Estudantes de Comunicação como alternativa ao Provão?

Cristovam -Não conheço, mas estamos abertos para receber e considerar.

Como fica o ensino particular?

Cristovam – É simples. É avaliar. Se a gente avalia neste país a Coca-Cola e se há um sistema sanitário de alimentos, tem que ter um sistema sanitário de educação que avalie todos os ensinos. Ninguém é contra que uma pessoa pegue o seu capital e ponha na universidade. Eu prefiro que ponha na universidade, do que colocar no bingo. Agora, se é para pôr na universidade, tem que ser feito com responsabilidade, com seriedade, para que os alunos saiam satisfeitos com aquilo que eles gastaram.

O ensino médio e o ensino técnico vão continuar separados?

Cristovam – Eles são juntos.

Não. O ensino técnico não habilita para o vestibular.

Cristovam – Sim, isso a gente pensa em mudar, de maneira que possa habilitar também. É preciso dar ao ensino profissionalizante a dignidade do ensino médio, até porque, em alguns casos, ele é até superior.

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