| Nehil Hamilton 27.11.02 |
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| Francineide e Francisco são educadores do campo e representam a diversidade que existe no Brasil |
A semente da educação rural está mal cuidada no Brasil. O último resultado do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), divulgado no início de dezembro, demonstra que as notas dos alunos de 4ªsérie do ensino fundamental caíram em 2001, se comparadas aos resultados de 1999. A variação foi de 5 pontos negativos em Matemática, e de 6 em Língua Portuguesa.
O resultado vale para o país inteiro. Mas a explicação do Ministério da Educação (MEC) é uma só: as notas abaixaram porque o Saeb avaliou, em 2001, escolas rurais do Nordeste, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
Quem estudou em escola tradicional do campo não guarda boas lembranças. A jovem Elisângela Nunes Pereira, 20 anos, é um exemplo. Filha de um vaqueiro de São João d’Aliança (GO), ela teve de sair de casa criança para estudar. Foi morar com amigos perto da escola rural da comunidade. O ensino médio, terminou em São João mesmo. E, no ano passado, veio para a capital do país trabalhar no Grupo de Apoio à Reforma Agrária da Universidade de Brasília (UnB) e tentar vestibular para Pedagogia.
Não demorou muito para Elisângela chegar à conclusão de que ‘‘a educação oferecida no campo não serve para nada’’. ‘‘Se você estuda a vida inteira na fazenda e vem para a cidade descobre que não tem base nem para prestar vestibular. Para ficar no campo, ela também não serve, porque não está de acordo com a realidade’’, conclui.
Os especialistas reclamam principalmente do material didático. O que se ensina no campo é o livro da cidade. Em Matemática, predominam os exercícios dos prédios de 20 andares, por exemplo, quando os alunos deveriam calcular tendo por base as medidas do curral ou as sacas de feijão.
‘‘A educação do campo é tudo o que envolve o meio rural. Não se trata apenas da relação ensino-aprendizagem. Seus desafios, sua história, sua cultura, as políticas agrárias’’, explica Mônica Molina, coordenadora do grupo da Reforma Agrária da UnB. Desde 1998, a instituição faz parte do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera), que envolve 55 universidades públicas do país.
Diretrizes
As Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo foram aprovadas no ano passado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) e homologadas pelo MEC. Agora, cabe aos estados e municípios implantarem-nas de maneira adequada. ‘‘O que se discute hoje é a noção de campo. Não se trata apenas da área rural que não entra no plano diretor urbano da cidade. Será que um município com menos de cinco mil habitantes pode realmente ser considerado uma zona urbana típica?’’, pergunta Carlos Roberto Jamil Cury, presidente da Câmara de Educação Básica do CNE.
Como exemplos de populações rurais do Brasil, Cury cita o caipira e o sertanejo, claro. Mas menciona também os povos da floresta (grupos indígenas e seringueiros, entre outros), os ribeirinhos, os pescadores. O homem do campo, no Brasil, pode ser simbolizado por Francisco Paixão, 31 anos, negro. Ele faz parte do grupo de remanescentes de quilombo em Amarante (PI). Ou por Francineide Lopes, 40 anos, natural de Juazeiro do Norte (CE), mas moradora de assentamento próximo à Cristalina (GO).
Os dois participaram do Seminário Nacional de Educação do Campo, em novembro, na UnB. São alfabetizadores de jovens e adultos. Francineide cursou até a 7ª série. Rodou muito o país, trabalhando como doméstica e sendo chamada de ‘‘caipira’’.
‘‘Fui para a sala de aula por necessidade das pessoas de aprender a ler e a escrever. Muitas vezes, saio em busca dos meus alunos, porque eles têm vergonha de ir para a escola. Aprendemos a contar com moeda, estudamos pesos e medidas com feijão e arroz e fazemos trabalho de artesanato. Eles dizem que estão mais independentes’’, conta Francineide, que voltou a estudar e cursa agora a 8ªsérie.
O quilombola, Francisco do Piauí conta com o apoio da universidade federal do estado para alfabetizar os jovens e adultos. Dá aula à noite. Durante o dia, trabalha na roça. Planta feijão, milho, mandioca. As crianças, enquanto isso, têm aula com três professoras de Amarante, para desagrado de Francisco. ‘‘Elas vêm da cidade, trazem os livros da cidade e não sabem nada da nossa cultura’’, critica. Ele, de seu lado, conta para seus alunos a história da comunidade de 400 pessoas, todas com o mesmo sobrenome — Rabelo Paixão. Festeja o candomblé, reverencia Nossa Senhora da Saúde e batuca nos tambores fabricados pela própria comunidade.
Várias séries na mesma sala
Quem diria que o Distrito Federal tem mais de cem escolas ‘‘rurais’’? Pois é. A concentração maior é na região administrativa de Planaltina, onde há 39 estabelecimentos. Na área rural do DF como no resto do Brasil, crianças de idades e séries diferentes estudam na mesma sala com uma única professora. A educação, entretanto, é quase urbana. ‘‘A preocupação de manter a criança no campo, faz sentido até certo ponto. De uma maneira geral, a gente trabalha com habilidades e competências e dá abertura para que os professores valorizem o meio do aluno’’, diz Surama Chalub, gerente de assistência técnica à educação rural da Secretaria de Educação. Assim é que os 54 alunos da Escola Classe Lamarão, na área rural de Planaltina, cultivam a horta que serve à escola e à comunidade. ‘‘A gente planta couve, quiabo, alface, pimentão. E, depois, come salada e toma sopa’’, diz François Gomes, 11 anos, aluno da 4ª série. ‘‘A horta é aproveitada em todas as disciplinas. Em Ciências, aprendem noções de higiene’’, acrescenta Arlete Alves, diretora da escola. Morador do Núcleo Rural Lamarão, François vai a pé para a escola. Percorre o caminho de terra em 40 minutos. No Lamarão, ele mora com o pai. A mãe trabalha de faxineira na Asa Sul e só aparece em casa uma vez por mês. Além de estudar, François por vezes ajuda o pai, que é vaqueiro. (NN) |
| União nacional Por muito tempo, a educação do campo foi assunto relegado no Brasil. Há quatro anos, porém, o tema entrou em voga. A Conferência Nacional por uma Educação Básica do Campo, realizada em julho de 1998, em Luziânia (GO), deu início à articulação nacional formada por universidades, órgãos de governo e organizações não-governamentais. No ano passado, as Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo foram elaboradas e aprovadas pelo Conselho Nacional de Educação. Veja o que elas pregam, basicamente: e a da colheita; |




