O futuro ministro da Educação, Cristovam Buarque, decidiu mudar o método de seleção de alunos para as universidades brasileiras, hoje baseado apenas no tradicional vestibular. Cristovam anunciou que pretende estender para todo país o Programa de Avaliação Seriada (PAS), usado desde 1996 para ingresso na Universidade de Brasília (UnB). Na avaliação seriada, em vez de fazer uma prova para entrar na faculdade, como no vestibular, os estudantes do ensino médio fazem uma prova no fim de cada ano, somando o resultado das três ao fim do curso. Os que obtiverem notas mais altas são classificados.
— Quero fazer em todo país, mas vou fazer onde houver governadores e universidades que queiram fazer, porque depende deles — disse Cristovam.
A intenção não é que as universidades passem a selecionar alunos apenas pelo PAS, mas que esse tipo de avaliação conviva com o vestibular. A avaliação seriada seria dirigida apenas a jovens que estão cursando o ensino médio. Parte das vagas em cada curso ainda seria destinada a pessoas que já concluíram o ensino médio e isso seria feito pelo vestibular normal, com algumas mudanças.
Hoje as instituições de ensino superior têm o poder de estabelecer qual será sua forma de seleção. Para implantar o PAS, o Ministério da Educação teria de negociar até mesmo com os reitores das universidades federais, já que cada universidade tem um tipo de seleção própria. Uma das armas do ministério para convencer reitores e governadores — que coordenam as universidades e sistemas estaduais — é dinheiro.
— O ministério poderá contribuir com recursos para a mudança na forma de seleção. A implantação da avaliação seriada provoca novos custos — disse Cristovam.
Nova avaliação é mais completa
Apesar dos problemas de implantação e dos custos extras que o PAS poderia trazer para as universidades, Cristovam acredita nos benefícios. O fato de avaliar o aluno nos três anos, e não apenas numa prova no fim do ensino médio, seria o primeiro deles. Cristovam considera que a avaliação é muito mais completa dessa forma e menos estressante para o aluno.
O futuro ministro considera ainda que as provas anuais vão mexer com a estrutura das escolas de ensino médio e com o aluno.
— Uma prova todo ano obriga o aluno a estudar nos três anos e a se dedicar mais. E o aluno vai cobrar de sua escola mais qualidade em todos os anos e em todas as matérias — disse o futuro ministro.
O incentivo para o uso da avaliação seriada vai descaracterizar uma das maiores apostas feitas pelo atual governo. Hoje, o MEC incentiva as faculdades a usarem o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) como parte da seleção. Mais de uma centena de instituições hoje usa a nota dos alunos no Enem, somada a uma avaliação própria, para selecionar seus alunos. Cristovam não pretende acabar com o Enem, mas não acredita que essa seleção seja um avanço em relação ao vestibular.
— É um vestibular, só que feito pelo MEC — disse ele.
Atualmente, além da UnB, que foi a pioneira, outras 13 universidades fazem a avaliação seriada. Com exceção da Universidade Católica Dom Bosco (MS), todas as demais são federais, como a de Santa Maria (RS), uma das primeiras a adotar o programa, junto com a UnB e a Federal da Paraíba. A dificuldade de ter o PAS em instituições privadas pode ser justamente o custo. Diferentemente do que pode ser feito com as públicas, o MEC não pode ajudar as particulares financeiramente.
Saiba mais sobre o programa
BRASÍLIA. O Programa de Avaliação Seriada (PAS) foi criado em 1996 na Universidade de Brasília (UnB) e iniciado no mesmo ano na Universidade Federal de Santa Maria. Os primeiros selecionados entraram na universidade em 1999.
Feito em conjunto com o vestibular tradicional, mas com provas diferentes, o PAS tradicionalmente tem metade das vagas de cada curso na universidade. A outra metade fica para o vestibular.
As provas são realizadas no fim de cada ano letivo. No fim dos três anos do ensino médio, os três resultados são somados e os mais bem colocados são classificados.
As provas não consideram apenas o conteúdo de um ano. Os testes de segundo e terceiro anos vão somando o conhecimento dos anos anteriores. Para alguns, a avaliação pode ser considerada mais difícil do que o vestibular comum.
Inicialmente, o PAS era reservado apenas para estudantes matriculados no ensino médio. No entanto, em 1999 uma ação federal obrigou as instituições a permitirem que qualquer um se inscrevesse nas provas, mesmo que já tivessem terminado a escola.
A lei determina igualdade de direitos a todos que queiram tentar uma vaga no ensino superior. Mas, enquanto os alunos do PAS podiam também fazer o vestibular, os inscritos na seleção normal não podiam fazer o PAS.


