Às vezes, se o governador fizer escola, terá menos votos do que se fizer praças, ou pontes, por exemplo. A verdade é que, no Brasil, educação não dá voto’’
Cristovam Buarque
Com três folhas brancas sobre a mesa quadrada de madeira e uma caneta, tipo brinde, com uma bandeira do Canadá na ponta, o futuro ministro da Educação, Cristovam Buarque, rabisca quadrados e insiste na idéia de que o ensino superior deve ser desvinculado de sua pasta. ‘‘Universidade é uma coisa séria demais para se deixar em segundo plano no Ministério da Educação’’, argumenta. Com segundo plano, Cristovam quer dizer que dará mais ênfase ao ensino básico, sua obsessão. ‘‘Se um ministro diz que os níveis fundamental e médio estarão em primeiro lugar, inevitavelmente, o superior virá depois.’’
Originalmente, a idéia de Cristovam era a de criar uma pasta específica para as faculdades e universidades. Não sendo isso possível, o plano B seria transferir esse nível de ensino para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Diante da reação dos professores, estudantes, sindicatos e sociedade, Cristovam vê freada a sua vontade. Terá de abdicar um pouco de sua obsessão para aplicar-se também a bons projetos do ensino superior. E ele começa a gostar do que planeja. Uma das novas idéias é criar programas de avaliação seriada (PAS) para a entrada na faculdade. Ao invés de um vestibular, três provas ao final de cada série do ensino médio, como funciona na Universidade de Brasília. ‘‘Um presidente metalúrgico vai deixar sua marca na universidade’’, diz o futuro ministro.
Em entrevista dada ao Correio na véspera do Natal, Cristovam justifica-se aos brasilienses que deram a ele o cargo no Senado Federal. Diz que sai com tranqüilidade do Senado para o ministério. ‘‘Como ministro, vou cumprir meu compromisso com Brasília por meio do compromisso com o país.’’ Confira a seguir os melhores trechos da entrevista com o futuro ministro da Educação.
CORREIO BRAZILIENSE — O PT sempre brigou pelo reajuste do piso do Fundo de Valorização do Magistério (Fundef). O fundo está defasado em R$ 11,8 bilhões. Esse será um dos principais desafios da sua administração no ministério?
CRISTOVAM BUARQUE — Certamente, será um desafio. Temos até o dia 10 de janeiro para avaliar como reajustar esse valor. Eu prefiro não especular sobre a possibilidade de conseguir ou não aumentar o piso.
CORREIO — O senhor pensa em acabar com o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem?
CRISTOVAM — A idéia é criar programas de avaliação seriada (PAS) para acesso ao ensino superior em todo o país. O PAS é mais amplo que o Enem, que é uma só prova. Mas isso implica em gastos adicionais. Os programas serão implantados em municípios e estados em que prefeitos e governadores se interessem por participar deles. A mania de educação, que o presidente Lula quer criar no Brasil, não vai surgir no país inteiro de uma vez.
CORREIO — E se um político local não quiser desenvolver os programas sugeridos pelo governo federal?
CRISTOVAM — É natural que haja políticos que dêem mais ênfase a um setor que a outro. Às vezes, se o governador fizer escola, ele terá menos votos do que se fizer praças, ou pontes, por exemplo. A verdade é que, no Brasil, educação não dá voto. É coisa feita para a próxima geração, não para a próxima eleição.
CORREIO — Como será sua relação com Joaquim Roriz, reeleito para governar o DF. O presidente Lula disse que, se a Justiça fizer justiça, o próximo governador do DF será Geraldo Magela. O que o senhor entende dessa frase?
CRISTOVAM — Entendi da frase o que ela diz. E eu concordo com o presidente Lula. Uma justiça eleitoral séria no DF e no Brasil perceberá que o atual governador usou de instrumentos ilegais para se eleger. Mas, eu sou parte de um time e não vou fazer perseguição a nenhum governador.
CORREIO — As pessoas votaram com o sentimento de vê-lo no Senado. O que é que o senhor tem a dizer aos seus eleitores?
CRISTOVAM — Brasília não é uma ilha. No dia em que melhorarmos uma escola no sertão de Pernambuco, vamos melhorar Brasília, porque poderá não vir mais um retirante para cá. Para melhorar a capital, é preciso melhorar o país. Acho que, como ministro, vou cumprir meu compromisso com Brasília por meio do compromisso com o país.
CORREIO — Por que o senhor não se candidatou ao governo do DF?
CRISTOVAM — Não dá certo ser governador pela segunda vez. FHC teria sido muito melhor se ficasse no primeiro mandato. O governador Joaquim Roriz, se tivesse parado no primeiro mandato, teria deixado uma impressão boa. Seu quarto mandato será um desastre completo. O governador Roriz me faz pena, ele é uma figura decadente na política. Eu fui candidato à reeleição em 1998 por pressão do partido. Se eu negasse, ficaria com o poder enfraquecido.
