Que menina trocaria, aos 10 anos de idade, as passarelas da moda por um laboratório de biologia? Daiana Sabrine Pauli fez esta opção, ainda que a contragosto da mãe. Mesmo depois de superar diversas eliminatórias em concursos de modelo, Daiana prefere trocar as luzes do mundo fashion pelas lentes de um microscópio. A precoce manequim de curvas longilíneas já fez sua escolha profissional. Será bióloga vegetal. Essa convicção é resultado da educação em uma escola pública que foge dos padrões convencionais. Uma prova de que a educação de qualidade é possível no Brasil.
O exemplo vem de um pequeno município do Paraná, num dos extremos do País, na fronteira com o Paraguai. Itaipulândia não tem escola particular e nenhuma criança está fora da sala de aula. Mas são outros os motivos que levam esse município de 7.500 habitantes a distoar da média nacional. Além do ensino convencional, Daiana freqüenta aulas de teatro e participa do projeto de leitura. Poderia fazer também aulas de balé, teclado, piano, gaita, violão, dança folclórica, pintura em tela, desenho, oficina de artes, orquestra de cordas e projeto Libras (Língua Brasileira de Sinais).
Estas são algumas das atividades extra-curriculares disponíveis aos alunos da Escola Carlos Gomes. Não se trata de exceção, e sim de uma regra nas quatro escolas municipais do ensino fundamental. Mas não são apenas esses aspectos que determinam o diferencial do ensino público em Itaipulândia. A criticidade faz parte do dia-a-dia dos estudantes. “Nós temos a preocupação de formar cidadãos críticos, que avaliem o conhecimento adquirido”, diz a diretora, Rosilene Ferri. “A escola tem essa missão de despertar desde cedo na criança o papel que ela quer desempenhar na sociedade”.
Foi essa formação crítica que despertou em Daiana a opção pela biologia. A mãe, Benice Maria Pauli, bem que tentou convencer a filha do sucesso que faria nas passarelas. Os primeiros passos haviam sido dados em concursos regionais, eliminando mais de 400 candidatas. A matrícula em um curso de modelo estava garantida. Nada disso adiantou. A menina está convicta: “Quero ser bióloga vegetal”. Não se trata de teimosia infantil, mas de alguém que ainda cedo já tem um projeto de vida.
A qualificação profissional do corpo docente contribui para essa distinção dos alunos da Escola Carlos Gomes. Dos 35 professores regentes, 27 têm curso superior e outros sete estão concluindo a graduação, motivados pelo crédito educativo municipal. No início de cada ano letivo, uma equipe multidisciplinar reúne-se com a Secretaria de Educação para avaliar o projeto pedagógico. Porém, a escola tem autonomia e faz de forma participativa o seu projeto, diagnosticando o perfil de seus alunos e respeitando suas necessidades.
A diretora observa que se a escola não conhecer seus alunos, não poderá elaborar um currículo escolar que reflita o meio social e cultural em que se insere. A Escola Carlos Gomes atende a maior parte dos 1.060 alunos do ensino fundamental de Itaipulândia. As outras estão localizadas na zona rural. O município mantém ainda uma creche com 92 crianças de zero a seis anos e uma escola de educação especial com 34 alunos, além de outros onze portadores de deficiência inseridos na educação inclusiva no ensino regular.