CORREIO — No que consiste essa revolução na educação à qual o senhor se refere? No governo Fernando Henrique, conseguiu-se matricular 94% das crianças na escola. O desafio agora é de quantidade ou qualidade?
CRISTOVAM — O governo atual, sem dúvida, teve avanços quantitativos. Nós queremos matricular 100% dos meninos na escola. Se a gente conseguir elevar de 97% para 98% de matrículas, ao invés de comemorar, temos de pedir desculpas aos 2% que faltam.
CORREIO — E quanto à qualidade?
CRISTOVAM — Matrícula é, na verdade, um indicador falso. É preciso analisar a freqüência, saber quem ficou lá todos os dias, depois, quem foi aprovado e se o aprovado aprendeu. Essa revolução de qualidade não acontecerá em quatro anos. A matrícula para todos é possível nesse período. Mas a qualidade exige a mudança da geração. Isso deve demorar entre 15 e 20 anos.
CORREIO — Essa revolução começou no governo Fernando Henrique?
CRISTOVAM — Eu diria até que essa revolução já começou. Houve passos nesses últimos anos, tímidos para oito anos, mas houve. A bolsa-escola federal foi um avanço, mas esperou sete anos para começar. Vamos precisar também que a formação de professores evolua. Eles têm de se adaptar ao uso de equipamentos, ganhar mais, estudar mais. Graças à Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), vai ser preciso que os professores tenham ensino superior em 2006.
CORREIO — Mas quem está formando grande parte desses professores são as faculdades privadas, que têm avaliações ruins no Provão.
CRISTOVAM — Nem todas. Há instituições particulares bem avaliadas. Mas temos de aumentar o envolvimento das universidades públicas na formação de professores.
CORREIO — O senhor ainda defende a idéia de transferir a responsabilidade da universidade pública para o Ministério da Ciência e Tecnologia?
CRISTOVAM — É bom ser criticado por uma idéia que se acha boa. Eu havia sugerido a criação de um Ministério do Ensino Superior. Como segunda alternativa, se não fosse possível criar um ministério, seria melhor ficar na Ciência e Tecnologia. Por que é que os peixes merecem ministério, o que é uma grande coisa, de fato, e os estudantes universitários não?
CORREIO — Essa idéia significa que o senhor não dará prioridade ao nível superior?
CRISTOVAM — Um ministro não consegue ter duas obsessões, a não ser que seja louco. No Brasil, são necessárias duas obsessões. Uma pelo ensino básico, outra pelo superior. Universidade é uma coisa séria demais para deixar em segundo plano. Se um ministro diz que os níveis fundamental e médio estarão em primeiro lugar, inevitavelmente, o superior virá depois. Não vou poder deixar o ensino superior de lado, mas vou ter de sacrificar minha obsessão pelo básico.
CORREIO — O que deve mudar no ensino superior?
CRISTOVAM — É preciso um plano emergencial para ele. A universidade precisa de mais apoio e de uma reforma estrutural. Ela deve ter compromisso com o fim da abolição da pobreza. O ensino superior é frio, e isso deve mudar. Os estudantes de arquitetura devem aprender a construir casas para pobres, não só edifícios luxuosos. Os futuros advogados devem entender dos direitos dos excluídos, não só dos privilegiados.
CORREIO — Com tanta proposta social para a universidade, o senhor ainda quer passá-la adiante?
CRISTOVAM — Confesso que eu estou gostando dos planos para a universidade. Não vou querer, depois de começar, passar para outro. Me fascina a idéia de um presidente metalúrgico deixar sua marca na universidade. O ensino superior deve estar à frente do seu tempo. Para isso, tem de ser excelente. É uma arrogância da universidade achar que todo mundo precisa ser doutor. Na verdade, todo mundo quer ter um salário bom e usa a universidade como porta para um bom salário.
CORREIO — Vai haver dinheiro para tanta mudança?
CRISTOVAM — Há outros recursos que podemos buscar que não são financeiros. Há o potencial humano. Vamos equacionar o desperdício financeiro. Vamos procurar dinheiro com envolvimento da sociedade e as empresas privadas.
CORREIO — O senhor avalia que a sociedade vai se empenhar para ajudar no financiamento da educação?
CRISTOVAM — A maior dificuldade política do próximo governo é quebrar o arquipélago de corporação no qual se transformou o país. Cada grupo luta para si. Falta uma costura no tecido social. O povo brasileiro, ao votar no Lula, percebeu que é hora de acabar com esse corporativismo.


